23.9.11

A casa do Beco dos Aflitos

Por volta de 1955, chegando a Passos, depois de viverem o início da vida de casados no Rio de Janeiro, meus pais compraram o sobrado no qual eu só entraria tempos depois, quando tinha meus cinco anos. Explico: de fato, logo após a aquisição, eles foram morar no seu novo ninho, mas dele se mudaram, não tardou muito, por um capricho de minha mãe. Segundo soube, a inquilina da casa de baixo era tão ranheta que mamãe preferiu deixar a própria casa e pagar aluguel em outra. Assim, nasci no endereço alugado, na Rua do Ouro, perto do doutor Breno, do Quinca Meu Genro, do Antônio Soares e do dentista Joaquim Getúlio — destruidor das bolas que craques ou pernas de pau faziam cair em sua propriedade. 
Não posso me esquecer de listar entre os vizinhos a família do Cícero Parenti, mais conhecido por Caolho ou, para ser rigoroso, Caôio, pai do Cunha. Pois o Cunha foi um menino levado da breca. Uma das travessuras do meu futuro amigo foi a de soltar o freio do caminhão de seu tio Tatão Lemos, pondo-o em disparada Rua do Ouro abaixo. Não fosse o muque da parede do quarto onde eu dormia, feita de matéria bruta e bom cimento, eu poderia ter partido desta pra melhor.
Conto isso para mostrar que, quando passei a morar no sobrado do Beco dos Aflitos, eu já era um sobrevivente. E acrescento: na mudança, com preguiça de fazer a pé o curto trajeto entre a morada nova e a velha, pulei na rabeira da carroça, meio usado à época para o transporte da mobília, e, pumba, levei um tombo. Meus pés ficaram presos a um estribo pendurado na traseira da carroça, e, com isso, fui arrastado pelos paralelepípedos, como, no passado, no chão de terra com cascalho, arrastavam-se os inconfidentes. Enfim, quem subiu as escadas e cruzou o batente da porta da nossa propriedade era um menino que havia resistido a um ataque e a um acidente que o deixara bastante esfolado.
A nova casa, aos poucos, tratou de curar meus traumas, fazendo questão de me ensinar que a vida não era tão ruim como minha experiência até então indicava. De fato, não sofri mais atentados, e as esfoladelas, aquelas e outras, foram sempre bem curadas com arnica ou mercurocromo ou merthiolate. (Soube-se depois que este antisséptico não passava de uma trapaça da indústria farmacêutica, o que não o impediu de curar minhas feridas.)
Fecho a tese: a casa do Beco dos Aflitos me transformou no que sou. Tudo começou quando fiz de uma das mangueiras — a da manga Carlota, trazida de outras terras por meu avô materno e sem igual na cidade — meu pouso de garoto em busca de privacidade. Passava a novela Meu pé de laranja lima, baseada no romance de José Mauro de Vasconcellos, e aprendi com seu personagem a dialogar com arbustos e outros vegetais. Hoje, depois de ter tido um breve romance com uma bananeira, falo abobrinhas apenas com repolhos e manjericões; logo, não posso me dizer íntimo nem dos nobres nem dos vassalos do reino vegetal. De toda forma, bom brasileiro, bato no peito e declaro-me amicíssimo do rei.
(Ah, como me perco!)
Tentava dizer e agora digo: no sobrado, descobri o encanto da solidão. Quando me meto comigo mesmo, invento, desinvento, acalento-me e, não raro, esqueço-me da vida cachorra, sempre pronta para, lá fora de mim, abocanhar meus calcanhares. Não me tenham como um retraído empedernido, pois não alimento casmurrice. A casa me enfeitiçou de outro modo com sua mania de festa, tornando-me sociável, às vezes até engraçado, pronto aos amigos.
Sejamos honestos, uma casa é feita de seus tijolos, de suas árvores, de suas cores, de seu telhado com goteiras — e do balde embaixo retendo as gotas da água mais pura, xixi de Deus —, mas também e, principalmente, é feita de sua gente. Na casa do Beco, essa gente começava por Joaquim e Haydée, meus pais. Passava pela Célia, minha segunda mãe. Ampliava-se com Dita, Sá Tereza, Sá Inês, Ana Germana e Nilzinha. Crescia mais um pouco com a visita dos tios Lozo, Goy, Vera, Expedita, Yole e Elin, e de muitos primos, em particular a Viveca e a Boinha, que passavam as férias na casa. Abria-se à presença constante da Celina, do Zé Luís, da tia Lurdinha, do Marquinho e dos vizinhos chegados. Embriagava-se dos jovens, que gostavam de rodear minha mãe. Alguma gente latia: o Zorro, o Tilo e o Nicolau. Outra, por viver no meio desse povaréu, aprendia com ele: eu e meus irmãos, Salazar, Teresa Cristina e Patrícia. Os sinais que recebemos foram positivos, com o que, na outra volta do relógio, otimistas e na comunhão com nossos maridos e esposas, povoamos sem exagero o sobrado com filhos.
A casa não existe mais. Minto: está lá; talvez permaneça como é hoje, não sei. Só deixou de ser nossa. Entregamos ao novo dono as chaves, mas não se abandona esquecida no silêncio das paredes uma história. Vendemos uma casa pela metade, conquanto o comprador tenha adquirido uma inteira.
Apartado agora do sobrado, ando na contramão do tempo até me ver de novo com as marcas de antigos arranhões, que ardem como nunca. Em vez de procurar livrar-me da dor, dou de ombro, ao mesmo tempo que sou tomado por uma sapituca de cantar; de cantarolar para ser exato. Hum, humhumhumhum, humhum, hum, humhumhumhum... Villa-Lobos, sim, Villa-Lobos. A arnica para curar os dodóis da minha alma é Villa-Lobos. E, quando ouço sua 5ª Bachiana, sou reposto na mangueira das mangas Carlota, onde sou amigo do rei, ainda que não o seja.





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