Enquanto as bombas estouram a mando de boçais, a prima de mamãe, caminhando para os cem anos, faz lindos crochês e os vende numa lojinha improvisada à porta de sua casa. Nessa mesma hora, o doceiro de Tiradentes prepara os mil tachos de seu doce de leite sem açúcar, uma receita inventada por seu pai e que caiu como uma luva nesse mundo de controle severo dos níveis de glicose no sangue.
Enquanto as bombas inteligentes matam a cúpula do poder
iraniano — e uma penca de civis, não poucas crianças entre eles —, meu netinho,
vestido num parangolé de algum super-herói, comemora seus dez anos. No instante
em que os contra-ataques são planejados e executados, eu e meus primos pelo
lado do papai, alguns que eu nem conhecia, brindamos o encontro.
Enquanto os homens com cara de assassinos e não de chefes de
estado regozijam de seus feitos de morte, um casal se extasia em seus corpos
tão comuns e naquele instante alçados à beleza máxima. Paralelamente, um
desportista passa creme nas pernas doloridas pelo esforço recente.
Enquanto outros homens do poder se dizem abismados com o
ataque e a morte do líder de um país soberano — alguns desses homens travando
suas próprias guerras sem grandes cuidados com a tal “ética” —, um entregador
leva pizza a uma família de poucos luxos a não ser um pequeno assim, no final
de semana. Em uma cidade aflita, mas não em guerra, tampouco em paz absoluta, uma
futura mãe prepara o chá de bebê para sua filhota que chegará pronta para mudar
o mundo.
Enquanto os financistas sentam-se à mesa de negociação para
planejar estratégias para faturar bom dinheiro com a guerra — como se ela
própria já não enchesse seus cofres —, um motorista de ônibus, ao desempenhar uma
função adicional que passou a exercer depois da dispensa dos cobradores, se
enrola com as moedas do troco. Numa outra mesa na qual não se negocia nada, o
pai lembra ao filho que viver tem um quê de beleza.
Enquanto a guerra encobre os mil pecados de seu dono, uma
senhora tenta recordar a música cantada por sua mãe quando lavava roupas na
beira do rio e um jovem senhor, caçula em uma família de quatro filhos,
pergunta à mãe, em pensamento, se não é espantoso ele já ter alcançado a idade de
usufruir das pequenas prioridades — uma quase esmola — reservadas aos idosos.
Enquanto a guerra escreve roteiros de livros e filmes que
irão levar às lágrimas a mim, a você e até mesmo a alguns dos que estão
guerreando, um neném passa dias irritado com o dente que desponta aos poucos e
uma calcinha fica esquecida no box do banheiro por uns bons quatro ou cinco
dias.
Enquanto a guerra sobrepõe corpos mortos no meio das ruas do
que resta da cidade cujos habitantes vão se endurecendo da dor, um jovem
arranca uma flor vermelha e a leva à mãe da namorada e dois homens perdem-se em
piadas bobas ao abrirem a segunda garrafa de vinho.
Enquanto a raça humana transita no ápice da irracionalidade,
a chuva, anabolizada pela destruição da natureza, mata. Cumprindo seu ciclo
numa sociedade insana, que muitos consideram evoluída, mata sem primeira ou
segunda intenções.
Enquanto o mundo se
avizinha do fim — guiado por ideias antigas e cruéis — um escritor covarde
senta-se diante do computador e escreve uma crônica como se desse um tiro, um
só e certeiro, no coração do tirano.
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