21.5.06

Vaca de Nariz Sutil





Você saca o quadro acima? Não? Descobri-o há pouco, passeando pela WEB. O que buscava? Alguma referência sobre “Vaca de Nariz Sutil”, livro de Campos de Carvalho. O quadro tem o mesmo nome e é do pintor Jean Dubuffet, que, descubro também na WEB, nasceu no início do século XX, tendo sido sua obra atrelada a “arte bruta”, da qual seria o maior representante.

De que forma o quadro está presente na novela de Campos de Carvalho é difícil dizer, e nessa minha imensa pesquisa de dois minutos não encontrei nenhuma referência sobre isso. No entanto, não há nada que uma boa conjectura, neste domingo de céu aberto outonal, não resolva.

Uma vaca de nariz sutil, onde já se viu isso? Se há uma coisa que ninguém presta muita atenção é em nariz de vaca. Dela, olhamos as tetas e os chifres e ficamos muito impressionados em saber que tem um estômago com quatro cavidades, uma que recebe a comida (sem mastigação), que, regurgitada, volta à boca para então seguir o caminho comum da digestão. Esse processo digestivo tem muito mais de sutileza do que o nariz do quadro em questão. Compare-o à foto abaixo. Há algum indício de diferença entre o focinho (melhor do que nariz, aliás) estilizado de Dubuffet e o natural? Não acho.




Eis o mistério. Vamos entrar na história do livro. Um ex-combatente de guerra, que recebeu todas as honras que um país dá a essa classe de gente, apesar de ele mesmo se ver como um assassino, será transformado em um perigoso criminoso (para os outros) quando cometer uma violência sexual contra a filha do administrador do cemitério. O nome dela, Valquíria.


(Um aparte: num dos milhões de lendas existentes mundo afora, essa nórdica, salvo engano (pesquisas de dois minutos são esquecidas em mais ou menos dois minutos e dezesseis segundos), conta-se que as Valquírias seriam seres que escolheriam entre os combatentes aqueles que deveriam morrer para formar um exército no outro mundo, o melhor exército na realidade, com vistas a proteger Odin numa futura guerra.)

Pois bem, a Valquíria de Campos de Carvalho vai em busca de um combatente, de um herói mesmo, embora este não esteja, no frigir dos ovos, morto. Aqui se coloca a questão: se é ela quem corre atrás, por que é ele quem paga o pato? “Sempre é a mulher quem tomba diante do homem, portanto, sobre o masculino recairá invariavelmente o ônus da violência”. Tudo bem, temos aí uma resposta. No entanto, inapropriada. A Valquíria de nariz sutil busca sem buscar; seduz sem se colocar sedutora. Em tudo é igual a qualquer mulher, mas não é igual. Não digo o porquê, leia o livro quem quiser.

A sutileza, no livro de Carvalho, não está na história até certo ponto previsível — ainda que a escrita em primeira pessoa favoreça o desconforto por nos colocar tão próximos do narrador, esse que virou assassino e descreve o crime. Não está na dança da sedução. Não está no ambiente do cemitério, tão e sempre habitado pela morte.

A sutileza do livro está em digeri-lo à maneira dos ruminantes. Aos 18 anos, como fiz, engoli-lo sem mastigação. Regurgitá-lo para novamente engoli-lo. Dessa vez aos quarenta e quatro, depois de tombar em inúmeras guerras sem que nenhuma Valquíria descesse do céu para levar consigo este bom soldado.

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