11.1.16

Quem eu sou

Eu sou o capitalista que chora pela fome das crianças de Mali.
Eu sou a mulher que fuma charutos às escondidas da sogra.
Eu sou a sogra cega.
Eu sou o ciclista com ganas de atropelar a sombra dos automóveis.
Eu sou o que roubou a herança para comprar uma partitura original de Debussy.
Eu sou a bicha que cuida da segurança da vila.
Eu sou o motorista do carro que tem simpatia pela contramão.
Eu sou o paulistano para quem a cidade não vai além da minha rua.
Eu sou a mulher que dá ordens na cama.
Eu sou a freira cujas crenças nunca revela.
Eu sou o matador profissional de pulgas.
Eu sou o sambista de uma nota só.
Eu sou o desgraçado de bem com a vida.
Eu sou a norueguesa que planeja casar-se com uma guria guatemalteca.
Eu sou o vigarista notório que ainda tem medo do pai.
Eu sou o negro de alma branda.
Eu sou a jogadora de pôquer que aposta e entrega as calças.
Eu sou o poliglota que comete os mesmos erros em todos os idiomas.
Eu sou o poeta que prefere pudins a sonetos.
Eu sou o confeiteiro de endechas.
Eu sou o valentão que só tem mais um dente para perder em briga de rua.
Eu sou a mulher cuja beleza é meu silêncio.
Eu sou aquela que visitou o estuprador faminto.
Eu sou o velho sem idade.
Eu sou a santa que procura se manter incógnita.
Eu sou o seresteiro fora do tom.
Eu sou você que não se conhece.
Eu sou o garotão do Arpoador vivendo no Alaska.
Eu sou o policial que não brincou de mocinho e bandido.
Eu sou o Hércules domesticado.
Eu sou a amante do homem puro.
Eu sou o que em vão abastece de medo o corrupto.
Eu sou o crupiê de roleta russa.
Eu sou a mosca que vomitou na sua sopa.
Eu sou o rei nu, depois de usar o vaso sanitário e antes de se limpar.
Eu sou a rainha um pouco lesada de tanto pó.
Eu sou o melhor aluno do professor cansado.
Eu sou a professora do aluno castrado.
Eu sou o riso.
Eu sou a lágrima.
Eu sou um deus nos acuda sem dinheiro. Passo bem, apesar de tudo.
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