9.5.09

Enterrei uma crônica


(Crédito: EP - O Globo. TZ - divulgação de "Fabricando Tom Zé".)

, e o leitor lucrou com isso. Não era boa, ou melhor, poderia até ter sido, o assunto leve e carioca ajudava, mas o resultado foi pífio.

Ela sairia na Folha Carioca à época da última eleição municipal, entretanto meu senso crítico, quase nunca apurado, interrompeu o processo no momento exato em que a mão apertaria a tecla enter lançando como um foguete a crônica bem no colo do editor.

Na falecida, eu lançava uma candidatura alternativa. Uma chapa com a nata da música popular brasileira, tendo à frente Paulinho da Viola como candidato a prefeito e Chico Buarque na qualidade de postulante ao cargo de “secretário municipal do Vai dar Merda”. Além deles, estavam lá: Clementina de Jesus, Tom e Vinícius, Elis Regina, Lenine, Guinga, Gismonti, Cartola, Nelson Sargento, Joyce, Dorival Caymmi, Pixinguinha, Zélia Duncan etc. Enfim, velha e jovem guardas, mortos e vivos ocupando os postos monopolizados por políticos e por amigos de políticos.

Veio a eleição, “Dudu da Ordem” virou prefeito, esqueci a crônica, e o tempo não parou. Fui assistir a “Palavra (en)cantada”, filme de Heloisa Solberg, e sofri um abalo: em minha crônica enterrada, não havia reservado nenhum cantinho para o Tom Zé. Alguns dirão: ele não mora no Rio. Eu mesmo poderia tentar me salvar dizendo que Tom Zé é tão grande que prefeitura é pouco pro bico dele.

E de fato é. Tom Zé deveria ser presidente do Brasil; imperador até. Precisamos de um maluco lúcido do naipe dele. Além do mais, o tropicalista já está com bastante idade, o que, no meu ponto de vista, é condição sine qua non para a habilitação ao cargo maior da república ou da monarquia.

Passados mais de cem dias da vitória de “Dudu da Ordem”, temos visto o novo prefeito mandando ver ou, por outra, mandando para ser visto. Conhecido meu conta de uma amiga dele que vendia roupas ali no Catete havia bem uns vinte anos. A senhorinha de seus sessenta, setenta anos se viu, da noite para o dia, transformada em perigosa fora da lei. Antes, ela se pensava informal, soube que era bandida. Fecharam sua tenda.

Li que, na Gávea, um morador foi agredido pela Polícia Municipal, que “zelava” pela derrubada de um imóvel irregular e sentiu-se ameaçada por um homem caminhando com seu cachorro.

Estão propondo a construção de muros nos limites das favelas. (Discussão interessante a esse respeito Sérgio Besserman propõe em seu blog no Globo on line.) Fala-se em conter a expansão com o objetivo de não danificar o meio ambiente. Chama o urubu de meu louro, chama!

Poderia listar mais um monte de ações cujo objetivo é atacar a consequência sem melindrar a causa. Eu me pergunto: “Dudu da Ordem” está à ordem de quem?

Resta-me, nessa altura do campeonato, rezar para que o prefeito eleito erre, mas não peque. E enquanto vai flanando nos ares do poder, Tom Zé bem que poderia cantar pra ele assim:

“Dorme, dorme

Meu pecado

Minha culpa

Minha salvação.” (Mãe, Tom Zé e Elton Medeiros)

 

Ou então:

 

“Menina, amanhã de manhã

quando a gente acordar

quero te dizer que a felicidade vai

desabar sobre os homens, vai

desabar sobre os homens, vai

desabar sobre os homens.” (Vai, dos mesmos Tom e Elton)

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