18.5.15

Amigos do peito

Um grande amigo, já recolhido ao desconhecido, pioneiro em informática no Brasil, recebeu do governo uma bolsa para estudar em Londres. Grande apreciador de uísque, foi, com uma sede daquelas, para o país que julgava ser o verdadeiro paraíso da bebida. Todavia, vejam que ironia, não lhe caiu bem o escocês. Ao seu paladar, aquilo não era uísque, definitivamente não era. Passou a contrabandear os brasileiros. Alguém ia visitá-lo e levava um Old Eight ou outro brazilian scotch do mesmo quilate. Lá pelas tantas, com dificuldade de importação, meu amigo acabou se acostumando com o mais popular nas terras da Rainha, o Teacher, que, ao voltar ao Brasil, encontrou no mercado, engarrafado por aqui mesmo. Enquanto pôde, bebeu o Teacher. No seu modo de ver, marca condizente com o fato de ele ser professor — uma atitude corporativista.

Feliz do sujeito de ideias próprias, que rema contra a maré. Esse meu amigo era um tipo assim. Falei em felicidade, mas, não sei se é o caso, uma vez que para ser feliz não basta só ter opinião própria. A vida é feita de muito mais coisas: casar, não casar; ter filhos, não ter filhos; ganhar dinheiro, não ganhar dinheiro; etc. e não etc. Além de ideias próprias, uma boa pitada de sorte favorece a felicidade. Já que meu amigo, aqui e ali, teve de segurar alguns touros grandes e ferozes à unha pequena, numa pretensa contabilidade da felicidade (os economistas andam doidos por medi-la), seu débito recebeu lançamentos de valores altos, difíceis de serem abatidos. Apesar de tudo, meu amigo era leve, e sua companhia me fazia um bem danado.


Amigos! Essa crônica se serviria da lembrança de um tão querido para, a partir dela, falar de outro assunto, mas, ao aparecer num instantâneo, esse amigo tomou conta do que escrevo. Ele faria anos por agora, deve ser por isso que sua presença deu rasteira nas urgências que seriam tratadas por esta crônica. Não por esta, por outra, que não vai ser escrita. Saravá, meu avô (como eu o chamava), seu tio (como ele me chamava) preserva sua memória, a memória de um múltiplo artista (xilogravador, desenhista e escritor) com quem convivi e tomei lições das mais nobres.

Uma obra de Escher.


Caí no campo da amizade, sigo nele até o fim. Falo de outro amigo, mas tenho de deixá-los de sobreaviso, uma vez que é dono de uma qualidade perene e inigualável (não há risco no meu prognóstico): morrerá comigo e não me deixará sofrer a dor dos que perdem um verdadeiro irmão, nem a sofrerá ele. É um amigo imaginário. Nossa convivência começou nos meus dois, três anos, como é habitual, no entanto fiz quatro, catorze, vinte e quatro e vou fazer cinquenta e quatro anos sem que Jamil desaparecesse.

Discreto, ele nunca me acompanha no banheiro (nem nos públicos) e, quando algum namoro esquenta, sai do recinto na hora certa. Para poder me explicar, lê livros que não seriam os seus escolhidos. Assobia para me tirar de algum silêncio casmurro. Reza quando eu peco. Dirige quando cochilo ao volante.

Perfeito? Não, longe disso. Jamil, ao contrário do outro amigo que ilustra esta crônica, nunca me contou uma história que fosse dele, só dele, mesmo que embalada em algum delírio.
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