9.6.13

Hablan Español

         Na década de 80, éramos comunistas, pero no mucho. Na realidade, alguns mais, outros menos, e nenhum metido em lutas armadas. Ficávamos no nível dos comitês de solidariedade. Na PUC, fizemos um pró-Nicarágua. Muitos latinos metidos aí, e entre eles, sim, uns exilados argentinos e chilenos com maior comprometimento político. Líamos Cardenal, o poeta e padre da Nicarágua, país do qual ouvíamos as músicas de resistência. Uma delas nos levava a dançar como só a música de um Tim Maia ou de uma Madona ousam fazer. O refrão desse verdadeiro hit era mais ou menos assim: “los oligarcas de ayer, los verdes claro de hoy”.

       Bem, daí a Borges foi um pulo. Daí aos Parras outro pulo. E tome Cortázar, Garcia  Marques, Sábato, Neruda, Inti Illimani e não sei mais quem.

          Pouco a pouco, foi-se construindo uma geografia inexistente, que definia um país que tinha início no sul do Uruguai e terminava no sul dos Estados Unidos. Tudo isso teoricamente, friso, ainda que não pareça necessário, porque, vocês sabem, ninguém se livra de pequenos rancores. Nem sempre o abraço de um argentino caiu bem num chileno, nem o desse num boliviano ou peruano. Porém, era no mundo das ideias que transitávamos, e nele, uma América só.

         Não sou dos saudosistas de plantão, no máximo sinto falta de quando não tinha barriga e o cabelo era pretinho — bem, mas isso não vem ao caso. O que interessa é que essa nostalgia me veio durante a viagem que fiz a Lima, no Peru.

          Encontrei a cidade em obras, o que aumenta o seu contraste explícito: uma cidade moderna, transitada por veículos — em especial os do transporte público — velhos; uma cidade cosmopolita, habitada por Incas ancestrais.

        Povo hospitaleiro, boa comida, trânsito caótico em ruas de poucos sinais, em suma, várias camadas do tempo num mesmo lugar. Susana Baca, cantora do país, retrata bem essa síntese. Canta seus folclores, canta também a música negra americana e ainda Milton Nascimento. Se não estou enganado, foi, como nosso Tom Zé, uma das pérolas (re)descobertas e lançadas nos Estados Unidos pelo bom líder do Talking Head.

        Minhas visitas a países de língua espanhola sempre se transformam em uma oportunidade para conhecer novos artistas, particularmente os ligados à música. No Peru, foi, graças a uma dica de meu primo Lucas, essa Baca, de voz doce e interpretação contundente. Na Argentina, conheci uma moçada nova, que anda sacudindo o velho e bom tango. O senhor Joaquín Sabina é da Espanha.

          Acho estranhíssimo que se conheça tão pouco a música dessa turma. Sabina, por exemplo, é um espetáculo moderno e antenado com o mundo em que estamos vivendo assoberbados. No Brasil, o único disco dele que encontrei nas lojas foi um gravado com Fito Paez, o argentino que o pessoal do Paralamas nos apresentou. Uma pena! Sabina transita pelo mundo de Almodóvar, artista que conhecemos tão bem, ainda que o cineasta seja mais novo que o músico. Não por acaso, uma de suas músicas é intitulada “Yo quiero ser una chica Almodóvar”. Sabina é engraçado, maldito e, como soam às vezes os hispânicos, um pouco brega — um produto com açúcares de Lobão, farinhas de Chico e baunilhas do Rei.

         Enfim, minha viagem a Lima trouxe de volta a sensação de que estamos longe daqueles que estão aqui mesmo, ao nosso lado, grudados até. Não deveria ser assim.
Postar um comentário