11.1.16

Com Mondrian na madrugada

Sem sono, zapeei até chegar ao Arte 1. Neste canal passava um documentário sobre Mondrian, parei para vê-lo. Naquele instante contava-se que, antes da 1ª Guerra Mundial, ele fora visitar o pai adoentado na Holanda. A guerra eclodiu, e o artista teve de ficar um bom tempo longe da França, onde vivia àquela altura de sua vida. Deve ter sido a referência à enfermidade paterna o que me fez lembrar-me de meu pai, do dia de sua morte.
Em minha memória armazeno inteiro e intacto aquele dia. Na tarde anterior, recebi um telefonema dizendo que meu velho havia sido internado. Intuindo o pior, corri à rodoviária e, depois de combinar com meu cunhado e minhas irmãs de irmos de carro para o interior de Minas, peguei um ônibus com destino a Belo Horizonte. Pouco dormi durante a noite. Pensava nas muitas viagens que fizéramos juntos, papai e eu. Irresponsável, ele entregava o carro nas mãos de um garoto de quatorze anos — e dormia. No escuro, eu buscava me confortar com essas e outras recordações e me arrastava à boca de uma conclusão: a nosso modo, fomos cúmplices. Viagem com um tico de transgressão, nosso segredo.
Uma senhora, sentada na primeira fila, puxava assunto com o motorista, claramente uma estratégia para não deixá-lo dormir. Lá pelas tantas, ele lhe deu uma cantada, e ela reagiu indignada. A desavença me devolveu a meu pai, um sujeito que, apesar de ter nascido num mundo rural, fugiu ao estereótipo e não se tornou rude — rudes eram muitas pessoas de seu convívio, alguns parentes, outros amigos. O velho jamais cantaria uma mulher naqueles termos, jamais alteraria o tom da voz, como de fato nunca o vi fazer. Algumas vezes vi-o desmoronar, cair abatido, mas, mesmo aí, com serenidade.
Em Belo Horizonte, a notícia de sua morte veio nos olhos marejados de minhas irmãs, no abraço com que me receberam na plataforma. Meu cunhado e elas não tiveram uma noite boa, pois souberam da morte do velho na madrugada, talvez na mesma hora em que eu, sentado no ônibus, supunha que ele já estivesse morto. Cansados ou não, partimos para uma viagem — sempre uma viagem — de trezentos e sessenta quilômetros.
Nesse dia, do qual recordo todos os minutos, uma lacuna: não sei como foi meu encontro com minha mãe. Lembro-me do que ocorreu depois do impacto de entrar no recinto do velório: eu olhava atento o rosto de meu pai e observava sem pressa seus traços — fino no trato interpessoal, fino no desenho do rosto: um bom homem bonito. No que recupero o fio da meada, encontro minha mãe ao lado do caixão, de onde não se levantou. Quando eu e ela nos vimos a sós, já em casa, ela me disse: “Amei muito seu pai, mas não vou com ele”. E ficou por mais onze anos, uma prova de amor a ele, a nós, seus filhos, e a nossas famílias.
Fiz piada com o Ezinho Joele. Fui e voltei da rua para ver se a família do meu irmão e minha mulher haviam chegado do Rio. Aceitei o convite da Neide e do Guido, preocupados comigo, para ir à padaria fazer um lanche. Devo ter comido uma bobagem qualquer, mas era a companhia íntima de meus amigos o que me interessava, era a confiança de saber que, no meio deles, eu poderia chorar o que não havia chorado. Não chorei nem ali nem quando papai desceu à sepultura. As lágrimas vieram noutro momento de intimidade, minha com minha mulher, uns dez dias depois, quando toda a família se reuniu para o Natal. Choro curto, excesso de um homem seco.
A vida de Mondrian continuava na televisão. Um sujeito obsessivo. Seu ateliê reproduzia, nos móveis, os quadrados coloridos, os retângulos coloridos e o vazio (branco) que cobriam suas telas. Era rigoroso, gostava de jazz; vivia só, saía para dançar de par com alguma mulher tomada emprestada de um de seus amigos. Idoso, Mondrian mudou-se para os Estados Unidos, país no qual, finalmente, obteve reconhecimento e dinheiro. Ali sua pintura mudou, mas seus traços continuaram fiéis a figuras geométricas básicas.

Mondrian

Se meu pai fosse artista, não seria Mondrian. Tampouco Picasso ou Dali ou Schiller. Praticaria um realismo sóbrio e acadêmico, pintando seu mundo rural, seus bois, animais cujas qualidades ele reconhecia de longe, num primeiro e breve olhar. Nisso era uma autoridade. Disso não soube tirar proveito financeiro. Para ele, não houve um Estados Unidos.
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