5.10.26

Argumento cinematográfico

 

Aos dois meninos, quer dizer, aos três, a mim também


Em torno da mesa, somos três e estamos, por assim dizer, no meio do mato; na verdade, longe da cidade, num sítio. Do sol impiedoso da manhã não sobrou nada, a noite é chuvosa e quase fria.

Ali nos reunimos com certa frequência. Levamos livros, trabalhamos; no final do dia, na cozinha, preparamos alguma coisa para comer e tomamos, dependendo da vontade, vinho, cachaça, uísque ou cerveja — claro, água também. Nessa hora, a conversa vai de nossa preocupação com o Brasil, esse país em permanente sobressalto, até nossas lembranças de fatos vividos em companhia um do outro ou não. Muitas histórias são repetidas por esquecimento, outras por incapacidade de esquecê-las, mas não faltam casos antigos e desconhecidos e, como nos mantemos vivos, um par de novidades.

Temos com a ironia certa intimidade, por isso rimos de tudo, em particular de nós mesmos. Apesar disso, carregamos dores e perdas, que também frequentam as conversas. Enfim, a amizade reina ali soberana em seu território.

No último encontro, sem que seja possível precisar como iniciou um papo tão estranho, falamos sobre nossos umbigos, e cada um contou o que aconteceu com aquele que nos ligou à mãe nos nove meses de gestação. Sem a menor ideia do destino do seu, um dos amigos nos deu uma enquadrada, o assunto era um nojo só. Não demos bola à reclamação. A mãe do outro havia guardado o dele envolto numa gaze, isso sim um nojo. Contei que o meu e os dos meus irmãos e primos, até mesmo dos tios e o do meu pai, estavam enterrados no Gordurinha, fazenda que passou de meu avô para minha avó, dela para os filhos, que, em corda bamba financeira, venderam suas partes a um cunhado. Meus dois amigos pediram para eu deixar de ser prolixo e ir direto ao ponto.



Continuei prolixo, e eles pacientes. Meus avós tiveram vinte e dois filhos, quatorze sobreviveram, doze procriaram. Meus pais, por exemplo, trouxeram ao mundo duas meninas e dois meninos, mas outros irmãos de meu pai deram contribuição ainda maior, o que também se viu repetido na geração imediatamente posterior. Enfim, naquele chão da roça, perto de um cruzeiro que não sei se ainda existe, tem umbigo a dar no pau.

Ou a dar em monstro.

Aqui começa o devaneio. Numa ficção científica de horror, da terra que suportou o peso de muita vaca leiteira e cavalos de lida emergiria um ser feito de umbigos, um monstro assumidamente narcisista. Uma criatura que, solta no mundo, percorrendo cidades, palácios abandonados — quiçá os de Brasília — e parques de diversão, assustaria as pessoas, promovendo um corre-corre na tentativa de escapar de quem buscava espelhos, não vítimas. Tumulto gratuito que causaria atropelamentos e mortes. Em filme, horror e catástrofe são receita de sucesso.

Nenhum de nós tem pendor para escrever ficção dessa natureza. Assim, incapazes de levar o projeto à frente, decidimos (eles decidiram, registre-se e publique) que o degas aqui escreveria esta crônica desarrazoada, deixando à disposição de interessados a ideia. Nos pareceu, talvez pelo estímulo do vinho — bebido com algum exagero —, termos aberto um campo fértil. Mais que isso, imaginamos que um de vocês pudesse se apossar do argumento, escrever o roteiro, levantar a grana — prefiram a Lei Rouanet ao dinheiro privado que família mal-intencionada mendiga a banqueiros corruptos —, produzir e filmar. Já antevemos o tapete vermelho de Hollywood e a estatueta em mão brasileira.

Alimentamos a pequena esperança de sermos lembrados no discurso de agradecimento. Podem falar nos três amigos que, mesmo embriagados, não deixaram uma ideia tão brilhante se perder nos arredores da Mantiqueira.


Nenhum comentário: