9.5.10

O menino, a manequim e a chuva

À memória de Diego Frazão e à serena beleza de Luísa Brunet.


Duas notícias recentes chamaram minha atenção.
A primeira dava conta da morte daquele menino lindo, o Diego, o mesmo que aparecera na mídia, um pouco antes, tocando violino e chorando numa homenagem que os alunos faziam ao duplamente assassinado Evandro do Afroreggae.
A outra, num diapasão bem distinto, era uma entrevista de Luísa Brunet, na qual, entre outros assuntos, ela comentava que, aos 47 anos, não mantinha relações sexuais havia dois anos.
Diante de notícias tão díspares, pensava que, no caso do Diego, uma derrota pessoal (dele) crescia de significado, pois de alguma forma ele passara a representar a esperança por uma cidade menos violenta e mais justa, que desse oportunidades iguais a todos. No caso da Luísa, para além de algum possível desejo masculino (meu) que se viu desperto, perceber que ela, “a bailarina do Edu Lobo e do Chico Buarque”, a que não deveria ter problema algum, de fato tinha, de um lado me consolava por reforçar a constatação de que somos todos humanos, demasiadamente humanos, e de outro me deprimia: então não há um ser belo e feliz, um que possamos almejar ser, ainda que em parte?

Por mais tocantes sejam essas histórias particulares, a do menino e a da manequim, a tragédia comandada pela chuva de abril gritou mais alto, carregando minha atenção — imagino que não só a minha — para os seus efeitos destrutivos. Choveu no Rio. Choveu um rio. Choveu um mar para ser mais exato.
Ruas inundadas. Deslizamentos. Interdição de pontes e rodovias. Vidas levadas pela enxurrada. Não teve dó a chuva. Não é a primeira vez. Não será a última. Por que então a cada chuva assistimos à mesma reprise de tragédias?
O atual prefeito diz que não é com ele, é culpa do anterior. O anterior achava que era problema do anterior. Nessa sequência, Deus será o culpado, já que os homens públicos não chamam a si a responsabilidade que é, em grande parte e por voto popular, deles mesmos. Não quero cair na lenga-lenga de maldizer os políticos, misturando todos num único saco, porém friso: esses homens contam com o beneplácito de nossa cultura de poucas cobranças. E acrescento: o tempo é o desmemoriol que dá sete vidas a eles.
Cobramos pouco, é fato. Fazemos pouco também. O lixo, somos nós que o espalhamos pela cidade. O prefeito não dá conta de limpar as ruas, mas o caos seria menor se não as tivéssemos sujado.
O presidente, o governador, o prefeito, a justiça, enfim, todo o poder público vê nascer sob suas barbas milhares e milhares de favelas. Não fazem nada. Talvez um pouco por culpa, afinal, se não se pode construir um país sem desempregados, como exigir que os pobres vivam em terrenos “oficiais”, pagando os tributos relacionados a eles? Porém, mais do que isso, fecham os olhos porque vivem da pobreza. É paradoxal, ao desavisado, mas é a verdade.
Há outro ponto de vista. O dos próprios favelados. O que os leva a estabelecer-se numa encosta ou sobre um desativado aterro sanitário? Pitadas de ignorância? Gotas de desespero? Não tenho resposta. Nada (nem a razão) se contrapõe aos perigos conhecidos, levando-os a correr todos os riscos? Soa estranho.
A chuva levou consigo centenas de pessoas que se parecem mais com o Diego do que com a Luísa. Os prefeitos das cidades do Rio que sofreram com as chuvas trabalharam muito durante o caos, mas provavelmente, passado o dilúvio e seus aluviões, voltaram a seus gabinetes para sonhar, erotizados pelo poder, mais com Luísa do que com Diego. Acabarão por esquecer de buscar uma saída para tornar a cidade menos vulnerável aos golpes da natureza e à exclusão social.
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