30.7.12

Os muitos Brasis


Sergio Faraco, escritor.
Não tive uma boa noite, acordei cedo demais, antes do relógio. Gesto automático, estiquei o braço e peguei o livro de cabeceira, boa companhia para insones e madrugadores. Naquele instante, vinha lendo, pela primeira vez, os contos de Sergio Faraco, escritor gaúcho. No caso, uma edição de 2005 com seus contos completos (Editora LP&M). Do nada a tudo, num livro. Num senhor livro. Vinha lendo; agora, quando escrevo essa crônica, já o li todo. E a primeira impressão continua: um senhor livro. Faraco sabe escrever contos. Tem a precisão necessária, que se mede, desculpem o jogo de palavras, exatamente pela imprecisão do que ali, sob nossas retinas, vai acontecendo ou deixando de acontecer.
O personagem principal de Faraco é o desempregado, e seu espaço preferencial de atuação são os encontros amorosos fortuitos, nos quais é possível a um qualquer transbordar de si mesmo. Faraco é um escritor do heterossexual masculino. Principalmente dele, mas não somente dele. Algumas de suas mulheres deixam suas digitais bem na fuça do leitor atento e atuam como se fossem, sem ser, a principal personagem da história. A mulher cujo marido está à morte na capital e que promove um encontro sexual no trem com o protagonista da história é o melhor exemplo disso (“Dançar Tango em Porto Alegre”).
Jaime Alem, violonista.
Para escrever essa crônica, escolho como trilha sonora o CD de Jaime Alem, “Dez Cordas do Brasil” (Repique Brasil, 2009). Alem, que acompanha Maria Bethânia habitualmente, toca viola nas treze faixas do CD. Mergulha no mundo caipira, mundo de onde vim. Uma parte dos contos de Faraco está ambientada no interior de seu estado e é escrita em gauchês. Alem, por sua vez, busca sua música nesse campo imenso formado pelo interior de São Paulo e de Minas Gerais — resvala também no Nordeste. Os dois nos remetem, de certo modo, a um Brasil que está fora de foco, confundido às vezes com um Brasil de ontem, inexistente hoje em dia. 
Faraco e Alem não são artistas desconhecidos. Ao contrário. Mas não estão entre os que frequentam os jornais fora das colunas de literatura ou música. Quando muito (várias vezes são esquecidos), estão nos cadernos de cultura. Para encontrarmos um e outro, temos de nos esforçar, ir além do que os jornais, as rádios comerciais e os programas televisivos insistem em rotular como arte. Esse esforço quase sempre vale a pena. Como troco, ganhamos a visão de um Brasil que persiste, insiste e é múltiplo.

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