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18.5.26

Em fuga

Em um mundo em guerra, é preciso pensar em pelo menos duas coisas. A primeira é o que fazer se as bombas começarem a ser despejadas por aqui, nas nossas fuças. A segunda é procurar se distrair, não dá para ficar ligado nessa loucura o tempo todo, caso contrário a bomba estoura dentro do peito e o velho coração não aguenta.

Se atingirem nosso quintal, eis a verdade, não estaremos apenas mais angustiados que o goleiro na hora do gol, estaremos liquidados. Fico boquiaberto ao ver drones atirando não sei onde, mísseis viajando milhares de quilômetros e, antes de atingirem o alvo, serem bloqueados por interceptadores. É um jogo de videogame com sangue e tristeza na fase final. Nosso país, até onde sei, não tem grandes recursos nem de defesa nem de ataque.

No Brasil, os que vivem fora do Rio – mais ou menos noventa por cento da população – têm uma visão aumentada da violência fluminense e acham que já temos túneis de escape e não sei mais o quê. Não é verdade. Apesar de mãos sujas estarem assinando leis e comandando o orçamento nas instituições de poder, a violência está concentrada na periferia da Cidade Maravilhosa, envolvendo o Grande Rio, e é muito seletiva. As balas, em obediência a dedos muito bem treinados, têm preferência pelos garotos pretos. Portanto, não estamos em situação privilegiada – oh, que ironia seria isso! – em relação ao resto do Brasil. Ou seja, meus amigos, façam suas conexões ao divino de sua crença, pois não temos controle sobre a engrenagem do mundo, mesmo com a nossa boa diplomacia, que o governo anterior quase destruiu.

Diante de situação tão desesperadora, é preciso se distrair. A festa, como se diz, não é alienação, é proteção, terapia, apaziguamento. Festejemos. Eu festejo saindo com amigos, jogando conversa fora – aqui e ali falando sério, pensando o mundo, que por sua vez nos ignora –, ouvindo música e principalmente lendo e escrevendo.





Há uma diferença entre ler e escrever. Escrever exige uma busca de algo a ser dito, então dificilmente se escapa dessa barafunda na qual nos encontramos. Ler requer uma abertura, ir lá no que o outro escreveu em busca de diálogo. Leio no momento “O jogo da Amarelinha”, do Cortázar, um mais que romance, um ensaio sobre o romance, uma destruição do romance, mas que, assim mesmo, conta a história de um portenho que se encontra em Paris e, depois de expulso da França, volta a Buenos Aires. É um sujeito que não é simpático, aliás, nem um pouco, mas, ao carregar tantas questões em sua trajetória meio sem pé nem cabeça, nos carrega para bem próximo dele. O autor argentino tinha a manha e, topetudo, enfrentava a grande literatura mundial no braço, de igual para igual.

Ler um livro como o romance argentino nos distrai, mas não nos livra da angústia, que, no extremo, leva à guerra. Então ler nem sempre se parece a uma festa. A menos que você recorra à crônica. Não a qualquer uma – esta, por exemplo, não serve –, mas àquelas nas quais seus escritores se entregam às minudências da vida. Rubem Braga é mestre nisso. Clarice Lispector também, às vezes. Fernando Sabino pesponta e chuleia assuntos triviais. Temos uma longa tradição, e ouso dizer que a crônica, tendo ou não nascido por aqui, é brasileiríssima e se parece às nossas forças armadas em um aspecto: não tem ataque nem defesa muito fortes. Ela está na fronteira da inutilidade, de onde nada se espera e, não raramente, nos socorre de alguma “dor canalha”, como dizia Walter Franco.

Na revista Rubem, além de nós, seus colunistas, você encontra uma aba com grandes crônicas brasileiras: além dos três já citados, Nélida Piñon, Paulo Mendes Campos, Cecília Meireles, entre outras e outros, estão lá, num pot-pourri delicioso. Num site incrível, Portal da Crônica Brasileira, o leitor pode esquecer até dos boletos, aqueles contra os quais travamos nossa guerrinha diária.

25.12.17

Repertório

O editor da Rubem é um jovem, o Henrique Fendrich. Nem bem sei como um dia ele me convidou para escrever em sua revista eletrônica, o fato é que eu aceitei, e minhas crônicas por ali passeiam há mais de cinco anos. Encontrei em Henrique um conhecedor da crônica brasileira, um senhor conhecedor, melhor dizendo. Ele, que também é cronista dos bons, realmente leu tudo, o que deveria garantir-lhe um espaço nas festas literárias, nos saraus do Sesc, em júris de concurso, mas, até onde alcanço do seu dia a dia, isso não acontece. O jornalista Henrique vive de trabalhos avulsos em Curitiba. Oh, Brasil!

A erudição do jovem editor, vez por outra, levanta do pó do esquecimento algum ou alguma cronista. Recentemente foi a vez de Marisa Raja Gabaglia, escritora que escancarava o peito, virava-se do avesso. Não conheço absolutamente nada do que ela escreveu, portanto foi no perfil feito pelo Henrique que encontrei a seguinte frase: “Sonho com a família perdida como se a pudesse recuperar. Sonho com a família como os cegos sonham com a luz.”

Em meados de dezembro, passei uns dias na companhia do meu amigo Marco Túlio Costa — um Escritor, disse noutra oportunidade e repito em quantas julgar necessário. Acontece que o Túlio não é só um escritor, é também um sujeito que vira e mexe arruma um projeto para atuar como voluntário. Seu livro “A árvore do medo” (Editora Formato), por exemplo, foi escrito a partir de suas oficinas com crianças carentes da cidade de Passos, onde vive. Ultimamente, ele trabalha com a Associação dos Deficientes Visuais. Nesses dias que passamos juntos, meu amigo me contou várias histórias da turma que acompanha, histórias divertidas, pois aqueles cegos são alegres e contornam com humor suas limitações. Túlio perguntou a dois cegos de nascença se eles sonhavam e com o que sonhavam. A resposta é que sonhavam com sons e tatos.

Marisa Raja Gabaglia, ao dizer que sonha com a família da mesma forma como os cegos sonham com a luz, está idealizando o sonho dos cegos ou simplesmente está dizendo — ela, que abriu mão da sua — que, na verdade, não sonha com família alguma? A julgar pelo levantamento da vida da escritora, esse do Henrique, a frase está apoiada na ilusão de que os cegos sonham com a luz, pois Marisa era carente do convívio familiar.

Certa vez, ouvi o Túlio (onipresente por aqui) aconselhar algumas professoras do ensino médio a não se preocuparem com o que o escritor quis dizer; como leitores deveríamos nos perguntar o que aquilo escrito sabe-se lá por quem significa para nós. Acabei de dar esse tropeço, mas até certo ponto justifico-o. Não houvesse eu sido alertado para a espécie muito singular de que é feito o sonho de um cego (pelo menos aqueles que nasceram assim), a frase de Gabaglia teria uma única leitura. Tendo ganhado repertório, a leitura se multiplicou e desse modo tornou-se mais interessante. Ah, como isso é bom. E como leva uma vida inteira nosso processo de alfabetização.