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21.10.25

De bem com as novidades

Não sei quem, na nova versão de “Vale Tudo”, matou Odete Roitman. Aliás, dessa vez não assisti a nenhum capítulo da novela, mas, a julgar pelo que me disse um amigo, fiz bobagem. Por que? É o seguinte: quando o vi debruçado sobre a telinha do celular, apreciando o diálogo entre dois personagens da trama, dei-lhe uma enquadrada: “ora, o que é isso, vendo novela?” Ele então negou que a acompanhasse, pescava, isso sim, alguma coisa para ter assunto com as pessoas. Benza Deus, não tenho assunto, nem terei.

Sempre fui de virar as costas às novidades; desatento, gosto mais de livros do que da vida – embora mais da vida do que de TV. No caso das leituras, nem sempre estou lendo os lançamentos, e os que leio nunca ou quase nunca são os mais vendidos. É um desvio de caráter, bem sei.

Comecei a me preocupar com essa recusa às novidades ao saber que – segundo Derya Unutmaz, imunologista turco e professor do Laboratório Jackson de Medicina Genômica, em Connecticut –, quem viver mais dez anos, viverá mais cinquenta (isso só é espantoso para quem, hoje, tem no mínimo quarenta anos, os demais têm obrigação de viver mais sessenta). Segue daí que, se eu chegar aos setenta e quatro – meu pai morreu aos setenta e oito, minha mãe, aos oitenta e quatro, portanto a probabilidade é grande –, viverei até os cento e vinte e quatro. Preciso me ajeitar com as novidades, caso contrário serei um velho longevo insuportável, nostálgico demais, melancólico, inclusive. Se não faço nada, corro o risco de ser expulso do cômodo da excentricidade e abandonado no da chatice.

Aos oitenta estaremos com a memória comprometida, como é usual, embora fisicamente resistentes? Para o médico turco, a Inteligência Artificial é capaz de resolver qualquer problema (não só os da medicina, se bem o entendi), assim me parece óbvio que em seu prognóstico o cérebro do octogenário também se manterá jovial, funcionando muito bem. Ou seja, uma novidade, a IA, abre o caminho para a vida terrena eterna, enquanto me mantenho por fora de tanta coisa.

Não sei quem são os atuais jogadores do Botafogo – e estava inteirado do time de 2024.

Não conheço a maioria dos escritores asiáticos incensados por amigos, nem o húngaro ganhador do Nobel de literatura, moço de nome complicado.

Minha última atualização em termos de linguagem da internet foi entender o significado de “stalkear”, um trem velho até. Mas o que é LOL? E Shade?

Não danço funk. Não assobio músicas da Pablo Vitar. Não tenho Tiktok. Não corrijo meus textos usando o Chatgpt, embora não descarte a ideia. Não frequento rave – mas, você dirá, e lhe peço que me questione, mas não me acuse, isso já não era novidade no tempo em que os bois pastoreavam carneiros.

Caminho pelo “museu de grandes novidades” e olho atento objeto a objeto. A rave não está nele – ah, sim, claro. Ao contrário da morte.

A morte?

Sim, é a nova peça do museu. A escuridão, – ou o desconhecido, – ou o salto no desconhecido, – ou o fim, está para ser emoldurada num quadro e fixada na parede, uma imagem que talvez nem chegue a doer.

Não sei quem deu o tiro, mas arrisco a dizer que Odete Roitman pode ter sido a última pessoa a morrer nesse mundo que nós humanos arrancamos de Deus.


Pós-escrito: soube há pouco que a senhora Roitman não morreu (aliás, seria sua segunda morte), logo, entramos na eternidade na companhia dela. Sigamos....

19.5.25

Novos dinossauros

Quase caí da cadeira quando soube que um amigo de meu caçula pretende ser dublador. Essa é uma função – profissão, bico, trabalho, seja lá que diabo isso possa ser (imagino que para uns seja uma coisa e para outros, outra) – em extinção. Há na TV anúncio de um banco com um ator americano falando português. É a voz dele, “dublada” por uma inteligência artificial, esse meteoro que destruirá os novos dinossauros: além dos dubladores, programadores, funcionários de bancos, professores de línguas... poetas. Sim, até nós, brutos. Lamentar, lamentamos, mas como evitar esse trem que desce do céu em velocidade alucinante?

Thiago Germano, autor do ótimo “O que pesa no Norte” (editora Moinhos), escreveu uma crônica contando de uma crise de criatividade pela qual está passando. Empacou na escrita de um livro que já consumiu quatrocentas páginas. Quer dizer, por sorte não gastou folhas de papel e, consequentemente, árvores, mas está usando memória de computador e, por isso, se entendo bem, algum minério que é a base dessa memória (escrever sempre causa danos ecológicos). No meio do bloqueio, ele se deparou com gente se oferecendo para escrever livros por uma quantia ínfima, obviamente recorrendo à inteligência artificial. Thiago foi então àquela que está à mão de todos nós e pediu que continuasse seu romance. Ele gostou do parágrafo que lhe foi entregue, embora, a seu ver, coubessem algumas modificações. No fim do imbróglio, resolveu continuar seu romance – escreveu um parágrafo em substituição àquele de autoria da IA –, sabendo estar metido em uma guerra contra um mundo cada vez mais utilitário. Escrever, como sempre e mais agora, é uma excentricidade à qual se dedicam os lunáticos. Os escritores, poetas como disse há pouco, estão condenados a, quando muito, viver num parque em que estarão reunidos os últimos dinossauros. Tomara que o Estado nos dê bons e amplos espaços e alguma criança nos jogue pipocas, mesmo sendo proibido.

Vou contar um troço pr’ocês: acho isso de IA tão grande, tão complexo, que nem penso nela – modo alienação ligado. Imagino que, no rabo dessa geringonça, virão mil maravilhas (sou otimista), apesar dos estragos, que não serão pequenos (não sou besta). Mas, cá entre nós, no campo da escrita, continuarei catando meus milhos em algum teclado – já foi o das máquinas de datilografia manuais e elétricas, agora é o dos computadores e celulares, não sei o que nos reserva o amanhã – e escrevendo minhas besteirinhas. Sou pouco pretensioso de um lado e tão insignificante de outro que acho que essa dona nem vai se dar por mim. E eu não vou me dar por ela. Quer dizer, desfrutarei de suas benesses – na medicina, na economia, na uva que partiu – e levarei umas cacetadas de seus malefícios.

Estou errado e meio, bem sei. Mas, gente, cheguei a um ponto da vida em que consigo manter apenas um foco de atenção. O meu tem sido escrever à moda antiga, e assim continuará sendo. Não estou me entregando à velhice, longe disso. Impulsivo como um jovem, planejo dançar um tango em Tuvalu, na (última) maré alta antes de a ilha ser varrida dos mares.

18.10.24

Japona de napa

 Depois que as editoras independentes, pequenas guerreiras, passaram a armar suas tendas em Paraty durante os quatro dias da festa pioneira, pode-se dizer que a Literatura definitivamente hospedou-se na cidade histórica. Aos best-sellers, inclusive ganhadores do Nobel, aos que têm agentes literários e bons contratos, aos que disputam espaço nas livrarias e academias, junta-se a plêiade dos que correm por fora, alguns almejando pertencer à elite, outros menos preocupados com isso. De uns tempos para cá, Paraty tem lá sua diversidade a despeito de os proprietários da festa inventarem moda. Este ano tentaram – por sorte, sem sucesso – proibir as pequenas editoras de venderem seus títulos. Em uma ação deliberada em prol de algum grande grupo, como se fosse preciso, uma festa literária impedir a venda de livros, a estrela do evento, é um acinte, um ataque, quiçá um haraquiri.

Enfim, no Dia das Crianças deste ano da graça de 2024, a Literatura estava em Paraty. Eu não. Como sou parte desse mundo, se estou lá, ocupo meu espaço, se não, deixo de pertencer a ele. Assim como ocorre com qualquer famosão ausente. Isso não é lamento, é matemática. Se, nesses dias, não posso dizer que sou um escritor e que não largo as mãos da Literatura, tenho de me conformar. No entanto, segredo aqui o que aconteceu desta vez: quando a madrugada recolhia os últimos boêmios em Paraty, a Literatura batia suas asinhas, fugia momentaneamente de lá e cantava na árvore do meu prédio. Nesses momentos, dei-lhe de comer.

Um jeito de alimentar esse pássaro, ora corvo, ora pintassilgo – mas nunca pombo, nem o da paz –, é pensar na vida. Ter saudades. Cutucar o passado. Mister Brandão, o que o senhor fazia no glorioso ano de 1966? Decerto não estava preocupado com o terremoto no Usbequistão. Nem com a independência da Guiana Britânica. Pode ser que, metido entre meus irmãos mais velhos, ouvisse “Revolver”, lançamento dos Beatles daquele ano, embora só viesse a ser um beatlemaníaco (nem tanto) algum tempo depois, não com meus cinco aninhos. Tampouco me preocupava com os atos institucionais da Ditadura Militar. Em 1966, minha gente, eu batia bafinha em frente ao Cine Roxy. Aprendia a andar de bicicleta sobre os paralelepípedos do Beco dos Aflitos. Chutava bola em qualquer canto. Dava tiros de espoleta. Confesso: namorava. À porta da casa dos avós de minha namorada, ela e eu nos sentávamos e conversávamos, não passando disso nosso namoro. Eu pousava como um herói capaz de enfrentar qualquer monstro, humano ou não, ela dava trela, gostava. Não sei como o namoro acabou, mas, taí, fomos felizes.

Lembro de mim de calça curta. Calça curta não era só um jeito de nomear o short, mas o corte e o tecido usados na sua confecção se assemelhavam aos de uma calça, só que curta. Eu andava com essa roupa e cabelo penteado para o lado. Naquela época havia muitas regras. Cabelo repartido de um lado para os meninos, do outro para as meninas. O cinto também deveria ser inserido da esquerda para a direita, na calça dos rapazes; o contrário, na cintura das moças. Como foi possível sobreviver a tanto? Olho alguns religiosos atuais e tenho a impressão de que estão naquela mesma batida, com um agravante: seus pastores estão no poder. Bem, a Igreja Católica estava em 1966, esteve desde priscas eras, está agora e estará amanhã. Nos meus cinco anos, as calças eram curtas, minhas ideias igualmente curtas e o mundo já se esmerava em ser um rascunho posto em pé sobre um lamaçal.

Cinquenta e tantos anos atrás, fazia muito frio na minha cidade. Logo cedo, mamãe olhava o termômetro pendurado do lado de fora da casa, perto da cozinha. Um dia, ali pelas seis e meia da manhã, ela me mostrou: zero grau. Destemido, tomei o rumo da escola. Vestia uma japona que podia ser usada dos dois lados. Era chique. Espere um pouco, eu não tinha mais cinco anos, talvez oito. Já cultivava alguma vaidade, como a de me exibir naquela japona. Ainda existe japona? Sumiu do mundo como a calça curta. Que garoto bonito cruzava as ruas, coberto pela peça de napa. Isso, amizade, era de napa, ou seja, uma combinação de poliéster e poliuretano. Não sinto falta do casaco sintético, até condeno seu uso, mas sinto saudades de trajá-lo – apesar de proteger pouco do frio (por baixo da camisa do colégio, metia uma peça de lã) –, de me sentir tão ajeitadinho, de acreditar na vida. Havia visto um homem descer da Apollo 11 e andar na Lua. Aquilo me dava esperança. Não pensava nesses termos, é verdade, mas que coisa fenomenal, que capacidade de irmos tão longe. Como éramos inteligentes! Somos. Dia desses saíram os ganhadores do Nobel de Física, Hinton e Hopfield (no Brasil, formariam uma boa dupla sertaneja, universitária, por suposto), um britânico, outro americano, ligados a pesquisas que abriram campo para a Inteligência Artificial. Um deles disse que, como todo avanço, a IA tem o lado bom e o ruim. A gente sabe disso, a humanidade aprendeu isso, mas a Rússia solta bombas na Ucrânia; Israel, menos por justiça, mais por vingança, bombardeia Gaza e Líbano. Maldição. Que saudades da japona sem avesso, do menino que ia dentro dela.

– Ó, Lítero-pássaro, está bom assim de alpiste ou quer mais, seu faminto?

– Nevermore.

29.1.24

Janeiro visto de um cesto de gávea

Nos devaneios a que me entrego vez ou outra e quase sempre, concluo, por exemplo, que não deveríamos nos assustar com a inteligência artificial, haja vista que a literatura é o resultado de uma certa IA. Assim como faz a máquina, para escrever um poeminha, é preciso ler outros tantos, misturar uns com outros, respeitar ou não a métrica, à moda de uns, as formas clássicas, à moda de outros. Um erudito talvez leia mil livros, a IA, alguns milhões, senão todos. No entanto, o primeiro vai ao banheiro, a segunda não. Nosso diferencial – e nossa vantagem – portanto, meus amigos, está no fato de irmos ao banheiro. O dia em que a máquina pedir um tempinho para fazer xixi, adeus humanidade.

Há algo de muito errado com nossos figurinistas, pelo menos os de novela. Em Paraíso Tropical – novela de 2007 que se passa no Rio de Janeiro, tendo Copacabana como o centro do mundo –, é sempre verão. Há o núcleo dos que jogam futevôlei e o dos jovens que frequentam a praia após as aulas. Há as meninas de programa em roupa minúscula fazendo ponto ao longo da orla. Enfim, é como é essa cidade-inferno. No folhetim, todavia, fora da praia, os homens se agasalham – de terno, no escritório, de casaquinho desses que as mães aconselham os filhos e as filhas a levarem caso o tempo mude, nos outros ambientes –, enquanto as mulheres não ou quase nunca não. Uma amiga lançou a ideia de que as mulheres com menos roupa obedeceriam ao velho machismo. Pode ser, mas eu vejo como um problema de verossimilhança (ou marketing da indústria do vestuário). Numa mesma cena, os homens – que já estiveram em marte – estão no inverno, e as mulheres – que transitaram por vênus –, no verão. Acordai, figurinistas.

Quando cheguei à Folha Seca, livraria no centro do Rio que completou no dia 20 de janeiro vinte e seis anos, encontrei seu dono, o Digão, carregando cadeira, ajeitando o piano e as caixas de som. Para quem não sabe: no dia de São Sebastião, o padroeiro da cidade, a Folha Seca promove uma festa de rua maravilhosa. Grandes músicos vão para lá e dão altas canjas. A vedete é um piano de cauda, que vai passando de mão em mão. A gente ouve em sequência chorinho, samba-jazz, bossa nova e o velho e bom samba. Pois bem, encontrei o Digão pegando no pesado e comentei que o havia conhecido quando ele era livreiro da Dazibao. Dei-lhe uma espetada: livreiro, não, um repositor de livro. Ele então me disse que aqueles eram tempos bons, agora, dono do negócio, carregava cargas mais pesadas. Dito isso, foi levar cadeiras para a turma do samba. A vida de um empreendedor cultural não é fácil.

A passagem de dezembro para janeiro foi, em termos de saúde, um pouco complicada. Nada sério, só aquelas chatices que surpreendem nosso corpo dando-nos um alerta de nossa mortalidade (será que devo almejar a Academia de Letras?). Primeiro foi um evento – realmente não sei como me referir a isso – de herpes-zoster. Apareceu no olho direito. Dei sorte, não tive dor, o que parece raro nesses casos. No primeiro dia útil do ano, fui ao escritório, o que só faço de quando em quando, pois trabalho à distância. No ônibus, um senhor caiu. Me levantei para ajudá-lo: me agachei, dei-lhe a mão, ele se apoiou em mim e se levantou. Quem por pouco não se levantou fui eu. Enquanto o ajudava, uma pinçada na coluna quase me nocauteou. Um anti-inflamatório e uns analgésicos aliviaram a crise nos dias seguintes. A Solange, que trabalhou em casa por trinta anos, quando soube do caso e de sua consequência lombar, me mandou um conselho: “Ó, vencida a barreira dos sessenta anos, ao presenciar um acidente assim, o máximo que devemos fazer é exclamar: Ah, coitado!”

Li mais devagar neste janeiro à beira dos sessenta graus. De todo jeito, coisas boas. Algumas estão aí à disposição dos leitores (“A casa da mãe dos homens”,  Telha, de Ione Mattos, e “As filhas moravam com ele”, Caos e Letras, de André Giusti), outras têm de ser garimpadas em sebos (“A língua da serpente”, Lê, de Jeter Neves) e, por último, um inédito. Sobre este não anuncio o título nem o autor, mas aguço a curiosidade de vocês: é um livro que, numa escrita leve e sem pompas, não parece muito diferente, mas é.

Estar num cesto de gávea pressupõe estar num barco à vela, a caminho de uma Índia qualquer, encarregado de avistar terra logo adiante. Não estou em barco nenhum. A imagem serve para dizer que estou sobre as águas da cidade submersa pela chuva. Sob os desígnios do deus marítimo e menino, o El Niño, com o auxílio luxuoso de anos de crescimento urbano desordenado e incompetência misturada com má-fé (ou pior) do poder público, as águas sobem pelas ruas e derrubam as casas dos morros. A chuva não tem piedade de ninguém, ou, um pouco a Caetano e Gil e sendo mais exato, ninguém, não, dos que são “quase pretos, ou quase brancos, quase pretos de tão pobres”.