7.1.08

Chicle de Bola



Desce a Voluntários da Pátria, masca chicletes e o mundo dos homens, cachorro eficiente, morde e não ladra. O Iraque está lá aos frangalhos, e a fome, como sempre, espalhada por toda a África. No Brasil, bem, deixemos este país com o qual não temos intimidade longe do circuito Gávea, Leblon e Botafogo.



A mulher e seu chiclete não são metáforas de nada. São apenas o que são: ela linda; ele, doce. Ela, descendo a Voluntários; ele, amassado entre dentes.



Se pinta um problema, a moça faz bola. A bola é uma casquinha de goma com ar dentro, coisa frágil, frágil, que não dura dois passos da mulher-agora-com-pulga-atrás-da-orelha.





O problema dela não tem a ver com a tragédia iraquiana ou com a africana; poderia ter, mas nesse instante não tem. Não é também minha indiferença por ela, porque, se há indiferença, é dela por mim, um desconhecido com quem esbarra em Botafogo, na rua pavimentada hoje e cheia de irregularidades amanhã. Não é o prefeito que a está incomodando. O que será?



Todo chiclete perde seu docinho. Em moleque, quando o que eu mascava se avizinhava do fim, enfiava-o no congelador — não sei se ganhava uma sobrevida, um “plus a mais” de doce, mas é o que diziam e eu acreditava. Sorte a do meu pai, levava mais tempo para lhe pedir outro tostão.



É o fim do chiclete que está pegando? Não, não há congelador no meio da Voluntários e, mesmo se houvesse, seria preciso que a goma congelasse totalmente para ter de novo o seu gosto, se é que ele volta. Será o Benedito que ela não tem um vintém, dez pratinhas em moedas de um centavo perdidas na bolsa? Se for dinheiro, bem poderia adiantar-lhe algum, nem fazia questão de recebê-lo de volta. Se muito, armava um estratagema para reencontrá-la:”Toma vinte centavos; amanhã a gente se vê aqui mesmo para você me pagar”.




A moça masca chiclete. A mim resta a dúvida: hortelã ou tutti frutti? Será de canela ou desses surpreendentes dos dias de hoje: melancia, maracujá? É uma dúvida, não mais do que isso; meu problema, problema mesmo, é outro, e só a moça que caminha mascando seu chicletinho resolve. Basta que ela deixe a Voluntários, entre comigo na livraria ao lado do cinema, aceite o café e um naco de bolo que lhe oferecerei, responda ao meu sorriso e, com jeitinho tímido ou arrogante, pouco importa, tire o chiclete da boca, jogue-o no lixo e, olhando talvez para mim, talvez para alguma coisa que posso chamar de infinito, diga: pronto!
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