11.6.10

Dois assuntos da hora


Primeiro



Chovo no molhado (expressão inapropriada) ao dizer que o outono nos brinda com os dias mais lindos do ano. O céu é limpo, de um azul absoluto. Os fins de tarde inauguram a noite com todas as pompas que ela merece. Mesmo aqui no Rio de Janeiro, terra quente, a temperatura torna-se branda, agradabilíssima.
Não fosse o fato de a velha do “João e Maria“ ter fugido das páginas do livro, comprado um apartamento em Ipanema e passado a torturar uma criança, justo aquela para a qual o mundo oferecido era de fato a casa de chocolate.
Não fosse o fato de as gigogas terem tomado, mais uma vez, a Lagoa da Tijuca, evidenciando assim que o meio ambiente continua a ser tratado depois de ferido.
E o que mais?
O fato de Gabeira ter de fazer um esforço medonho para não perder a face ao entrar no bloco dos mascarados, no qual pulam parados os donos do poder.
E também o voto do ministro Eros Grau segundo o qual ninguém fala mais da tortura cometida nos anos de chumbo. Página virada.
Maria Rita Kehl, no Estadão, nos mostrou, com a história do suposto gatuno de bicicleta (Eduardo Pinheiro dos Santos), torturado e morto por policiais paulistas, que a violência do Estado continua sendo servida fria e com maus bofes à população. Agora não mais aos politicamente resistentes, mas sim, e como sempre, aos pobres, os física e psicologicamente resistentes. Ao aliviar o torturador de ontem, anistia-se o de hoje e, por conseguinte, o de amanhã também?
Não fossem essas nuvens, poderíamos receber a beleza do outono como o carinho mais suave feito por Deus.

Segundo

Dunga, o Brasil agora é o senhor, gostemos ou não. Sejamos ou não apaixonados por futebol. O Brasil é o senhor, do senhor, para o senhor. Não me venha com o papo de que faz parte de uma equipe, de que não podem ser esquecidos os 23 jogadores, o massagista, o roupeiro, o médico, os cartolas, a CBF; sem contar os adversários com sua força própria. O ônus do cargo é do senhor, pronto e acabou. Perdemos, a culpa é sua. Ganhamos, o talento é nosso, inato.
Apesar dessa posse temporária do Brasil, o senhor deve levar em consideração a opinião dos 199.999.975 treinadores que esse país de 200.000.000 de habitantes tem (subtraí o senhor, seu assistente e os 23 atletas). Temos diretrizes, filosofias, na realidade, um punhado de generalidades para guiar sua conduta. Muitas o senhor contrariou já na convocação. De todo jeito, sobram outras. Falo delas. Trate de segui-las de agora em diante, é a nossa chance; é a sua sorte.
Para usar uma imagem pertinente à crônica: queremos ser campeões sem que nossos atletas torturem a bola. E sem que a bola torture nossos meninos —  hoje ricos, mas que, como sabemos, vieram de baixo, às vezes de muito baixo. De certo, antes da fama, levaram cacetes por aí, o que não seria preciso, a pobreza em si é uma tortura, a pior delas (sei disso, senhor Dunga, sem nunca ter sido pobre).
Seu grupo está formado, mas na escalação dos titulares escolha os jogadores risonhos, os atrevidos, os leves e, por fim, os que tentam fugir da concentração (ainda que não consigam, pois o senhor anuncia-se como um disciplinador) — estes, usando uma segunda imagem inapropriada, roubada de Brecht, são os imprevisíveis.
Há na sua convocação uns dois ou três muito parecidos com o Dunga jogador; use-os para a conversa, para a sinuquinha na folga, nunca colocando em campo dois ao mesmo tempo, nem no desespero, quando se quer fechar a defesa. Aliás, se for preciso fechar a defesa, sugerimos a velha tática de abrir a defesa dos joões adversários. A melhor defesa... não completo a frase para não chover no molhado (imagem repetida, mas finalmente apropriada).
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