7.10.11

Um segredo para o Drummond


Para Angela Bittencourt, que sugeriu a crônica



Dia desses, uma “notícia” no site de humor G17 registrava a provável ideia do Governo do Rio de Janeiro de mandar internar as pessoas que costumam sentar-se ao lado da estátua do Drummond e conversar com ela.

Numa conversa com Otto Lara Resende.
Em suas colunas na Folha Carioca, Lilibeth Cardozo e Ana Flores já registraram suas conversas com o poeta agora em estado de bronze. No Facebook, muitos se confessaram igualmente íntimos do Drummond. Nunca falei com ele, mas já troquei ideias com outra estátua, a do Otto Lara Rezende, que fica na esquina da Jardim Botânico com a Pacheco Leão. Nenhum de nós, interlocutores das estátuas, é maluco.

Há duas maneiras de se ler a tal “matéria”. A primeira do ponto de vista da crítica ao governo, podendo, por omissão no texto, ser o municipal ou o estadual. Ambos, nesse tempo de urgência na arrumação da casa para as olimpíadas e a copa do mundo, são alvo fácil dos humoristas. E os políticos, aventurados como eles só, fazem por onde, seja não cuidando do bonde de Santa Tereza, um dos cartões postais da cidade turística, seja deixando cair sobre a vida pessoal, à medida que o particular se imbrica com o público, toda espécie de suspeita. Tendo os políticos que temos, não é de todo descabido aparecer do nada um decreto, ou mesmo uma lei, nos termos imaginados pelo G17. Pensariam assim o prefeito e/ou governador: não cuidamos do bondinho, é verdade, mas antes amealhar meia dúzia de mortos pelo caminho do que deixar esses perigosos órfãos e viúvos de Drummond exibirem sua loucura à luz do sol na praia mais famosa do mundo.

A outra leitura poupa os políticos, colocando-os na pretensa matéria apenas como a azeitona com caroço da empada nossa de cada dia. Nesta leitura sobressai a confiança, ou idolatria, que depositamos no Drummond. As colunistas da Folha, o bêbado de uma foto famosa, eu, algum dia, você, talvez, e outros, muitos outros já recorremos ou vamos recorrer ao colo em bronze do mineiro das terras do ferro, que está em Copacabana, como o verdadeiro anjo torto, à disposição de quem carece de consolo. Não basta abrir e ler seus livros, precisamos do contato fingido e teatral, que a existência sem vida de uma estátua permite.

Chacrinha, Drummond, Otto Lara Rezende, Pixinguinha, Noel Rosa, Braguinha e Ary Barroso são alguns dos que ganharam estátuas espalhadas pela cidade. Na maioria delas, os homenageados foram flagrados em momento de intimidade. Drummond sentado no banco da praia; mineiramente, de costas para o mar. Otto com o cotovelo na mesa do escritório, tendo à mão um livro. Noel pedindo ao garçom para levar a ele uma média que não seja requentada.

Sendo as estátuas de personagens mais ou menos nossos contemporâneos é justo que os visitemos. Que levemos nossos segredos para compartilhar com quem compartilhou de certa maneira os seus conosco. Artistas de modo geral falam de si o tempo todo, mesmo que não se possa ligar diretamente sua vida a sua obra. Contam-nos segredos de forma tão dissimulada, que um poeta, dos maiores, definiu seus pares como aquele que “finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. E completa: “e os que leem o que escreve, na dor lida sentem bem, não as duas que ele teve, mas só a que eles não têm.”

As estátuas, enfim, dão-nos à mão o que, sem elas, seria apenas sonho: o convívio amiúde com nossos ídolos. Por tudo que estes significam, falar com eles, mesmo em presença simbólica, não é loucura. Sendo assim, concluo que o G17 estava mesmo de pinimba com o prefeito e/ou com o governador. Aposto, e torço por isso, que humoristas continuarão na cola deles. E não só na destes, pois os políticos andam extrapolando o contorno do razoável. Merecem, portanto.






4 comentários:

Aroeira disse...

clap clap clap

lucasbrandão disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lucasbrandão disse...

Maravilha Xandovski. Acho que em vez de vaquinhas pintadas por artistas pops famosos ou não, deveriam criar campanhas para fazer o mesmo com pessoas de comprovada relevância cultural. Assim poderiamos todos bater um papo com os figuras e até pedir alguns conselhos. Imagina-te só uma estátua do Nelson Rodrigues toda cheia de cor e tals. Isso sim é que é obra de arte. E deveriam ter um banco ao lado para o companheiro de conversa poder descorrer com mais conforto.
Quanto as leis absurdas de políticos municipais, estaduais e federais, escuta só esta: aqui em BH estão querendo, através do ministério público, apertar o cerco contra os bares e restaurantes e endurecer a lei do silêncio. Dentre outras medidas, obrigar os estabelecimentos a fecharem as 23h. Taí um assunto que talvez interesse ao G17. É mole? Pois é, como diz um conhecido: é mole, mas sobe. saravá

Alexandre Brandão disse...

Aroeira, clap, clap, clap também, e seja lá clap o que clap seja.

Lucas, como já até falei no Facebook, esse Ministério Público não bebeu e viajou na mandioquinha.

Os bares são patrimônio material e imaterial de Minas Gerais.