10.10.06

Revelação

Acenei…Não, antes olhei pro céu e pressenti chuva. Voltei em casa para pegar o guarda-chuva. Não sei a razão, mas um sujeito com guarda-chuva, apesar da pouca durabilidade dos atuais, made in China, parece mais digno.

Voltei com certa dignidade para o ponto de ônibus e, aí sim, acenei para o 409. Não estava cheio, pude escolher o lugar. Sentei ali no meio, perto da janela, na fila oposta a do motorista. Nessa posição posso deitar a vista na enseada: Botafogo, Flamengo… os Pracinhas, todo o Aterro. Bela cidade, o Rio de Janeiro.


E lá ia o ônibus com o jovem senhor com destino tão certo, rotineiro. Sentadas no banco de trás, duas senhoras conversavam sobre qualquer coisa, nada que aguçasse minha curiosidade. Uma delas desceu no ponto bem em frente ao Shopping da Praia de Botafogo.

E, nesse momento, aconteceu.A senhora que ficou desandou a falar sozinha. Reclamava. Era o ônibus que se arrastava; um ônibus enguiçado logo adiante que atrasava a vida de todo o mundo. Sabem aquele tipo mal-humorado, ranzinza? Era ela.

Não me caiu bem essa reclamação interminável. Era uma segunda-feira, o day after do debate entre os candidatos à presidência. Eu estava triste, mal-humorado também, só não estava falando sozinho, achando que o ouvido dos outros é esgoto.
A mulher, no entanto, continuava. E continuava. E continuava.

Até que falou:

— 9 horas da manhã, e essa lerdeza. Na Europa, o pessoal já almoçou, se duvidar até já lanchou, e nós aqui… Seu Lula, seu Lula, olha o que senhor aprontou!

Quando contei a amigos, pensei que a mulher poderia ficar mais espantada ainda se pensasse não nos europeus, mas nos japoneses. Àquela hora, já se preparavam para dormir.



Esse deslize da mulher, todavia, pode ser debitado ao preço pago por pioneiros. Ela acabava de criar uma teoria. Não é a diferença racial (responsável por tantas guerras). Não é a diferença religiosa (responsável por outras tantas guerras). Não é cultural. Não é econômico. O problema do mundo, leitores e leitoras, é o fuso horário.


Vamos mudar nossa agenda política.


PS. O Guarda-chuva lá em cima é obra de Goeldi.
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