13.4.11

Com que eu eu vou?

Até recentemente éramos alegres e tristes, amados e odiados, risonhos e trombudos no espaço que estivesse ao alcance de nossos braços e de nossas mãos. Uma invenção como o avião criou a possibilidade de num sopro irmos de um lado ao outro, mas nossa atuação continuou presa ao espaço físico que ocupávamos. O telefone, antes do avião, criou a conexão à distância, mas tímida (por muito tempo, cara), limitada a dois atores, um em cada ponta. Na verdade, o telefone não passa de um instrumento para marcar encontro.
A internet — evoluindo do correio eletrônico aos bate-papos e além — muda isso. De certa forma, nossa presença virtual é um ensaio de um desejo humano antigo: a onipresença.
Nesse mundo, as redes sociais, como têm sido conhecidos o twitter, o orkut e o facebook, as mais populares, são um capítulo à parte. Recentemente, nesses terremotos de insatisfação que pegaram de cuequinha arriada e penico na mão os ditadores da Líbia (osso duro de roer), do Egito e de outros países, elas viraram peça de resistência política. Bastam-nos os dedos, esses subservientes criados de nossa mente, e de uma boa legião de amigos ou seguidores para mexer com o mundo. O resto, como sempre, é o poder de persuasão, a habilidade de convencer primeiro uns e depois outros e mais outros e outros, numa progressão infinita que promove a reunião de uma multidão na Praça Tahrir.

Essas redes, se podem ser úteis para derrubar ditadores ou badalar artistas, são também espaços festivos. Sim, festivos. Somos, muitas vezes, um monte de crianças estreando seus brinquedos novos. Há os que vivem administrando fazendas virtuais e outros que passam o tempo todo respondendo perguntas a respeito de seus amigos. Aliás, o termo amigo é forte para ser empregado nas redes, talvez o utilizado no twitter, seguidor, seja mais correto.
Para se ter exemplo da festa, dia desses, um publicitário de BH (Aroeira) postou algo assim: se o facebook fosse no Irã, seria faceburka. Uma brincadeira de menino. Em menos de 30 minutos, gente de vários lugares, eu inclusive, dava contribuição com outras ideias: se fosse de um amante de Bergman: facetofacebook; já se fosse cerveja escura facebock; ou, ainda, seria facebroca nas mãos de dentistas; de Wilson Sideral, fácilbook; de um cara falso fakebook; e, para terminar com poucos exemplos: faithbook para os religiosos.
Para muita gente, as redes sociais ferem de morte a individualidade. Sempre há o risco de nossos dados correrem de um cadastro para outro e virarem-se contra nós, e, como seduções comerciais, encherem nossa paciência e a memória de nossos computadores. No fundo, o que as empresas querem é conhecer o consumidor na sua intimidade. E o risco é exatamente esse: você ali achando que brinca ou planeja revoluções e os grandes conglomerados vasculhando seu jeitinho de ser.
Não sei se o medo dos que reclamam da agressão à individualidade tem a ver com essa enormidade dos interesses econômicos, são mais rasteiros: o problema é o vizinho descobrir o segredo do requentado que inebria a todos na hora da janta. Dentro de uma rede social, é possível usar algumas configurações de segurança mais ou menos confiáveis, nem todos sabem disso. Enfim, o medo não é de todo descabido, mas muitos são mesmo descuidados.
As redes sociais não substituem os locais de convívio, onde o velho olho no olho continua comandando a praça, inclusive a Tahrir. Ou, deixando a metáfora de lado, twitter, orkut e facebook são espaços para o eu-coletivo (o que brinca, o que promove revoluções, o que informa), o eu-eu mesmo precisa de amigos para tomar chope, para compartilhar alegrias e tristezas, precisa de amores para acalmar a fúria do corpo, para reproduzir-se ou mesmo para deixar-se ficar em sua companhia sereno, pleno, esquecendo-se de tudo o mais. 

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