Por volta de 1955, chegando a Passos, depois de viverem o
início da vida de casados no Rio de Janeiro, meus pais compraram o sobrado no
qual eu só entraria anos depois, quando tinha meus cinco anos. Explico: de
fato, logo após a compra, eles foram morar no seu novo ninho, mas dele se
mudaram, alguns anos depois, por um capricho de minha mãe. Segundo soube, a inquilina
da casa de baixo era tão ranheta que mamãe preferiu deixar a própria casa e
pagar aluguel em outra. Assim, nasci no endereço alugado, na Rua do Ouro, perto
do doutor Breno, do Quinca Meu Genro, do Antonio Soares e do seu Joaquim
Getúlio — dentista destruidor das bolas por ventura ou por obra de um perna de pau
caídas em sua propriedade.
Não posso me esquecer de listar entre os vizinhos a família
do Cícero Parenti, mais conhecido por Caolho ou, para ser rigoroso, Caôio, pai
do Cunha. Pois o Cunha foi, como muitos devem lembrar, um menino levado da
breca. Uma das travessuras do meu futuro amigo foi a de soltar o freio do caminhão
de seu tio, o Tatão Lemos, pondo-o em disparada Rua do Ouro afora. Não fosse o
muque da parede do quarto onde eu dormia, feito de matéria bruta e bom cimento,
eu poderia ter partido dessa pra melhor.
Conto isso para mostrar que, quando passei a morar no sobrado
do Beco dos Aflitos, eu já era um sobrevivente. E acrescento: na mudança, com
preguiça de fazer a pé o curto trajeto entre a morada nova e a velha, pulei na
rabeira da carroça, meio usado à época para o transporte da mobília, e, pumba,
levei um tombo. Meus pés ficaram presos a um estribo pendurado na traseira da
carroça, e, com isso, fui arrastado pelos paralelepípedos, como, no passado, no
chão de terra com cascalho, arrastavam os inconfidentes. Enfim, quem subiu as
escadas e cruzou o batente da porta da nossa propriedade era um menino que
havia resistido a um ataque e a um acidente que o deixara bastante esfolado.
A nova casa, aos poucos, tratou de curar meus traumas, fazendo
questão de me ensinar que a vida não era tão ruim como minha experiência até
então indicava. De fato, não sofri mais atentados, e as esfoladelas, aquelas e
outras, foram sempre bem curadas com arnica ou mercurocromo ou mertiolate
(soube-se depois que este antisséptico não passava de uma trapaça da indústria
farmacêutica, o que não o impediu de curar minhas feridas).
Fecho a tese: a casa do Beco dos Aflitos me transformou no
que sou. Tudo começou quando fiz de uma das mangueiras — a da manga Carlota, trazida
de outras terras por meu avô materno e sem igual na cidade — meu pouso de
garoto em busca de privacidade. Passava a novela “Meu pé de laranja lima”,
baseada no romance de José Mauro de Vasconcellos, e aprendi com seu personagem
a dialogar com arbustos e outros vegetais. Hoje, depois de ter tido um breve
romance com uma bananeira, falo abobrinhas apenas com repolhos e manjericões; logo
não posso dizer-me íntimo nem dos nobres nem dos vassalos do reino vegetal. De
toda forma, bom brasileiro, bato no peito e declaro-me amicíssimo do rei.
(Ah, como me perco!)
Tentava dizer e agora digo: no sobrado, descobri o encanto da
solidão. Quando me meto comigo mesmo, invento, desinvento, acalento-me e, não
raro, esqueço-me da vida cachorra, sempre pronta para, lá fora de mim, abocanhar
meus calcanhares. Não me tenham como um retraído
empedernido, pois não alimento casmurrices. A casa me enfeitiçou de outro modo
com sua mania de festa, tornando-me sociável, às vezes até engraçado, pronto
aos amigos.
Sejamos honestos, uma casa é feita de seus tijolos, de suas
árvores, de suas cores, de seu telhado com goteiras — e do balde embaixo retendo
as gotas da água mais pura, xixi de Deus —, mas também e, principalmente, de
sua gente. Na casa do Beco, essa gente começava por Joaquim e Haydée, meus pais.
Passava pela Célia, minha segunda mãe. Avolumava-se com Dita, Sá Tereza, Sá
Inês, Ana Germana e Nilzinha. Recebia a visita dos tios Lozo, Goy, Expedita, Yole
e Elin, e das primas Viveca e Boinha. Abria-se à presença constante da Celina,
do Zé Luís, da tia Lurdinha, do Marquinho e dos vizinhos chegados. Embriagava-se
dos jovens, que gostavam de rodear minha mãe. Alguma gente latia: o Zorro, o
Tilo e o Nicolau. Outra, por viver no meio desse povaréu, aprendia com ele: eu
e meus irmãos, Salazar, Teresa Cristina e Patrícia. Os sinais que recebemos foram,
em balanço final, positivos, com o que, na outra volta do relógio, otimistas e na
comunhão com nossos maridos e esposas, povoamos sem exagero o sobrado — e o
mundo — com filhos.
A casa não existe mais. Minto: está lá; talvez permaneça como
é hoje, não sei. Só deixou de ser nossa. Entregamos ao novo dono as chaves e,
com elas, o telhado, as escadas, os cômodos internos, o quintal, mas não se
abandona esquecida no silêncio das paredes uma história. Logo, vendemos uma
casa pela metade, conquanto o comprador tenha adquirido uma inteira.
Apartado agora do sobrado, ando na contramão do tempo até
me ver de novo com as marcas de antigos arranhões, que ardem como nunca. Em vez
de procurar livrar-me da dor, dou de ombro, ao mesmo tempo que sou tomado por
uma sapituca de cantar; de cantarolar para ser exato. Hum, humhumhumhum, humhum, hum, humhumhumhum... Villa-Lobos, sim, Villa-Lobos. A arnica para curar os dodóis
da minha alma é Villa-Lobos. E, quando ouço sua 5ª Bachiana, sou reposto na
mangueira das mangas Carlota, onde sou amigo do rei, ainda que não o seja.
6 comentários:
De Maria Balé, a pedido dela:
Alexandre, lindo texto. Penetra delicadamente e fica lá, dentro do peito. Remete-me a Lúcio Cardoso essa sua bela narrativa. A-do-rei! Um beijo, Maria
alexandre, genial. os sentimentos humanos ainda são o mais lindo na literatura. das que li sua, essa crônica é a melhor. PARABÉNS.
edson
das que li suas
Edson, amigo do Norte, obrigado, suas palavras de bom poeta fazem um bem danado a este rapaz que já morou no Beco dos Aflitos.
Doeu bem lá no fundinho da alma!
Belíssima crônica.
Bjs.
Tão lindo seu texto, nego, tão delicado e tão sensível. A "JG, 158" está definitivamente cravada em cada um de nós, por inteiro, para sempre. Não se abandona mesmo esquecida no silêncio das paredes uma história, uma história bonita e de amor. O que afirmo e reafirmo quantas vezes for possível é que foi tudo muito bom, tudo valeu muito a pena.
Beijos
Postar um comentário