11.1.13

Outra pedra no caminho


“Nunca me esquecerei desse acontecimento/na vida de minhas retinas tão fatigadas./Nunca me esquecerei que no meio do caminho/tinha uma pedra...”


No início pedra era uma parte solta ou o todo de matéria rochosa. Ou coisa correlata; o granizo, por exemplo, ainda que este dure pouco na condição de pedra. Pedro, homem pétreo, por associação. Não faz muito tempo, chegou Drummond com o enigma da pedra no caminho. Era ainda a pedra, e não era mais a pedra. Não mais a dura expressão da natureza, mas a síntese do que, na vida, nos leva ao tropeço. Os problemas, as dúvidas; por aí.
É recente a pedra entorpecente, aquela para a qual se corre na esperança de dar um cala a boca na dor. A pedra que, ao contrário da pedra, se transforma em fumaça com um pouco de fogo nos seus fundilhos. A pedra que amealha destruição em doses alopáticas.
O poema de Drummond ganhou nova leitura. A pedra agora é essa sem vínculo direto com a natureza. A pedra química. Joãozinho, o eterno personagem das piadas, analisaria o poema dizendo que a pedra no caminho do poeta é o crack. No caminho de Drummond! A piada fincando o dedo na ilibada poesia, na pretensão filosófica do homem de Itabira, cidade cujas flores são pedras e das pedras vive. A rua invade o santuário da literatura.
(Não consegui descobrir de quem é a imagem. Tirei deste site)

Tudo muda. As palavras ganham novos sentidos. Não poderia ser diferente com a poesia, soma de palavras. A piada sopra aos nossos ouvidos uma leitura contemporânea possível ao poema-enigma de Drummond. Correta até. Presa às suas linhas.
Podemos reclamar de que subtraímos de Drummond sua magia, o seu alcance. É que os dias de hoje são assim. São? Não são? Muita calma nessa hora. É uma leitura de muitas à mesa. Aquelas enraizadas, clássicas por assim dizer; também outras que se apegam à imensidão de significados possíveis da pedra no poema. E esta, piada ou não.
Poema inclusivo, “No meio do caminho” é aberto de tal maneira que traduz o presente tanto do século XX, morto e sepultado, quanto o de agora, em fraldas, aprendendo a engatinhar. Se o mundo não se acabar, dirá alguma coisa para o XXII.
Logo, a pedra bem pode ser um tijolinho de crack. Encontrá-la nunca mais saiu das retinas do viciado, ainda que a lembrança, esta e qualquer outra, não passe, no caso dos noias, de um lampejo de uma efêmera e fantasmagórica lucidez.


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