7.9.11

Caricaturas


Ponho os pés na calçada de Ipanema e, lá do Leblon, vem o homem que já foi bonito. Na realidade, ele não perdeu a beleza, mas, depois de longo debate com seus botões e travesseiros, concluiu que a beleza foi coisa de antigamente. Da juventude, de quando pegava geral. É um senhor bonito e, se ainda se entrega à conquista, continua pegando geral, mas não mais as garotinhas. Isso é que o incomoda e que, à própria vista, o torna feio.
O alemão passa com uma de nossas negras. Nem é a mais bonita, mas, para ele, basta que seja negra. Conjecturo: o mundo ficará melhor à medida que arianos se acasalarem e procriarem com negros. Um passo a mais, deparo-me com a francesinha de mão dada com um de nossos negros. Rogo para que sejam histórias de amor — ou uma aventura apenas — e não turismo sexual.
Jovens hoje são espertos e preparam-se desde cedo para a velhice. Ao colocar nos ouvidos um som bem alto e travar conversa, aos berros, com o colega do lado, aprendem a conviver com a surdez. Dizem que, precavidos, tomam Viagra.
A mulher fala ao celular. Ao terminar a conversa — em atitude correta, pois não há motivo para manter as mãos ocupadas —, enfia a engenhoca na bolsa. Entretanto, feito isso, ela se espanta, se contorce, tenta se esconder. Sem o celular agarrado à mão, passou a se sentir nua, embora, claro, não esteja. Outra pede que o parceiro ligue para o celular dela, é o único jeito de encontrá-lo na sua maldita bolsa. Rápido, ela diz, estou à beira de um ataque. Não estamos mais falando de um simples aparelho de comunicação, compreende?
O casal não se suporta, quarenta anos de um casamento terrível. Mas toda manhã caminha na praia. Conversam muito.
Um ex-prefeito passa de mãos dadas com a esposa. Estão bem velhinhos. Ele, agora, é escritor e, pelo jeito, enquanto caminha, maquina um conto.
Ainda existem as bichas exaltadas, vendendo alegria. E também a menina que passeia com o amigo gay, o único cara que realmente a entende. Porém amizades desse tipo vêm sumindo do mapa da afetividade. Os gays andam em crise com as mulheres, com o jeito de ser delas. É uma hipótese caricatural.
Dez horas da manhã, e é possível encontrar, nos quiosques, pessoas que são restos da noite anterior. Uma delas, o cara com calça arregaçada e sem camisa, com olhos vermelhos e consciência limpa... Por enquanto.
Ando ao lado de um sujeito que nada desse mundo tira-lhe a gravata. Com bermuda, camiseta e tênis, ele caminha com passo firme na companhia de um amigo. Conta toda sua semana, os negócios que fechou, os que vai fechar. A gravata está pendurada no córtex do seu cérebro. Talvez ele nem saiba que, à esquerda, quando se vai para o Leblon, e, à direita, quando se vem, vaivém o mar.
Passa a mãe, desesperada porque a babá pediu-lhe que segurasse a criança por dois minutinhos, o tempo de amarrar o tênis. É a primeira vez que mãe e filho se tocam desde a cesariana asséptica feita num hospital com cara de hotel. (Não, não é verdade que o pimpolho beire os 35 anos. Maldade!)
Tem uma turma que joga futevôlei bem demais. Há partidas de homens contra homens, de mulheres contra mulheres e de times mistos. Nestes, é cada mulher forte, benza deus, Deus, DEus, DEUs e DEUS.
A tatuagem deixa ver um pedacinho da pele original da garota que, com certeza, era linda na sua versão sem tinta. Noutra jovem, a tatuagem, discreta, faz assim na minha cara: slapt, slapt, vê se aprende. Aprendi: quando bem-feitas, as tatoos têm lá seu borogodó.
Certas pessoas foram engolidas por seus óculos, inclusive a guria de nove anos, se tanto.
Um economista famoso, que as más línguas dizem ter ficado rico com a herança do sogro, passeia muito mal vestido. Quer dizer, não mal vestido, mas as meias sintéticas quase alcançam os seus joelhos. Provavelmente viveu nos Estados Unidos da América.
Paulo Caruso por ele mesmo
(http://vilamundo.org.br/2011/03/paulo-caruso-uma -trajetoria-de-vida-desenhada-pela-vila/)


Quem sou eu? Um mineirinho na praia, prato cheio para todo tipo de ironia: rabiscada, gargalhada, escrita, cochichada ou só pensada. Além de tudo, metido a besta, crente que abafa com essa caricatura de crônica. Se eu ainda fosse o Paulo Caruso. Ah!, se fosse ele, economizaria esse montão de palavras, trocando-as por dois traços assim e assado. E estava dito.





Agradeço ao Paulo Caruso por permitir ilustrar minha crônica com suas autocaricaturas. 
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