9.8.08

Saúde e academia de ginástica: relação perigosa

Ignorando se a informação lhe interessa, leitor, digo: faço ginástica. Não estranharia se recebesse como resposta um sorriso sarcástico, último movimento de quem olhou para mim de alto a baixo e pensou: que shape, hein!

Tudo bem, não emagreço, mas pelo menos estou ficando informado. Enquanto maltrato a esteira, vejo a TV, o jornal da TV, e, com isso, torno-me atualizadíssimo. É um consolo para quem sua tanto.

Não é que, dia desses, estou lá nos meus, em média, sete quilômetros por hora quando surgem na tela da TV os oito principais mandantes do mundo? O famoso G-8 estava reunido no Japão. Imagino que, nessas ocasiões, eles se sentem em torno da mesa e se perguntem: e agora? Um fala: vamos dizer alguma coisa para sossegar os outros (nós, os indianos, os africanos, os bolivianos, os turcos e todos aqueles que não pertencemos aos oito). Emenda-se: continuaremos sendo os mesmos, a boa notícia é só para dourar a pílula, ou, como poderia dizer o Millor Fernandes, only to gild the pill. Pelo jeito, além de informado, vou adquirindo cultura. Isso é bom, cultura é o que há.

Apareceram na TV, claro, para dar a “boa” notícia ao mundo. Dessa vez comprometeram-se a reduzir em 50% a emissão de gases poluentes. 50% off, como nas liquidações anunciadas nas lojas americanas, inglesas e brasileiras. Época de eleição, e o Sr. Bush aceita reduzir as emissões estadunidenses. É mentira.

Não estou para política, juro, e minha intenção era dizer que o que mais me impressionou nisso tudo foi a forma com que mostraram ao mundo o seu apreço ambiental. Estavam os oito lado a lado, e cada um empunhava uma pá com a qual jogavam terra num buraco que acomodava a raiz de uma futura árvore. Em suma: os oito plantavam arbustos (as batatas plantávamos e plantamos nós, alguns suando na esteira). O que a política não faz! A cara do Sr. Bush não escondia a sua pouca intimidade com o trabalho braçal; na realidade, mais do que isso: em seu rosto, transparecia o pouco reconhecimento que ele nutre por trabalhos braçais. Votem! Votem! 50% menos poluição é o negócio da vez, oportunidade única.

Continuava suando. Eu, não eles, que apenas jogaram duas pás de terra e voltaram para o escritório para tratar (tramar?) de outros negócios. E foi em bicas que vi o secretário de Segurança do Rio de Janeiro desculpar-se pelo excesso da polícia carioca, cuja ação estrambótica, dessa vez na Tijuca, acabou com a vida de uma criança.

Antes, quem se desculpara pela atrapalhada (palavra suave, de gente culta como eu) fora o ministro da Defesa. Quando o vi, sempre pela TV, abraçando-se às mães das vítimas da Providência, achei sua atitude sensata, pelo menos dava a cara a tapa, ali, no olho do furacão, e não escondido no conforto de um escritório.

Outro pedido de desculpa. Epa, assim já é demais. Dizem que errar é humano, portanto pedir desculpa é, além de humano, civilizado. Mas, se persistir no erro é burrice, insistir na desculpa deve merecer algum adjetivo de baixo calão.

Apesar da esteira, emagreço pouco. E por causa da esteira, fico exposto ao mundo trazido pela TV. Sabe, estou pensando seriamente em deixar a ginástica de lado. Acho que a vida ficará melhor, pois tudo indica que a realidade faz mal à saúde.


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