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7.10.24

Um passeio à praça inexistente

Há trinta anos, não se encaminhava à editora o texto do futuro livro em arquivo, nem se recebia ao final da revisão o PDF enviado à gráfica. Sendo assim, com o objetivo de organizar meu primeiro livro, “Contos de homem”, lançado em dezembro de 1995, obriguei-me a digitalizá-lo, tarefa que levou um ano, um ano e meio. A sorte é que essa operação, para quem não tem pressa, pode ser feita com um celular e uma ferramenta de uso descomplicado. Basicamente fotografa-se a página, que de pronto é transformada em texto. É preciso corrigir alguma captação imprecisa, mas funciona.

Com os vinte e quatro contos à mão e tomado por um espírito crítico, resolvi revisá-los. Quem faz esse trabalho é um sujeito com mais de trinta anos dedicados à literatura, o que não é uma garantia de qualidade, pois não necessariamente me tornei um escritor melhor, embora tenha hoje mais consciência do que faço. Nessa empreitada, me pergunto se, num possível relançamento, descartaria alguma coisa. Minha resposta é não. Mesmo não gostando de alguns contos, vendo que houve os que envelheceram mal, deixaria o livro exatamente como está, afinal é o reflexo do homem de trinta e quatro anos que eu era, do qual não me envergonho. Apesar disso, faço pequenos ajustes aqui e ali. Um necessário: corrigir os erros.

A andança pela praça inexistente começa ao corrigir os erros. Quando lancei o livro, enviei-o a Manoel Lobato, escritor mineiro, já falecido. Eu o conheci por intermédio de minha irmã Patrícia, ambos trabalhavam na Imprensa Oficial de Minas Gerais. Lobato me deu grandes aulas – sem estar vestido de professor. Seus apontamentos são primorosos e, mais que isso, homem de controlada vaidade, altruísta da melhor estirpe, sua conduta era a de um escritor e intelectual exemplares. Recebi suas anotações, indicando erros de digitação e uma ou outra escorregada gramatical e tecendo alguns elogios, em carta, que, passado um tempo, fotografei. O resultado ficou bom, está legível, mas faltam o cabeçalho, a saudação e a despedida. Fui então procurar o original com o objetivo de refotografá-lo e juntá-lo ao material que está na pasta do livro – além dos contos, os arquivos do prefácio de João Gilberto Noll e da orelha de Nelson Vasconcelos, e as matérias de Bernardo Ajzenberg (Folha de São Paulo) e Duílio Gomes (Estado de Minas). Até agora não achei, mas...


Imagens do caderno de Haydée


Na caixa onde guardo essas coisas, encontrei fotos antigas – umas 3 x 4 de amigas, namoradas adolescentes que mal me davam a mão –, desenhos dos filhos, uma Placar de 1989, quando, depois de uns vinte anos, o Botafogo sagrou-se campeão carioca e meu filho mais velho, que se tornaria um botafoguense fiel, nasceu. Ainda do pequeno museu, um caderno de recordação de minha mãe em formato de livro, capa aveludada e seu nome escrito, com falhas, em letras douradas. Folheio o caderno. No início, algumas páginas em branco, depois amenidades que seus colegas escreveram em dois momentos. Em 1938, quando ela morava em Belo Horizonte – uma das colegas a chama de carioquinha por conta de minha mãe (nascida em Ponte Nova, Minas) ter vivido no Rio antes. De 1939 até 1941, período em que ela estava de volta ao Rio, estudando no Bennett. Os amigos registravam o que já foi tão comum entre os jovens: declaração de amizade eterna, transcrição de poemas, elogio à dona do caderno. Reproduzo a primeira coisa escrita ali: “Todos os homens são mentirosos, traidores, hipócritas e petulantes; todas as mulheres vãs, artificiais e pérfidas, mas há no mundo algo de sagrado e sublime – a união dessas duas criaturas imperfeitas”, uma citação (não consegui confirmar a autenticidade) de Musset – escritor francês do século XIX – feita pela amiga Yóle Sotomaior (se bem desvendei a letra) em dois de setembro de 1940. Há de se dizer que as entradas não respeitam uma cronologia, a essa primeira seguirão outras de 1938, 1939, 1941. Apesar da confusão temporal, é bom saber que aquelas meninas de dezessete anos lançavam um olhar crítico sobre o mundo, sem – o que já não sei se é bom ou ruim – desacreditar na harmonia da vida conjugal.

A partir de um ponto, somem as intervenções dos amigos, e minha mãe se dedica a transcrever poemas e pensamentos. Poetas brasileiros – Vicente de Carvalho, tio-bisavô das queridas Rezende, a escritora Maria Valéria e suas irmãs Viviana e Valentina, é um dos mais presentes – prevalecem sobre os demais, ainda que, no caso dos pensadores, sejam os gregos e os franceses os mais citados. Ela registra de Victor Hugo: “O riso é um camarada às vezes tão útil como o saber”. Desta vez, minha pesquisa confirmou a fonte, ainda que, recorrendo a uma inteligência artificial, tenha encontrado a frase um pouco distinta: “O riso é o começo da sabedoria”. Preciosismos à parte, minha mãe cultivou o riso, mesmo escondendo-o nas muitas horas bravas da vida.

Na noite que sucedeu meu contato com o caderno, sonhei com mamãe. Mas antes com a Patrícia. Encontrava minha irmã nas escadas do prédio onde moro. Era tudo tão alegre, bem poderia – e pode – ser verdade. Depois aparecia minha mãe. Na realidade, uma mulher sem nenhum de seus traços – nem de ninguém que eu conheça –, dizendo-se minha mãe. Não sei, acho que hackearam as redes sociais do céu ou dos sonhos. Há uma impostora no lugar da dona Haydée.


19.2.21

Movimentos (publicado em Contos de homem, de 1995)

Número Um

Mandararn? Eu fui. Está aqui a agulha perdida no palheiro.

 

Número Dois

Ir até lá. Eu queria, e pronto. Juntei as forças, abri as portas. Não brindei despedidas ou apertei mãos, prometendo espaço dentro de mim.

A estrada era um rascunho de deserto. Mas não sofri o sol nem tive sede. Deixei a poeira levantar-se e não virei o rosto para ter certeza de que ficava para trás o que ficava para trás.

Nenhum problema maior. Um ou outro carro na contramão, uma friagem na madrugada. E só. Cheguei.

Encontrei aquilo que eu queria. Comprei o que pude; o resto roubei. Montei meu reino. Construí os castelos, os porões, as estrebarias para os corcéis de guerra, raptei a virgem. Tudo pronto. Ordenei que descessem a ponte. E, estranho, tive medo de entrar.

 

Número Três

Na comunhão do pó, forjo alegria. A lâmina risca os trilhos, o corpo recebe a dádiva. Eu danço, ele dança, nós dançamos. Um carnaval simulado. O sorriso nos lábios é anúncio de pasta de dente. O aperto de mão, negócio fechado. Tenho o controle do leme, mas a sensação de que no barco sou caroneiro.

Amanhã, o último confete estará colado ao peito, ainda. Uma dor incorruptível. Não me devolverão sequer um níquel. Abro janelas, cadê luz? Remexo minhas gavetas, e é um lenço de Soraia, um cinto de Solange. Mas elas, elas mesmas, não estão aqui. Carregaram a lembrança do meu peso, regaram-se com meu jorro, na melhor das hipóteses.

Com que pernas vim dar nesse porto? Eu era moço, viril, e isto bastava. Mas se futuco mais, esgarçando o tecido do colchão, riscando a tinta da parede, abro caminhos. Sigo pelas frestas e molas, nos vazios possíveis. Pronto, tenho ao alcance das mãos. Pego. Aperto. Ai!

Uma minhoca veio viver na minha cabeça. Depois, uma outra, e outra, e outra. Na louça dos meus dentes, cáries. Nas pessoas de ouro, carne. Meus sonhos, imagens desfocadas na lente que é puro mofo.

 

Número quatro

Não restaram nem os ratos; estou só. Parece, assim mesmo, que é o início da festa. A madeira do chão range, pisoteada por passos que já fugiram de mim. No tanque, a roupa úmida cria bolores, meu retrato com cheiro. O som da gota que cai ininterruptamente convida para mais uma dança. Aceito. Apago as luzes, e me solto. Vou-me desfazendo, novelo. Meus fios não viram nada, casaco, colete ou luvas. A última convidada me recolhe, com vassoura e pá. Lança-me no Azul.

 

Número Cinco

Eu chovo.

6.12.20

Matemática Bufa (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

Veja, por exemplo, o Zé.

Biscateiro, faz ponto a uns trinta quilômetros de casa, assalariado mínimo. Só na condução ele gasta em torno de 20% da propina. Somando os outros gastos, inclusive a indispensável birita do dia-a-dia, chega-se a um déficit fácil.

Surpresa: Zé tem duas mulheres, Neide e Fátima.

Neide é esposa, papel passado em cartório, com testemunha, terno, vestido branco e tudo. O tudo incluindo uma saborosa sidra gelada, estourada sob os aplausos dos parentes mais próximos e o olhar amistoso e contente dos sogros.

Sim. e lua-de-mel. Perfume de Neide parecendo fugir do quarto do hotel. A vontade de Zé fugindo mesmo pela porta afora, voltando ao quarto, doendo. O encontro? Desculpe, uma foda ótima.

Fátima apareceu depois, e não há qualquer explicação baseada em crise de Zé e Neide, pileques inconsequentes do biscateiro ou pura peruagem. Sei lá, foi um flerte. Foi uma coisa tão forte, querendo e empurrando um para o outro, que não teve jeito.

No início, Zé quis guardá-las em compartimentos separados da sua afeição. Escondeu da Neide a Fátima e da Fátima a Neide. Mas ...

Um salário mínimo já é quase nada, é conta a pagar no próximo mês. Sabe, é o capricho de uma pedindo, e o não-querer nada da outra pedindo mais ainda. A grana não dava. E mais: era uma dor na consciência tão grande, que meteu duas caninhas na goela, um chiclete no bafo, colocou Neide no colo e falou de supetão.

Imagine Neide. Moça talhada para isso mesmo, não poder tomar a sopa sozinha, dividir o leite condensado com os nove irmãos etc. e tal. Sua resposta foi um silêncio manso, canto de passarinho. E um pedido: conhecer a outra.

Mesma coisa fez Fátima. Disse não se espantar, mas fazia questão de dizer à primeira que a respeitava, dali por diante, mais que à própria mãe.

 

O triângulo se fechou na sala da casa de Zé e Neide, tomando as seguintes decisões:

i) Fátima se mudaria para alguma casa ali perto;

ií) Os três trabalhariam para conseguir mais grana;

iii) Estavam felizes.

O que veio depois foi glória, glória, o além da glória. Juntando os três salários mínimos, descobriram que a cada um cabia mais que um salário. Fazendo de suas despesas uma coisa única, pouparam e compraram uma televisão, fizeram roupas bonitas para os fins de semana. Milagre: geladeira, cerveja gelada e Zé chegando sempre cedo em casa.

Ali pelas dez horas em um leilão velado, uma delas arrematava o companheiro e levava-o para exibir seu vigor sereno e incessante.

Esse era mais um lado dessa matemática. Cada uma delas, mesmo tendo apenas metade, tinha um inteiro. Na lógica do quando está comigo é meu, tinham o desejo saciado, e o olho nem pensava em futuro ou martelava saudade do passado.

Havia, contudo, nisso tudo, um sistema sem solução: a cobiça. Zé, baseado em sua experiência recente, imaginou que uma terceira mulher talvez lhe possibilitasse um carro. Não queria, é verdade, nenhum carro do ano, modelo esportivo, roda talalarga. Um Fusca antigo, uma Rural, Chevette, Gordini, TL, Corcel, o que fosse, ia diminuir a distância entre o biscate e a casa, ia aumentar o tempo de Zé para suas meninas.

Deixa de voltar mais cedo para casa um dia, adentra o bar da dona Sara e, sob os vivas dos camaradas antigos, aquece o espírito de cana, a coragem começa a dar pulinhos e o olho gruda em Neusa.

Neide e Fátima estão em casa, não têm nenhum pensamento ruim ou expectativa frustrada. Sabem que mais cedo ou mais tarde o Zé chega. Estão um pouco ansiosas porque querem contar a ele dos filhos que vêm. E tricotam, das receitas aprendidas juntas, os primeiros sapatinhos.

Agora é esperar. Se ele trouxer notícias de Neusa ou a própria, em carne e osso, será que o brim do ciúme esgarça?

Antes que ele se adiante, soltando a língua, recebe a notícia. Mal absorve a emoção, pensa no dinheiro. Não será pouco? Elas ouvem o plano, Neusa incluída, e sorriem esperança. Zé procura a vizinha proprietária de um cômodo e o aluga.

Neusa chega no dia seguinte, distribuindo uma alegria imensa, escancarando à toa o riso fácil. Em instantes já é convidada para ser madrinha das duas crianças. Apenas um detalhe gostaria de esclarecer: vai contribuir para aquela cooperativa com mais de um salário; em compensação se ausentará de noite. Portanto, Zé é dela pelas manhãs: café, pão e, sic, pau. 

E a creche? Sabe quanto custa? Uma fortuna. Solução: a quarta mulher. Esta já nem é propriamente escolhida nem se amiga para valer das outras. A quinta mulher, Neide não a conhece. Nem progressão geométrica daria conta da velocidade com que Zé se amasia com novas mulheres.

Mais importante, contudo, é saber se Zé, um dividido por entre infinitas, quase zero, dançava ainda apenas a dança do amante infalível ou se planejava o próximo sonho de consumo. 

Zé, bem, o velho Zé rodava em círculo, grana pede mais grana. Já não trabalhava. Tinha casa própria. Tinha carro, moto, lancha. Tinha cavalo correndo no Jóquei. Filho estudando na PUC. Filha atriz. E, pasme, uma amante. Sim, uma amante tradicional, escondida das outras, trancafiada em um pequeno apartamento do subúrbio, com direito a frequentar desfiles de moda, lugares da moda, e tudo o mais.

E o que ele não faria por ela, moça de seus vinte anos no máximo? Faria gatos e lagartos. Se grana pede mais grana, ele estava disposto ao pior: ao roubo.

Quando ela lhe pediu um apartamento na Zona Sul, raspou o dinheiro do banco, vendeu a casa, os carros, a filha. Banana para as esposas.

Surpresa: conseguiu ficar com menos de um salário. Na verdade, meio. Menos, 25%. Quase nada, 1% de um salário mínimo.

A realidade nua e crua e a matemática pura quando se juntam, é o que digo, não há como escapulir. Zé é Zé sempre. No máximo, na opulência da quinta dose, permite fingir-se milionário para o espelho sujo do banheiro, no bar de décima categoria. Prova do não-teorema.

Traços (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

 Às vezes sai perdida pela cidade. Procura uma apuirana de onde possa sugar toda a estricnina. Noutras, tranca-se em casa, esperando ser capturada e salva por algo, alguém, pai, mãe, o além.

Resistiu a tudo. Até a um amor.

. . . o amor foi como uma rosa nascendo no concreto: belo, mas inútil.

Não é bonita. Um metro e sessenta, cinquenta e quatro quilos, mãos compridas, unhas grandes de fundo rosado, sobrancelhas finas e cílios espessos. Pés magros de veias salientes, a tez muito branca. Os pelos crespos, vermelhos e abundantes. Nádegas pequenas.

Tampouco é feia. Olho preto de jabuticaba, nariz torneado, boca tímida, carmim. Dentes sempre brancos, sem nicotina. Cabelos muito longos.

Ano passado recebeu um assobio na rua. Chorou. Estoica por fora, não se sabia como por dentro. Que tinha células sabia. Também, que tinha os aparelhos digestivo e reprodutivo. Rins, pulmão. Mas e que mais?

No dia em que acordou com o sexo umedecido e as mãos nele, atirou-se violentamente contra a parede, pousou o ferro quente pelo corpo. Sorriu por se sentir tão bem.

Quebrou os espelhos da casa porque achava que a imagem refletida não era a sua. Era triste assim? Aquelas olheiras dilaceravam mesmo o seu rosto? E as espinhas? Espelho algum dia foi feito para mostrar a dor?

Foi morar dentro do guarda-roupa, fitando a lembrança do espelho. Aí recordou o dia. O pai morto, a mãe chorando, e ela querendo que ele acordasse.

Ela é a Maria José do José e da Maria. A síntese. Não é a princesa que o pai inventaria. Não é a mulher que a mãe desejou.

Quando vai ao bar, diz ao garçom que espera nove amigos. Os outros são meras possibilidades de amizade. Sai antes de a bebida chegar.

Em um domingo de missa, ganhou um beijo. Ainda hoje sabe de cor seu gosto e, quando quer, sente.

Já deu um beijo. No vento.

Conhecia Cecília Meireles. Pegava o telefone, discava um número qualquer e recitava: "Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo". Como ninguém a ouvia até o final, deixou de conhecer a poeta.

O banho quente a tranquiliza. Dentro d’água, mesmo fria, sorri sem culpa ou medo. Batizou essa sensação de amor. 

Agora ela está lá, no alto da ponte, namorando o mar.


A caça (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

A mata é hermética. O sol, quando consegue penetrá-la, é um fio, um frio facho de luz.

O que faço aqui? Caço. Comigo levo meu cão, minha arma, o saco para depositar a caça.

Lá vem um bicho. Tum, tum ...

Guardo o elefante.

Minha mãe chega, senta-se na cadeira, perto da mesa, perto da churrasqueira, perto de meu pai. Aproximo-me deles, sirvo-lhes, em bandeja de prata, o elefante temperado. Com o susto, infartam.

Pais ...

A mata cada vez mais fechada, um breu. Os morcegos tentam atacar-me. Primmm ...

Minha mulher chega do cabeleireiro. Está linda, o cabelo como um bolo de festa. Dou-lhe um beijo, prendo-a em meus braços, solto em suas costas os morcegos. Descabelando-se, atira-se pela janela. Plaft seco e buzinas fanhas engarrafam o trânsito.

Mulher ...

No meio da selva, assusto-me com um rio. Lanço nele rede, isca, vara, anzol. Pesco um tubarão.

As crianças acordam ansiosas pelo aquário novo. Enquanto se distraem com os peixinhos, desfaço a armadilha, cai do teto o tubarão. Como a água corre para o ralo, as crianças se jogam nos dentes da fera, que em um último impulso as devora,

Crianças ...

Morreu o cão. Perdi a arma.

Para lá ou para cá. Mata sem fim. 

Caçador...

5.12.20

Circense (publicado em Contos de homem, livro de 1995)

A Egberto Gismonti

 

O lápis traça a maquiagem no rosto do palhaço. A ponta arranha a carne por dentro. Já não há nenhum prazer em representar, em enfrentar a ansiedade das crianças, em proporcionar-lhes o riso. Mas ele terá de fazê-lo, mais uma vez e outras tantas. Para um homem de quarenta anos, recomeçar é um verbo inconjugável, é derrota.

Olha-se no espelho, tudo perfeito. Abre o armário, veste a peça que falta, a alegria que irradiará para a plateia. Trago seco.

A entrada em cena é triunfal. Cumprimenta a criançada, dirige-se para o centro, abre os braços e inesperadamente dá um salto mortal. Seus pés tocam o chão, mas tropeçam. O corpo rola como um aro, batendo nas laterais do círculo. Ao erguer-se, suas calças caem e, ao apanhá-las, deixa escapulir um peido alto. Finge envergonhado, senta-se; levanta-se surpreso com as fezes coloridas, de plástico.

Outro salto leva--o para outro canto do circo e assim sucessivamente, até que todos o tenham visto mais de perto, até que todos, como cúmplices, tenham testemunhado seus blefes, que desencadeiam risos compulsivos. As tábuas da arquibancada zunem.

No próximo pulo, o imprevisto. Ao rolar pelo chão, o palhaço mete o rosto na bosta do elefante. As palmas e as gargalhadas atingem níveis estrondosos, quase silenciam e retornam a toda, num vaivém interminável.

Para quem tem a carne talhada por dentro, o golpe fere as células, deixa o desejo exangue.

 

Émerson sente que seu riso mexe com os órgãos, incha o fígado, comprime o pulmão. Escorrem lágrimas em sua face. O palhaço havia planejado o melhor dos truques: insinuar que o chocolate na cara era bosta de elefante, que o cheiro do doce era o podre fedor da merda.

O rapaz sai do circo repleto. Naquelas duas horas, não pensou no mundo lá fora. Mas, em pouco tempo, está às voltas com uma rua que tem de ser atravessada, com a falta de grana para comprar um refrigerante. O desconforto da arquibancada era agora dor nas costas.

Um movimento brusco, como se pedisse de volta os minutos vividos sob a lona. Abraça-se a um poste, fecha os olhos e sonha com o mundo do circo. Fugirá na companhia para atuar como trapezista, contorcionista, macaco, leão, qualquer coisa.

E é assim, vivendo tudo isso, que Émerson tropeça na calçada e cai, metendo o rosto na bosta de um cachorro.

0 mesmo riso da lona explode ao lado de Émerson. São as crianças vindas do circo, vendo na cena de rua a repetição da trapaça do palhaço. Mas ele sabe que não há truque, nem o gosto nem o cheiro daquela merda se parecem em nada com o chocolate. Levanta-se, xingando todos os que o olham, fazendo os piores gestos possíveis. Vai-se arrastando para casa, para o quarto, para as roupas, para a mala. Para o circo.

 

Os trailers formam o círculo. Os animais nas jaulas cuidam de empestar o ar. As crianças correm por entre as tendas metálicas. A bailarina esfrega suas roupas e lava outras para o mágico. O trapezista sai para procurar mulher.

Alonso cerrou as cortinas. Tira a roupa de palhaço e toma a primeira talagada de cachaça. Em breve, a segunda, a terceira, e outras tantas. Em breve, o nariz de bola de pingue--pongue é amassado pelas suas mãos; o lápis da maquiagem (faca?), quebrado; as roupas, rasgadas.

 

O passo de Émerson é determinado. A bolsa, com suas roupas, é pequena e cinza. Sua vontade brada. Fecha a mão e toca a porta.

 

 Afonso ouve a batida e não sabe se o barulho é luz ou tiro de bala--morte.

Trocam olhares e dizem muito. Entram. Trancam a porta. Lá estão.

 

O próximo espetáculo é amanhã. Ou nunca.


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Certamente foi ouvindo Palhaço, do disco Circense, que escrevi o conto. Se quiser ouvi-la, clique aqui.

30.4.18

Estilingues 30

O Estilingues, formado há 30 anos por um grupo de amigos que se conheceu em uma oficina literária, talvez uma das primeiras do Rio de Janeiro, a OLAC (Afrânio Coutinho), pretende celebrar a data este ano. Desde 2012, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda, Sonia Peçanha, Vânia Osório e eu, antecipando as comemorações dos 30 anos, lançamos dois livros de contos — Amores vagos (orelha de Luiz Ruffato) e Mapas de viagem (orelha de Maria Valéria Rezende), coletâneas que têm percorrido o circuito não comercial. Entregamos um livro a uma pessoa e pedimos a ela que, uma vez lido, ele seja passado adiante. Isso quando não “esquecemos” um exemplar por aí: num banco de praça, num ônibus, em qualquer lugar. Sonhamos que nossa estilingada literária, em vez de matar passarinho, ressuscite o prazer da leitura na mesma proporção com que, nestes anos todos, nós temos escrito e lido uns aos outros. Ah, meu leitor, você pode imaginar a força que um grupo ganha compartilhando vinho e texto e embates (que não são raros) por tanto tempo, com tanta persistência. Enfim, vem coisa por aí, vocês verão, ou melhor — e é o que espero —, lerão.


No último encontro, entre o barulho das folhas dos originais e o tinir dos copos, me dei conta de que faz dois anos que não escrevo um conto. Tudo que tenho levado são textos antigos, alguns muito antigos, talvez por isso o livro que organizo para a efeméride me faz pensar em um diálogo com o primeiro, Contos de homem (de 1995). Este é um livro duro, no qual corri riscos: com a escrita, com a organização dos contos, com tudo. Um querido amigo já falecido dizia que, depois que eu seguir para outras paragens, tudo que restará de mim será esse primeiro livro. Espero que ele tenha se enganado, mas o fato é que não me envergonho da obra imatura. Aliás, uma das poucas coisas que inflam minha vaidade é o prefácio escrito pelo mestre João Gilberto Noll.

Estilingues em várias fases


Ficar sem escrever um conto não me incomoda. Não sei quantos anos de escrita, um pouco mais do que os 30 do Estilingues, me calejaram. Aprendi que, se falta conto hoje, amanhã virá uma enxurrada deles (a maioria será jogada fora). Ultimamente, minha vidinha de escritor tem sido a desse cara que, de quinze em quinze dias, escreve com alegria suas crônicas para a Rubem e o No Osso. E que, sem planejamento, em jorro, escreve um poema aqui, outro ali. Não sei se um dia deixarei de escrever, mas que tenho sofrido pouco por não escrever o que sempre gostei tanto, os contos, isso sim, eu sei. 

Deixo minhas questões pessoais de lado. O que importa neste 2018 é a coroação de um encontro de 30 anos, um encontro que firmou uma sólida amizade entre sete artistas, pois é o que somos, e que foi facilitado pela Literatura, essa que não morre.

24.12.14

Os bons leitores

Para L., T., M.L., J., D., S. e P., amigas cujos nomes estão preservados,
mas que, espero, se reconheçam na crônica.


                       Meus amigos de escrita que me desculpem, mas eu gosto mesmo é do leitor puro, não escritor, o que vai desarmado para os livros. Sou obrigado a ouvir meus parceiros de literatura, pois eles serão críticos capazes de apontar um problema sério num conto, num poema, seja no que for. Mas o leitor puro, puxa!, esse surpreende.

                  Em 2015, “Contos de homem” completará 20 anos. Livro de estreia, logo me mostrou a força do leitor. Depois de ler o livro, a mãe de colegas de meus filhos, hoje minha amiga, disse que desconhecia questões masculinas tão densas, verdadeiro mergulho em águas profundas. O Nelson Vasconcelos, na orelha, afirmava que o livro não era apenas para homens, quiçá (cito de cabeça) não se dirigisse exatamente a eles (a nós). Mas a amiga foi além, falou em profundidade, espaço no qual, segundo o senso comum, os machos não pisam. A leitura feita por minha amiga me fez olhar “Contos de homem” sob outra perspectiva. Na realidade, não só esse livro, a partir do comentário dela, mudou minha percepção da literatura que faço.

                     Há leitores cuja reação é corpórea e sintética. Ri demais (uma ex-namorada). Sou aquela atriz de “A câmera e a pena” (irmã de um escritor meu chapa que virou minha amiga). Chorei feito boba (amiga virtual e recente). Nó! (uma das minhas irmãs). Gosto dessas leituras, ainda que elas não me façam avançar no entendimento da relação escrita/leitura. Pera lá, fazem avançar sim, afinal alguém riu, e eu não escrevi para provocar riso. Alguém se viu em quem inventei. Alguém chorou, mas não era para tanto. Até mesmo uma leitura interjetiva me leva a crer que, bem, às vezes meu texto espanta.

                 
Pintura de José Ferraz de Almeida Júnior, retirada do blog Fragmentos de uma vírgula
                          Mantenho meu blog já há bastante tempo. A partir dele – que, como regra, guarda as crônicas escritas para jornais – recebo, não com frequência, manifestações de leitores desconhecidos. Uma moça, certa vez, me mandou um e-mail lindo. Nele nomeava de surpreendente minha escrita, em parte pelo fato de eu usar palavras que ela só ouve da mãe (antigas, eu deduzo). Depois ela arremata assim: “Acho que você expõe tudo que nós somos, mas fazemos questão de esconder debaixo do tapete para passar uma impressão de ‘casa limpa’”. Falou pouco e disse muito, expôs um alcance muito maior do que eu poderia supor atingir. Depois dessa aproximação, eu e ela, aqui e ali, nos correspondemos.

                     Um último exemplo. Ela deve ser da minha idade, mas estava adiantada no colégio. Andava com minha prima Maria Cândida e com outras meninas que faziam parte das mulheres lindas e inalcançáveis de minha adolescência. Por isso, e apesar de eu ser amigo de seu irmão, nunca tivemos muita intimidade. Pois bem, o Facebook nos aproximou, e ela foi ao lançamento de meu “Qual é, solidão?”. No dia seguinte, me mandou uma mensagem tão certeira que eu, ao respondê-la, não consegui ir além do refrão de um personagem antigo do Jô Soares: “ah, é, é!” Ela começou o texto de forma surpreendente: “Li seu livro de um trago só”. (É mais que uma leitora, a imagem sugere.) Tendo dito isso me perguntou como eu consigo transformar instantes em histórias tão completas. Não sei responder, mas ela matou a charada, minha vontade, enquanto escrevo, é estender o instante.

                     Citei só leitoras? Sorry, amigos, homens não transitam nas profundezas. Falo de mim, que, se quase chego lá como as leitoras têm dito, é por acaso, na bamba. Falo dos leitores masculinos, que leem entrelinhas, claro, mas de outra forma, em suas bordas.