Não sei o que será de nós no próximo domingo. De um lado, um presidente experiente, responsável por grandes avanços na área social, além de político bem-visto mundo afora. De outro, um relativamente jovem cujo currículo inclui compras de imóveis com dinheiro vivo, administração fraudulenta de uma loja de chocolates, amizade inconteste com milicianos e matadores de aluguel e servo dedicado do ditador estadunidense. É difícil imaginar que optemos pela segunda alternativa, mas o Brasil, que não gosta de ficar de fora dos grandes fiascos, tem uma elite nadando de braçada na onda fascista do mundo.
Se o energúmeno ganha, a Idade Média será um sonho de
futuro. O compromisso dessa gente com a exploração e a indiferença com a
pobreza é umbilical. Mesmo que Lula triunfe, com o congresso montado como está,
pouco avanço será possível. Jogaremos pelo empate, feito o Botafogo de 1971, terceiro
lugar no brasileiro. Vou lá atrás no tempo porque são as coisas de que me
lembro, tempo em que eu era menino e só pensava em futebol. Bem, em 1971, o
Botafogo empatou doze dos vinte e cinco jogos, ganhou oito e perdeu sete. Nosso
técnico era um ex-jogador do time, o paraguaio Egídio Landolfi. Lula será o
Landolfi retranqueiro da vez.
Desde a derrota no primeiro turno, a candidatura do atual
presidente teve de partir para o ataque. Depois de levar um pito feio da
garotada que domina as redes sociais — em especial da espetacular Ana Elisa,
deputada federal recém-eleita por Minas Gerais, e do polêmico Janones —,
passamos a ver Lulinha fazendo vídeos de si mesmo, ora falando de pautas
importantes, ora malhando, ora tendo contato com eleitores. Aqui e ali,
seguindo o modelo, falando alto, lançando perdigotos, até agressivo. O PT,
tarde, tarde, descobriu que o mundo mudou. Para isso, foi preciso que Ana Elisa
alertasse que, num ponto de ônibus na volta do trabalho, as pessoas não olham a
rua ou uma TV ligada num bar ou loja, mas sim o celular. É isso, a gente goste
ou não.
Como agir num mundo que pode andar para trás ou noutro que
pode não sair do lugar? É aí o espaço do amor. Do amor mais íntimo, seja de
casais ou de amigos, seja de parentes (não rompidos) ou de colegas de trabalho.
Não há outro jeito, o elo do amor nos ajudará a enfrentar — inclusive na praça,
no caso de os arroubos ditatoriais do delinquente virem à tona — a situação.
A arrancada final da campanha do Lula tem levado o pessoal,
em particular os estudantes, para a rua. A força irradiada desses encontros,
puro afeto, há de reverberar no pós-eleição. E há de animar a nós, os que acreditamos
em um mundo civilizado — sem armas, com livros e diálogo. Assim poderemos
seguir adiante nos próximos anos, que serão, no mínimo, difíceis, podendo
chegar a insuportáveis, retrógrados, violentos.
Portanto:
Beije bastante.
Dê carinho a seus filhos.
Ligue pra sua mãe, agradeça-lhe pelo peito, pelas
orientações, pelas brigas.
Ligue pra seu pai, agradeça-lhe até pelo distanciamento.
Faça filhos. Adote filhos.
Acolha um gato, um cachorro. Solte os pássaros.
Converse com os loucos da rua.
Ao beber, erga o copo e deseje saúde.
Cumprimente o gari. Dê um abraço na garçonete. Ceda o lugar
na fila.
Ouça música (sem incomodar quem estiver por perto). Veja
filmes. Leia livros, pelo amor de Deus, leia livros.
Vá ao estádio, xingue quem tiver de xingar, mas saia
abraçado com a torcida adversária e ore pela mãe do juíz.
Dê a mão ao idoso inseguro para atravessar a avenida.
Milite nas pautas contra o racismo e a LGBTQIAPN+fobia.
Batalhe pela igualdade entre homens e mulheres.
Respeite as religiões.
Assobie por conta de nada.
Todavia:
Guarde um pouco de ódio, é certo que será necessário fazer
uso dele em algum momento, caso o pior aconteça.
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