Em um mundo em guerra, é preciso pensar em pelo menos duas coisas. A primeira é o que fazer se as bombas começarem a ser despejadas por aqui, nas nossas fuças. A segunda é procurar se distrair, não dá para ficar ligado nessa loucura o tempo todo, caso contrário a bomba estoura dentro do peito e o velho coração não aguenta.
Se atingirem nosso quintal, eis a verdade, não estaremos apenas
mais angustiados que o goleiro na hora do gol, estaremos liquidados. Fico
boquiaberto ao ver drones atirando não sei onde, mísseis viajando milhares de
quilômetros e, antes de atingirem o alvo, serem bloqueados por interceptadores.
É um jogo de videogame com sangue e tristeza na fase final. Nosso país, até
onde sei, não tem grandes recursos nem de defesa nem de ataque.
No Brasil, os que vivem fora do Rio – mais ou menos noventa
por cento da população – têm uma visão aumentada da violência fluminense e
acham que já temos túneis de escape e não sei mais o quê. Não é verdade. Apesar
de mãos sujas estarem assinando leis e comandando o orçamento nas instituições
de poder, a violência está concentrada na periferia da Cidade Maravilhosa,
envolvendo o Grande Rio, e é muito seletiva. As balas, em obediência a dedos
muito bem treinados, têm preferência pelos garotos pretos. Portanto, não
estamos em situação privilegiada – oh, que ironia seria isso! – em relação ao
resto do Brasil. Ou seja, meus amigos, façam suas conexões ao divino de sua
crença, pois não temos controle sobre a engrenagem do mundo, mesmo com a nossa
boa diplomacia, que o governo anterior quase destruiu.
Diante de situação tão desesperadora, é preciso se distrair.
A festa, como se diz, não é alienação, é proteção, terapia, apaziguamento.
Festejemos. Eu festejo saindo com amigos, jogando conversa fora – aqui e ali
falando sério, pensando o mundo, que por sua vez nos ignora –, ouvindo música e
principalmente lendo e escrevendo.
Há uma diferença entre ler e escrever. Escrever exige uma
busca de algo a ser dito, então dificilmente se escapa dessa barafunda na qual
nos encontramos. Ler requer uma abertura, ir lá no que o outro escreveu em
busca de diálogo. Leio no momento “O jogo da Amarelinha”, do Cortázar, um mais
que romance, um ensaio sobre o romance, uma destruição do romance, mas que, assim
mesmo, conta a história de um portenho que se encontra em Paris e, depois de
expulso da França, volta a Buenos Aires. É um sujeito que não é simpático,
aliás, nem um pouco, mas, ao carregar tantas questões em sua trajetória meio
sem pé nem cabeça, nos carrega para bem próximo dele. O autor argentino tinha a
manha e, topetudo, enfrentava a grande literatura mundial no braço, de igual
para igual.
Ler um livro como o romance argentino nos distrai, mas não nos livra da angústia, que, no extremo, leva à guerra. Então ler nem sempre se parece a uma festa. A menos que você recorra à crônica. Não a qualquer uma – esta, por exemplo, não serve –, mas àquelas nas quais seus escritores se entregam às minudências da vida. Rubem Braga é mestre nisso. Clarice Lispector também, às vezes. Fernando Sabino pesponta e chuleia assuntos triviais. Temos uma longa tradição, e ouso dizer que a crônica, tendo ou não nascido por aqui, é brasileiríssima e se parece às nossas forças armadas em um aspecto: não tem ataque nem defesa muito fortes. Ela está na fronteira da inutilidade, de onde nada se espera e, não raramente, nos socorre de alguma “dor canalha”, como dizia Walter Franco.
Na revista Rubem, além de nós, seus colunistas, você encontra uma aba com grandes crônicas brasileiras: além dos três já citados, Nélida Piñon, Paulo Mendes Campos, Cecília Meireles, entre outras e outros, estão lá, num pot-pourri delicioso. Num site incrível, Portal da Crônica Brasileira, o leitor pode esquecer até dos boletos, aqueles contra os quais travamos nossa guerrinha diária.
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