14.10.19

Geografia fluida

Para Denise, Helena e Nelson

Numa manhã friorenta, uma amiga de infância me escreveu para contar que, num sonho, ela teria vindo ao Rio e passeado ciceroneada por minha filha. O Rio não era bem o Rio, “o Rio se parecia com uma ilha grega, as casas, clubes e prédios pendurados nos morros, as construções todas loucas como as obras de Gaudi em Barcelona”. As duas, depois de se perderem por uma cidade irreconhecível, me encontraram “num quarto, que era o ateliê de um pintor (Carlos Bracher) em Ouro Preto”.

Enquanto ela sonhava essas coisas, eu sonhava que estava com um amigo nos arredores de Brusque, em Santa Catarina. Era um cânion, com um rio miúdo correndo muito lá embaixo — associei-o ao Itaimbezinho. Meu amigo fazia uma reportagem secreta, secreta até para mim, que o acompanhava. Algo ou alguém apareceria no rio, era tudo que eu sabia. Depois de estar no alto, apareci do nada com os pés na água e vi descer pelo riacho, como previsto, uma espécie de jipe-tanque. Nele vinham uns sujeitos armados que se pareciam — o paralelo deixará muito jovem perdido, sem entender a referência, peço perdão caso haja algum passando os olhos por aqui — com os prisioneiros de guerra daquele velho seriado de TV, “Guerra, sombra e água fresca”.

Para além de mostrar que, mesmo não me lembrando com frequência dos sonhos, de alguns me lembro, e, mais importante, que estou em sonho de outras pessoas, relato esses para falar da geografia. Alguém está saracoteando pelo Rio, uma Grécia catalã, e, ao me visitar, me encontra em um quarto em Ouro Preto. No meu caso, andei pelos arredores de uma cidade pela qual nunca nem passei, que bem poderia ser Itaimbezinho, outro lugar que desconheço e que não é muito perto de Brusque.

Não seria interessante se pudéssemos desconstruir e reconstruir os espaços ao bel-prazer? Viver em mundos paralelos, sem ter de recorrer a drogas, rezas, desatinos, sem ter de contar com a sorte e a aleatoriedade dos sonhos? Fosse assim, nos aproximaríamos de Deus, quer dizer, do poder de Deus (Senhor, livrai-nos disso), poder que, pelo menos no meu caso, seria usado apenas em banalidades.

Por exemplo, sem tirar nada de lugar nenhum, trasladaria para uma esquina de Botafogo a Praça da Matriz de Passos, de modo que passear em torno de seu chafariz, sentar-me em seus bancos, tomar a sombra de suas árvores fosse uma possibilidade tanto para o meu irmão quanto para mim. Meu quarto poderia ser o ateliê do Carlos Bracher, em Ouro Preto, um cantinho onde eu desenharia mundos coloridos, mas que, ao deixá-lo, estaria bem na parada de ônibus em que costumo tomar o 409. A oficina e loja do Marquinho Ajeje, a Divinas Gerais, em Tiradentes, continuaria na cidade histórica, sem deixar de estar a dois passos de qualquer lugar em que eu estivesse. Assim, na hora do cafezinho da tarde, eu visitaria meu amigo, apreciaria a poesia — suas mesas, cadeiras, molduras, tudo que faz, são peças, além de funcionais, poéticas — que ele produz com madeira de demolição e desfrutaria de nossa prosa fiada e afiada.
  
Bom seria se a geografia, em vez da rigidez do longe e do perto, nos desse a liberdade de ajeitá-la de acordo com nosso interesse. Os amigos, morassem aqui ou lá, estariam à mão, pois aqui e lá deixariam de existir.

Se penso em dar fluidez à geografia, penso também em dar rigidez à história. Em que sentido? Ora, no sentido de deixar algumas coisas no passado, só no passado. Por exemplo: essa poção de incivilidade que andam resgatando de tempos sombrios deveria constar apenas das páginas dos livros, como um alerta para que a estupidez — violenta, misógina, homofóbica, racista, injusta — não ocorresse nunca mais.

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