9.3.26

Um único tiro

Enquanto as bombas estouram a mando de boçais, a prima de mamãe, caminhando para os cem anos, faz lindos crochês e os vende numa lojinha improvisada à porta de sua casa. Nessa mesma hora, o doceiro de Tiradentes prepara os mil tachos de seu doce de leite sem açúcar, uma receita inventada por seu pai e que caiu como uma luva nesse mundo de controle severo dos níveis de glicose no sangue.

Enquanto as bombas inteligentes matam a cúpula do poder iraniano — e uma penca de civis, não poucas crianças entre eles —, meu netinho, vestido num parangolé de algum super-herói, comemora seus dez anos. No instante em que os contra-ataques são planejados e executados, eu e meus primos pelo lado do papai, alguns que eu nem conhecia, brindamos o encontro.

Enquanto os homens com cara de assassinos e não de chefes de estado regozijam de seus feitos de morte, um casal se extasia em seus corpos tão comuns e naquele instante alçados à beleza máxima. Paralelamente, um desportista passa creme nas pernas doloridas pelo esforço recente.

Enquanto outros homens do poder se dizem abismados com o ataque e a morte do líder de um país soberano — alguns desses homens travando suas próprias guerras sem grandes cuidados com a tal “ética” —, um entregador leva pizza a uma família de poucos luxos a não ser um pequeno assim, no final de semana. Em uma cidade aflita, mas não em guerra, tampouco em paz absoluta, uma futura mãe prepara o chá de bebê para sua filhota que chegará pronta para mudar o mundo.

Enquanto os financistas sentam-se à mesa de negociação para planejar estratégias para faturar bom dinheiro com a guerra — como se ela própria já não enchesse seus cofres —, um motorista de ônibus, ao desempenhar uma função adicional que passou a exercer depois da dispensa dos cobradores, se enrola com as moedas do troco. Numa outra mesa na qual não se negocia nada, o pai lembra ao filho que viver tem um quê de beleza.

Enquanto a guerra encobre os mil pecados de seu dono, uma senhora tenta recordar a música cantada por sua mãe quando lavava roupas na beira do rio e um jovem senhor, caçula em uma família de quatro filhos, pergunta à mãe, em pensamento, se não é espantoso ele já ter alcançado a idade de usufruir das pequenas prioridades — uma quase esmola — reservadas aos idosos.

Enquanto a guerra escreve roteiros de livros e filmes que irão levar às lágrimas a mim, a você e até mesmo a alguns dos que estão guerreando, um neném passa dias irritado com o dente que desponta aos poucos e uma calcinha fica esquecida no box do banheiro por uns bons quatro ou cinco dias.

Enquanto a guerra sobrepõe corpos mortos no meio das ruas do que resta da cidade cujos habitantes vão se endurecendo da dor, um jovem arranca uma flor vermelha e a leva à mãe da namorada e dois homens perdem-se em piadas bobas ao abrirem a segunda garrafa de vinho.

Enquanto a raça humana transita no ápice da irracionalidade, a chuva, anabolizada pela destruição da natureza, mata. Cumprindo seu ciclo numa sociedade insana, que muitos consideram evoluída, mata sem primeira ou segunda intenções.

Enquanto o mundo se avizinha do fim — guiado por ideias antigas e cruéis — um escritor covarde senta-se diante do computador e escreve uma crônica como se desse um tiro, um só e certeiro, no coração do tirano.

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