24.3.14

Ano escaldante

Você começa a perder o otimismo com o ano novo quando dorme, em 2013, com o termômetro pra lá de trinta graus e acorda, em 2014, com o mesmo termômetro pra lá de quarenta. Pode escrever: o clima alinhava o que virá.
Então você, mal acordou, senta-se num cantinho da casa, o único preservado da bagunça, pega o jornal — e agradece que haja jornal, ainda que fininho, sem notícias e dispensável — e finge que o lê. Isso consome um pouco do seu tempo e o distrai a tal ponto que você quase não percebe que o calor está de lascar, que o ano vai ser daqueles.
Cai em si. O Botafogo vai jogar duas partidas — uma lá nas alturas de Quito — que podem abrir ao time as portas da Libertadores. Isso é bom e, frente aos acontecimentos de 2014, um detalhe menor, cujos efeitos não mudarão em nada a vida de ninguém, a não ser deixar alegre ou triste meia dúzia de torcedores como eu. Mas, no futebol, a coisa vai pegar é em junho, na Copa. E vai pegar não só no campo. O padrão Fifa, já provado, vai ser questionado, não tenho dúvida. E vai haver protestos. Ao mesmo tempo, os que talvez fujam desses protestos contestarão o resultado do campo. Roubou-se para o Brasil, se formos campeões. Roubou-se contra o Brasil, se não formos. Os quarenta graus, com sensação de cinquenta, expressam apenas os dias passionais pelos quais temos passado.
Foto de Alexandre Brandão.

Ora, fosse só isso, o termômetro ficava ali pertinho dos trinta, dava uns pinotes, mas não enlouquecia como tem se visto. É época de eleições. Prepare-se. A mentira, o conluio mal-intencionado, as amizades oportunistas desfilarão pelas redes de televisão, pelas ondas de rádio. Ah, sim, estarão de fraque, de longo, bem penteados, no esquema (e é essa a palavra) para fazer com que a gente acredite em suas boas intenções.
No Rio de Janeiro, ou é o Pezão, ou é o Garotinho, ou é o Bispo, ou é o Lindinho. E nós, ó... nem digo. No Brasil, tia Dilma vai tentar se manter ali onde está, e o Aécio irá com tudo pra cima dela. UFC em cadeia nacional. E as redes sociais vão, como se diz por aí e não me agrada a palavra, repercutir os golpes e contragolpes a torto e a direito. Em julho, terminada a Copa, mesmo que o termômetro lá no sul despenque para dez graus, a média no Brasil se manterá nos quarenta, vinte no termômetro, outros vinte no xingatório e no blá-blá-blá.
Se o brasileiro é forte e nunca desiste, em dezembro ele espera que a coisa amanse. Já teremos perdido a euforia da vitória na Copa ou nos acostumado com a derrota; as disputas eleitorais terão chegado ao termo que têm de chegar, uns achando um bom termo, outros não, mas, jogo jogado, será a hora de se preparar para lidar com o novo governo. Ou nem tão novo assim, se Dilminha continuar no Palácio da Alvorada.
Mas tudo isso todo mundo sabe, assim como sabe que esse calor é aviso para que nos mantenhamos atentos. O que ninguém sabe, e eu sei e digo, é que no ano que vem outro verão de mesma intensidade adiantará outras conjunturas de pelejas apaixonadas. Outros cenários políticos, outras disputas esportivas, muitos outros para a mesmice de nossos dias de aprendizes da democracia.
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