14.7.09

Tudo num dia


Faltei à ginástica — o cansaço, amigo, o cansaço. Mas a vida é assim: aqui se perde, logo ali se ganha. Cheguei ao trabalho, por conta dessa preguiça matutina, numa hora diferente da habitual.

A última rua que teria de atravessar antes de acomodar-me à cadeira e pelejar com (ou contra) papéis, reuniões e gente — gente, sim — é dessas grandotas, com uma ilha entre as duas calçadas.

Eu estava num dos lados da rua. No outro, havia um casal cuja mulher levava um bebê deitado nos braços. Na ilha, um senhor. O sinal de trânsito, de três tempos, abriu de tal modo que o casal pôde ir para a ilha. O senhor, que poderia ter seguido para o outro lado, manteve-se onde estava. Especulo que esperasse a aproximação do casal, pois foi só ficarem mais próximos para o senhor depositar sobre a criança o olhar mais suave e sublime de que me recordo de ter visto nos últimos tempos. Enquanto admirarmos com encantamento a vida que é apenas potencial haverá esperança de dias melhores.

Veio a hora do almoço, e não vi nada de extraordinário. Isso, cá entre nós, é o comum da vida. Esbarramos com pessoas correndo de um lado pro outro, algumas defendendo seus trocados, outras atrasadas para um encontro amoroso, umas tantas tristonhas por alguma das muitas razões existentes para entristecer a gente, e não há nada nelas de especial, pois não dão na pinta o que faz mover seus passinhos da hora.

Em Copacabana, já à noite, precisava fazer hora antes de encontrar minha família num restaurante em que comemoraríamos o aniversário da Bia. Desci na Barata Ribeiro e, distraído, entrei na Figueiredo Magalhães. Não era o que planejara, queria mesmo ir à Modern Sound, aquele pedaço de mau caminho onde minhas finanças costumam sofrer abalos comparáveis a esse que anda rondando a GM, com uma pequena diferença: não tem Gordon, nem Lula, muito menos Obama que se proponham a me salvar. Bem, entrei na Figueiredo e ia matando o tempo com passadas de gente cansada quando minha audição alcançou o choro de uma mulher. Chorava e dizia, em alto e bom tom, alguma coisa como “aquele maldito, safado de uma figa”. Uma mulher que ama demais? Uma mulher desrespeitada? Doidinha? Não sei, não sou de palpites. O mundo ainda faz as pessoas sofrerem de amor, é tudo que posso dizer, e a partir dessa constatação afirmo: se os sofrimentos humanos fossem apenas amorosos, o mundo, esse bicho, seria tão melhor do que é. O mundo seria manso.

Encontramos a Polonesa ocupada por um grupo pra lá de ruidoso, que se esparramava por todo o ambiente. Bia quis ir embora. Mas apostamos em não desistir, a turma não demorou muito a cair fora, e ficamos com o restaurante todinho nosso. Comemos nababescamente, coroando a noite com aquele viciante suflê de chocolate.

E o Flamengo, tadinho, se desclassificou na Copa do Brasil.

O Fluminense também.

Caí na cama, capotei no sono, mas esse dia não saiu de mim. Nem sairá.


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