19.2.10

Receitas talvez desnecessárias



Para dias noturnos

Tome o alho e o bugalho nas mãos, esfregando-as até tornar o alho bugalho e vice-versa. Feito isso, espalhe a massa compacta derivada do movimento anterior sobre o lombo de tudo quanto é tristeza. Deixe-o descansar, aproveitando parte desse tempo para descansar você mesmo.
Ao voltar ao batente, peneire o pó das dúvidas, macere o limão para extrair-lhe o azedo das raivas e bata em neve as claras da boa vontade e da crença. Use, para as claras, garfos de gratidão e evite batedeiras, britadeiras e outras máquinas que são ágeis, mas brutas.
Deite num pirex um fio de esperança e um pouco do leite de Eva, mãe e mulher antes que pecadora. Arrume o lombo nessa mesma travessa, cobrindo-o com a química da bonomia. Leve-o ao forno morno e deixe o calor dar conta do recado.

Para dúvidas políticas

No liquidificador jogue inteiro o discurso mentiroso, que sempre vem protegido pela casca da desvergonha. Triture, triture e triture mais um tico. Se preciso, peça à vizinha o multiprocessador e triture novamente o já triplamente triturado. Virou poeira? Não assopre. Nem se espante, esse é o ponto.
Bote sob o sol do meio-dia o prato das alianças negociadas, ou melhor: das negociatas — com isso, a receita não ficará nem melhor nem pior, mas a cachola dos arquitetos dessas estruturas interesseiras deverá ficar bem quente (são merecedores).
Em fôrma untada com a manteiga salgada da verdade, derrame o líquido das intenções ditas doces, proferidas por essas pessoas que não se cansam de se dizer tementes a Deus. A manteiga vexada fatalmente irá ferver como num milagre, acomodando-se depois numa pasta oleosa. Sobre o prato das negociatas então bem aquecidas pelo sol tropical e pelas culpas ainda que passageiras, mescle a pasta ao pó do discurso, sovando a mistura até formar uma massa que se possa moldar com facilidade. Na tradição rural, aconselha-se ao cozinheiro levar tudo no deboche e na descrença, o que aguçaria o sabor dessa espécie de pastelão.
Sirva o prato frio, acompanhado de licor da pupila jabuticabosa dos olhos cegos da justiça.

Para alimentar os filhos


Escolha na feira hortaliças viçosas e frutas suculentas.
Em casa, antes de misturar isso e aquilo, deixe escapar uma palavra doce para as crianças, mesmo que o almoço não tarde, pois não será isso que lhes tirará o apetite, antes pelo contrário. Em seguida, e sempre, esteja cozinhando ou não, tome como compromisso inalienável não mentir para elas nunquinha durante essa vida tão breve. Sequer mentiras adornadas com trufas e biscoitos da vovó ou insufladas pela melhor das intenções.
Por fim, com o coração arejado, faça o que bem entender com as compras recém-feitas. Só não deixe de enfeitar o prato: a beleza atiça a fome dos inocentes.

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