6.6.11

O chico do Chico

Para Maria Balé, Denise Ribeiro, Carlos (in memoriam),
Alejandro e Gonzalo. Também para o Chico, claro.
Ah, como não sou maluco, para minha
irmã Teresa Cristina.



Conversando com amigas, conto-lhes que em 1984, em companhia de chilenos que viviam no Brasil fugindo da ditadura, fui jogar contra o time do Chico Buarque de Holanda, o Polytheama.  Falar do Chico é conquistar de forma instantânea a cumplicidade feminina — não só delas, para ser sincero. As duas mulheres com quem eu dividiria em breve uma pizza grudaram os olhos em mim, esperando a história.
Formávamos eu, don Alejandro Tumayán e Carlito Bravo o meio de campo de um time bom de gole. Tanto era assim que adentramos as quatro linhas numa ressaca das canjebrinas, resultado de uma concentração rigorosíssima. Talvez por isso, Gonzy, meu irmão boliviano, tivesse tanta dificuldade em saber o lado que deveríamos atacar. No time ainda havia outros chilenos, brasileiros e bolivianos, além de argentinos. Em síntese, o sonho de Bolívar feito realidade em short e tênis bamba (não tínhamos chuteiras). O time adversário nem se importou com o significado político do nosso catado e nos deu uma sova daquelas.
Mal terminada a pelada, o Chico já estava numa segunda, driblando toda espécie de joões que surgia a sua frente. Ele é daqueles poucos seres de inúmeras aptidões, e nisso se parece com o querido Nelson (craque na escrita, na viola, na fotografia e no desenho) e com meu amigo de infância, o Tista (brilhante nos esportes). O Chico ainda tem aqueles olhos... Volto à história, que é o que interessa e de onde não deveria ter arredado pé.

O sol estava de lascar. Me ajeitei numa sombra. Não havia cerveja gelada, logo ficar longe do sol era uma espécie de consolo. Carlito se aproximou, estava exausto. Estudante de psicologia e trotskista, via no exercício físico um desperdício de energia. Guardássemo-nos para entender Freud e derrubar ditaduras, defendeu ofegante. Roubando-me meia sombra, acrescentou que se decepcionara um pouco com o dono da bola: era muito preparo físico para alguém que chacoalhara e chacoalhava ainda a ditadura brasileira.
Vi o Chico sair do campo, passar no meio do pessoal e seguir para o banheiro. Não pensei duas vezes e fui atrás dele, deixando sozinho meu velho e bom Carlito, que, àquela altura, cofiava a barba e acendia um cigarro. Fui de caso pensado: precisava conhecer o “instrumento de trabalho” daquele endiabrado centroavante. Minha irmã, por exemplo, pagaria uma boa grana por qualquer informação relacionada à parte não pública de seu mais que ídolo.
Chegou a pizza. Como é boa a pizza paulista. Olha o absurdo, a crônica já alcança sua metade final e ainda não contei que estava em São Paulo, compartilhando a mesa com duas escritoras que conheci por intermédio de outros amigos. Duas joias raras que pela primeira vez eu via, pois até então havia tido apenas contatos por correio eletrônico. Com a chegada da pizza, a prosa deu uma meia trava. O garçom nos serviu, cortamos os primeiros pedaços, que, comidos, levaram-nos a suspiros e estalos de línguas, essas reações típicas de quem celebra o prazer do paladar.
Enquanto degustavam a pizza, teriam pensado em como seria o chico do Chico? Vou saber! Minha ida ao banheiro atrás do craque tinha como pressuposto que todas as mulheres se interessariam por tamanha informação. A começar por minha irmã.
Quando entrei no banheiro, Chico não usava o mictório, estava fechado no compartimento do vaso sanitário. Por isso, não vi nada do extraordinário ou do não extraordinário. Havia visto, em campo, suas canelas finas e avermelhadas, marcadas por algum joão truculento e pouco habilidoso com a bola. Era tudo.
Sei que a história é decepcionante. Mas não posso contá-la de outra forma, mentir, dizer que vi o que não vi. Não sei o que você, leitor, sente ao lê-la, mas minhas amigas —  em nome de uma relação que queremos perene — foram educadas, extremamente educadas: não reclamaram, não me deram vaia, pediram até para eu escrever sobre aquela manhã futebolística.

Obediente, fiz o que me pediram, contando tudo, tintim por tintim, com um grau bem razoável de verdade.






(Montagem da foto feita a partir de um "flagra" de Luciana Avellar da Revista Contigo)
(Na concentração: Paulinho, Átila, eu, Gonzalo e Carlos)


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