10.10.10

Para sair das sinucas de bico que a vida dá

Se seu amor tem um bafo daqueles, escreva-lhe assim: “Pedacinho de céu, o alho não é tudo na vida. Bom pra saúde, péssimo pro amor. No caso do nosso, nem lhe digo, com ele o bulbo acabou.”
O agiota pareceu um sujeito simpático quando, no dia D, você disse que estava liso, precisando de prazo maior para quitar a dívida. No segundo adiamento, o danado bateu em suas costas, deixou-o à vontade, que não se preocupasse. Como você não nasceu hoje, percebeu logo que tamanha bondade não daria em boa coisa. Como o medo é sábio! Sua reflexão de covarde é sabedoria em estado puro. Nada de descolar o dinheiro, todavia. E aí? Suicídio nem pensar. Tampouco assassinato. Não é hora de remorso, arrependimento não se troca por moeda em mercado. Então... Sr. Endividado, dispare rua afora. Tome a Dutra, quebre em Lavrinhas, suba a serra, entre em Passa Quatro. Contam que os habitantes de lá são mestres na arte do disfarce. Filho da terra teria enganado o Dops na época da repressão e virado, anos depois, homem poderoso na República. Nessa que aí está. Isso, entretanto, são outros quinhentos, e de quinhentos, na realidade, de falta de quinhentos seu inferno está cheio. Corre, bobo, corre, ou o agiota, ó, cafunga no seu cangote e baba no seu cadáver.
Nunca minta, mesmo quando a mentira puder tirá-lo de situação embaraçosa. Esqueceu o aniversário da cara-metade, não telefonou no Dia dos Pais ou no das Mães, não foi à apresentação da criança no balé, ora, quando vierem alugar seu pobre ouvido, mande na bucha: “Poxa, gente, sou um só.” Se faz sentido ou se aceitarão sua resposta, não sei, mas é a melhor desculpa disponível e não é mentira, não é mesmo. Isso me faz lembrar um amigo. Quando pintava uma cerveja não planejada depois do trabalho, todo mundo corria para avisar a esposa ou o marido por telefone, menos ele. Além de não se mexer, ainda caçoava dos outros: “A bronca é inevitável, logo, melhor levar uma só depois da diversão.”
De repente, você se encontra num ambiente decente. Almoço de prata e cristal; hábito de licor e charuto. Voz baixa como tom. Olhares discretos como norma. Música de câmara. Você sempre foi reconhecido como um sujeito que sabe quebrar formalidades. Contam de suas tiradas no tempo do colégio, no trabalho, no trânsito. Hora de fazer uso desse talento. Mas não parece ser seu dia. Sua piada sexista — ou um pouco antissemita, ou que abusa do preconceito contra portugueses e anões — é recebida com frieza para dizer o mínimo. O ambiente, impecavelmente limpo, torna-se pesado, muito pesado. Amigo, corra todos os riscos: arrote. Em salões dessa estirpe, sempre existem uma velhinha, um velhinho ou uma criança que se amarram em escatologias, quer dizer, de algumas, não exagere. Se rirem, pronto! 
Seus candidatos estão quase lá. Um pouco mais de dedicação à campanha na etapa final, e você sai vitorioso. Você, sim, claro. Pois seu voto expressa suas ideias e ideais de país, e aquele presidente, aquele senador ou aquele deputado são a personificação de tudo o que você pensa. Maravilhoso! Um único porém: numa roda de chope, passados não mais do que dois meses da eleição, um de seus amigos lhe perguntará: “Votaste em quem, mano?” Aplicaram-lhe uma rasteira. Até mesmo o voto ao cargo republicano máximo não estará mais claro em sua cabeça. Bicho, faça como minha tia: aos 95 anos de idade, não tendo nenhum dano sério em sua memória, vez ou outra escapa-lhe o nome de alguém. O que ela faz? Pergunta se a pessoa não tem um apelido, no que recebe de bandeja o nome esquecido — pois numa situação assim, o natural é responder: “Nunca tive apelidos, sempre fui Alexandre”. Como usar a tática de minha tia? Ora, encare o chato do seu amigo e pergunte-lhe se ele não tem mãe. O que acabo de dizer não tem nada a ver com a “saída” à moda de minha tia? Também quem mandou você ser um democrata festivo? Sinuca de bico é sinuca de bico, só os craques escapam de uma. Às vezes, nem eles.
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