Aos dois meninos, quer dizer, aos três, a mim também
Em
torno da mesa, somos três e estamos, por assim dizer, no meio do mato; na
verdade, longe da cidade, num sítio. Do sol impiedoso da manhã não sobrou nada,
a noite é chuvosa e quase fria.
Ali
nos reunimos com certa frequência. Levamos livros, trabalhamos; no final do dia,
na cozinha, preparamos alguma coisa para comer e tomamos, dependendo da vontade,
vinho, cachaça, uísque ou cerveja — claro, água também. Nessa hora, a conversa
vai de nossa preocupação com o Brasil, esse país em permanente sobressalto, até
nossas lembranças de fatos vividos em companhia um do outro ou não. Muitas histórias
são repetidas por esquecimento, outras por incapacidade de esquecê-las, mas não
faltam casos antigos e desconhecidos e, como nos mantemos vivos, um par de novidades.
Temos
com a ironia certa intimidade, por isso rimos de tudo, em particular de nós
mesmos. Apesar disso, carregamos dores e perdas, que também frequentam as
conversas. Enfim, a amizade reina ali soberana em seu território.
No
último encontro, sem que seja possível precisar como iniciou um papo tão
estranho, falamos sobre nossos umbigos, e cada um contou o que aconteceu com aquele
que nos ligou à mãe nos nove meses de gestação. Sem a menor ideia do destino do
seu, um dos amigos nos deu uma enquadrada, o assunto era um nojo só. Não demos
bola à reclamação. A mãe do outro havia guardado o dele envolto numa gaze, isso
sim um nojo. Contei que o meu e os dos meus irmãos e primos, até mesmo dos tios
e o do meu pai, estavam enterrados no Gordurinha, fazenda que passou de meu avô
para minha avó, dela para os filhos, que, em corda bamba financeira, venderam
suas partes a um cunhado. Meus dois amigos pediram para eu deixar de ser
prolixo e ir direto ao ponto.
Continuei
prolixo, e eles pacientes. Meus avós tiveram vinte e dois filhos, quatorze
sobreviveram, doze procriaram. Meus pais, por exemplo, trouxeram ao mundo duas
meninas e dois meninos, mas outros irmãos de meu pai deram contribuição ainda
maior, o que também se viu repetido na geração imediatamente posterior. Enfim,
naquele chão da roça, perto de um cruzeiro que não sei se ainda existe, tem
umbigo a dar no pau.
Ou
a dar em monstro.
Aqui
começa o devaneio. Numa ficção científica de horror, da terra que suportou o
peso de muita vaca leiteira e cavalos de lida emergiria um ser feito de umbigos,
um monstro assumidamente narcisista. Uma criatura que, solta no mundo,
percorrendo cidades, palácios abandonados — quiçá os de Brasília — e parques de
diversão, assustaria as pessoas, promovendo um corre-corre na tentativa de
escapar de quem buscava espelhos, não vítimas. Tumulto gratuito que causaria
atropelamentos e mortes. Em filme, horror e catástrofe são receita de sucesso.
Nenhum
de nós tem pendor para escrever ficção dessa natureza. Assim, incapazes de
levar o projeto à frente, decidimos (eles decidiram, registre-se e publique)
que o degas aqui escreveria esta crônica desarrazoada, deixando à disposição de
interessados a ideia. Nos pareceu, talvez pelo estímulo do vinho — bebido com
algum exagero —, termos aberto um campo fértil. Mais que isso, imaginamos que
um de vocês pudesse se apossar do argumento, escrever o roteiro, levantar a
grana — prefiram a Lei Rouanet ao dinheiro privado que família mal-intencionada
mendiga a banqueiros corruptos —, produzir e filmar. Já antevemos o tapete
vermelho de Hollywood e a estatueta em mão brasileira.
Alimentamos
a pequena esperança de sermos lembrados no discurso de agradecimento. Podem
falar nos três amigos que, mesmo embriagados, não deixaram uma ideia tão
brilhante se perder nos arredores da Mantiqueira.