Mostrando postagens com marcador mangueira. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mangueira. Mostrar todas as postagens

10.3.25

Oscar e escola de samba, nem ligo

 Se há duas coisas que, em graus variados, não me pegam são desfile de escola de samba (um pouco) e entrega do Oscar (bastante). Apesar disso, me vi às voltas com ambas durante os dias de Carnaval.

As escolas que gostaria de ver, Mangueira, da qual sou torcedor, e Portela reverenciando Milton Nascimento, eram as últimas a se apresentar em seus respectivos dias. Sem atraso, entrariam na avenida às duas e meia da matina. Nessa hora, meu bem, durmo o sono dos justos e o dos injustos. Com o desfile de cada escola disponível aos assinantes, bem acordado, no meio da tarde, assisti aos dois e, de quebra, ao da Beija-Flor.

A Mangueira me comoveu. Aquela bateria simulando um tiroteio, som que faz parte da paisagem de quem vive nas favelas cariocas, e depois saltando para o funk e o jongo, para, por fim, chegar ao samba tradicional, e tão próprio da Estação Primeira, foi um acontecimento. Um dos jurados – justo o que foi meu vizinho – achou por bem tirar um décimo da Verde e Rosa. Deve ter suas razões, não posso discutir, mas os outros três cravaram a nota máxima, e a “Surdo Um” (apelido carinhoso), sob o comando de Taranta Neto e Rodrigo Explosão, ficou com dez. Numa leitura política que tem marcado a escola, a comissão de frente destacou os “crias”, como são chamados os jovens da favela, ao dar a eles lugar de potência e criatividade, uma contestação à perversidade dos que os veem como problema. Bem, os jurados não gostaram, e a comissão não faturou a nota máxima.

A Portela mexeu comigo quando escolheu Milton Nascimento como tema. Isso tanto é verdade que anunciei – quer dizer, comentei com dois cupinchas – minha troca circunstancial da casaca verde e rosa pela azul e branco. Esperei por um espetáculo brilhante, porém, confesso, não captei muito o sentido do que foi para a avenida. Mas isso não deve ser problema da escola, eu é que não entendo nada de desfile. De todo jeito, ver o Bituca sentado no trono abençoado por Paulinho da Viola, Monarco, tia Surica e tantos outros já vale um Carnaval e duas missas. Sabendo ainda que um dos carnavalescos é filho de um amigo meu, botafoguense ainda por cima, todo o meu envolvimento com essa invasão “mineira” só fez crescer.

A Beija-Flor, odiada por tantos – talvez por ser, junto da Imperatriz Leopoldinense, a que mais ameaça o domínio da Mangueira e da Portela –, com um samba-enredo fácil de aprender, sustentou a beleza das fantasias, a alegria dos integrantes, a emoção da despedida de Neguinho da Beija-Flor como puxador de samba e, o mais importante, a homenagem a um personagem da escola, o Laíla. Campeã sem contestação. Opa, eu não contesto, mas, entre as próprias escolas, há insatisfação e acusação de falcatrua. Isso é lá com eles, meu samba é no pé. Me corrijo, no sofá, vendo o desfile gravado.

O Oscar assisti ao vivo e inteiro. A tradução simultânea funcionou bem, e isso facilita a vida de um monoglota. De todo modo, com boa ou má tradução, a cerimônia é chata. Alguns momentos são bonitos – destaco o discurso pé na porta dos diretores (Yuval Abraham, Basel Adra, Rachel Szor, Hamdan Ballal, uns palestinos, outros judeus) de “No Other Land”, vencedor de melhor documentário –, mas as piadas são pífias, quando não equivocadas. Ao dizer que sua mulher achou uma boa ideia o marido sumir, como no filme brasileiro, o apresentador se mostrou tão desconectado de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, que deveria, um pouco depois – aconselhado ou pressionado pelos produtores da festa –, pedir desculpas. (E eles lá pedem desculpas?) Enfim, o brasileiro ganhou merecidamente como o melhor estrangeiro e temos de comemorar e esperar – sem muito otimismo – que isso se traduza em mais recursos para o cinema nacional. Só para lembrar: em Berlim, "O Último Azul", do pernambucano Gabriel Mascaro, levou o Urso de Prata, o Grande Prêmio do Júri.

O ganhador do Oscar, “Anora”, de Sean S. Baker, é uma salada de frutas. Começa com uma pegada “Mil tons de cinza”, passa por uma comédia pastelão e, a meu ver, salvando-se de um vexame, tem um final no mínimo sóbrio – amiga minha o viu como um desfecho machista; entendo, mas não concordo. O Carnaval deu o tratamento que o filme merece, parodiando uma clássica marchinha, que agora é assim:

 

"Se você fosse sincera, oh, oh, oh, Anora

Devolvia o nosso Oscar, oh, oh, oh, agora.”

 

Mário Lago, autor da música, lá do infinito, ergueu um brinde. Fernanda Torres, atriz de ponta e figura simpática e engraçada, deve cantar a versão no escondidinho de seus quartos de hotel, onde tem vivido os últimos meses.

23.9.11

A casa do Beco dos Aflitos

Por volta de 1955, chegando a Passos, depois de viverem o início da vida de casados no Rio de Janeiro, meus pais compraram o sobrado no qual eu só entraria tempos depois, quando tinha meus cinco anos. Explico: de fato, logo após a aquisição, eles foram morar no seu novo ninho, mas dele se mudaram, não tardou muito, por um capricho de minha mãe. Segundo soube, a inquilina da casa de baixo era tão ranheta que mamãe preferiu deixar a própria casa e pagar aluguel em outra. Assim, nasci no endereço alugado, na Rua do Ouro, perto do doutor Breno, do Quinca Meu Genro, do Antônio Soares e do dentista Joaquim Getúlio — destruidor das bolas que craques ou pernas de pau faziam cair em sua propriedade. 
Não posso me esquecer de listar entre os vizinhos a família do Cícero Parenti, mais conhecido por Caolho ou, para ser rigoroso, Caôio, pai do Cunha. Pois o Cunha foi um menino levado da breca. Uma das travessuras do meu futuro amigo foi a de soltar o freio do caminhão de seu tio Tatão Lemos, pondo-o em disparada Rua do Ouro abaixo. Não fosse o muque da parede do quarto onde eu dormia, feita de matéria bruta e bom cimento, eu poderia ter partido desta pra melhor.
Conto isso para mostrar que, quando passei a morar no sobrado do Beco dos Aflitos, eu já era um sobrevivente. E acrescento: na mudança, com preguiça de fazer a pé o curto trajeto entre a morada nova e a velha, pulei na rabeira da carroça, meio usado à época para o transporte da mobília, e, pumba, levei um tombo. Meus pés ficaram presos a um estribo pendurado na traseira da carroça, e, com isso, fui arrastado pelos paralelepípedos, como, no passado, no chão de terra com cascalho, arrastavam-se os inconfidentes. Enfim, quem subiu as escadas e cruzou o batente da porta da nossa propriedade era um menino que havia resistido a um ataque e a um acidente que o deixara bastante esfolado.
A nova casa, aos poucos, tratou de curar meus traumas, fazendo questão de me ensinar que a vida não era tão ruim como minha experiência até então indicava. De fato, não sofri mais atentados, e as esfoladelas, aquelas e outras, foram sempre bem curadas com arnica ou mercurocromo ou merthiolate. (Soube-se depois que este antisséptico não passava de uma trapaça da indústria farmacêutica, o que não o impediu de curar minhas feridas.)
Fecho a tese: a casa do Beco dos Aflitos me transformou no que sou. Tudo começou quando fiz de uma das mangueiras — a da manga Carlota, trazida de outras terras por meu avô materno e sem igual na cidade — meu pouso de garoto em busca de privacidade. Passava a novela Meu pé de laranja lima, baseada no romance de José Mauro de Vasconcellos, e aprendi com seu personagem a dialogar com arbustos e outros vegetais. Hoje, depois de ter tido um breve romance com uma bananeira, falo abobrinhas apenas com repolhos e manjericões; logo, não posso me dizer íntimo nem dos nobres nem dos vassalos do reino vegetal. De toda forma, bom brasileiro, bato no peito e declaro-me amicíssimo do rei.
(Ah, como me perco!)
Tentava dizer e agora digo: no sobrado, descobri o encanto da solidão. Quando me meto comigo mesmo, invento, desinvento, acalento-me e, não raro, esqueço-me da vida cachorra, sempre pronta para, lá fora de mim, abocanhar meus calcanhares. Não me tenham como um retraído empedernido, pois não alimento casmurrice. A casa me enfeitiçou de outro modo com sua mania de festa, tornando-me sociável, às vezes até engraçado, pronto aos amigos.
Sejamos honestos, uma casa é feita de seus tijolos, de suas árvores, de suas cores, de seu telhado com goteiras — e do balde embaixo retendo as gotas da água mais pura, xixi de Deus —, mas também e, principalmente, é feita de sua gente. Na casa do Beco, essa gente começava por Joaquim e Haydée, meus pais. Passava pela Célia, minha segunda mãe. Ampliava-se com Dita, Sá Tereza, Sá Inês, Ana Germana e Nilzinha. Crescia mais um pouco com a visita dos tios Lozo, Goy, Vera, Expedita, Yole e Elin, e de muitos primos, em particular a Viveca e a Boinha, que passavam as férias na casa. Abria-se à presença constante da Celina, do Zé Luís, da tia Lurdinha, do Marquinho e dos vizinhos chegados. Embriagava-se dos jovens, que gostavam de rodear minha mãe. Alguma gente latia: o Zorro, o Tilo e o Nicolau. Outra, por viver no meio desse povaréu, aprendia com ele: eu e meus irmãos, Salazar, Teresa Cristina e Patrícia. Os sinais que recebemos foram positivos, com o que, na outra volta do relógio, otimistas e na comunhão com nossos maridos e esposas, povoamos sem exagero o sobrado com filhos.
A casa não existe mais. Minto: está lá; talvez permaneça como é hoje, não sei. Só deixou de ser nossa. Entregamos ao novo dono as chaves, mas não se abandona esquecida no silêncio das paredes uma história. Vendemos uma casa pela metade, conquanto o comprador tenha adquirido uma inteira.
Apartado agora do sobrado, ando na contramão do tempo até me ver de novo com as marcas de antigos arranhões, que ardem como nunca. Em vez de procurar livrar-me da dor, dou de ombro, ao mesmo tempo que sou tomado por uma sapituca de cantar; de cantarolar para ser exato. Hum, humhumhumhum, humhum, hum, humhumhumhum... Villa-Lobos, sim, Villa-Lobos. A arnica para curar os dodóis da minha alma é Villa-Lobos. E, quando ouço sua 5ª Bachiana, sou reposto na mangueira das mangas Carlota, onde sou amigo do rei, ainda que não o seja.