4.5.11

O erro que nunca cometi

Brinco dizendo que meu único erro na vida foi ter nascido — alguns acreditam que digo a verdade e muitos concordam com a tese da minha brincadeira. Francamente, não passa de um exagero.
Exageros de certo modo garantiram nossa vida tal e qual a temos hoje. Não fossem eles, não passaríamos de uns 10 ou 12 Adões e Evas, filhos pingados à terra em momentos de tédio de Deus.
Exagero foi ter dado ouvido (asas ainda não demos) à cobra e comido a maçã que o diabo lustrou com o bafo. E ainda: guerrear por Helena; erguer a Muralha da China; pintar a Monalisa; revelar os sentidos dos sonhos... Não à toa cantamos: “Exagerado, eu sou mesmo exagerado, adoro um amor inventado” (Cazuza, Ezequiel Neves e Leoni).
Na verdade, e sem exagero, cometo erros de toda espécie. Chego mesmo à borda do pecado, mas parece que não passo daí. Veja se concorda.
Os dois primeiros mandamentos pregam que devemos amar a Deus sobre todas as coisas e não usar Seu nome em vão. Talvez eu queira discutir um pouco o que seja Deus, mas, pondo-nos de acordo sobre isso, respeito o divino sem outra discussão.
Sempre honrei pai, mãe e os outros legítimos superiores. Nunca matei. Nem roubei. Jamais levantei falsos testemunhos (tudo bem, uma ou outra vez para ver um dos meus irmãos em apuros com mamãe, mas já fui perdoado, era uma criança!).
Quanto a guardar domingos e festas de guarda, convenhamos, o mundo mudou, e eu mudei com o mundo.
Não entendo bem o que seria guardar castidade nos pensamentos e nos desejos. Temo ter ferido e ainda ferir tal preceito, não apenas no nível do pensamento e do desejo. Não sou mesmo um santo.
Mal redigido (ou mal traduzido), o último mandamento — não cobiçar as coisas do outro — se fia numa palavra ambígua: coisa. Se por ela devo entender os bens materiais das outras pessoas, não os cobiço, mas, aqui e ali, invejo-os. Nada muito grave, de fato são lampejos de inveja, que vêm e vão. Porém, se, como afirmam alguns, a mulher do outro está entre essas coisas, ô, dó de mim.
Leitor, acabo de me expor ao ferro e fogo do seu julgamento. Espero que olhe para si antes de dizer que, de fato, era melhor eu não ter nascido, que meu erro foi esse.
Nas vezes em que me vejo nervoso, quando não coço os olhos, assobio. Um gesto ou outro me confortam, com eles ganho tempo; e o tempo — recorro ao banal — opera milagre, com seu beneplácito pode-se reverter a mais desfavorável das situações.
Assobio enquanto escrevo e espero seu veredicto.
Fiat lux: assobiando encontro o erro que jamais cometi: nunca votei no Bolsonaro.
Isso compensa meus quase pecados?




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