5.9.16

Um minuto de fúria

Não é por querer me gabar não, mas sou bastante ignorante. Quando busco alguma boia para me salvar não só do orgulho de ser ignorante, mas também do fato em si de sê-lo, culpo a educação formal. Sou cria da ditadura. Não é pouca coisa, mas, no duro da cebola, das continências e incontinências da vida, não dá para ficar nessa. A educação não ajudou, mas, ora, o esforço próprio é tudo. Portanto, crítico dos meus ais, afirmo que minha ignorância tem um quê de má-formação e outro de preguiça.

Dito isso, vamos ao corolário de tamanho teorema nudes. Não posso ser considerado intelectual, apesar de brotar por aí um monte de intelectuais apedeutas, alguns mais que isso, burros. Controvérsias bricabraques à parte, passo longe de ser intelectual porque, apesar de minhas leituras e de algum conhecimento aqui e ali, não manejo bem as ferramentas do embate de ideias. Não fossem a prosa e a poesia, meu idílio e meu exílio, eu seria apenas o cara pacato que tem a omoplata deslocada.

Escritor não é intelectual? Eu não sou, bebé. Cheguei à literatura para nocautear meu silêncio. Não sei conversar, eis a verdade. Se fosse bom de conversa, não seria um mau prosador. Cheguei aí também para fugir de outra característica, a covardia. Sou covarde até. Um sujeito assim, ruim de conversa, nem feio nem bonito, covarde e bem desmemoriado não pode ir longe. E eu sempre quis ir longe. Não que almejasse grandes viagens, mas bastava perder-me em mim.

Escrevo para ir longe, para, sem deixar ao relento, desvelar um nada dos meus segredos dos quais não tomo consciência. Fiz pouca terapia, em momentos de sofrimento tópico, como foi o caso de quando tive de parar de beber. Foram vinte anos sem uma gotinha de nada. Não foi fácil, pois a bebida concorria fortemente com a escrita. (Dois desterros: um tinto, outro seco.) A escrita ganhou pela desistência forçada da outra. Acontece, a gente vê até nos esportes, um ganha porque o outro não entrou em campo. É uma vitória esculhambada, mas uma vitória.

Cobro muito de mim, estejam certos. Toda manhã, dou-me uma estocada, quero ouvir minha opinião sensata sobre a beleza do texto de Julian Barnes que leio agora, “Altos voos e quedas livres” (Rocco). Quero saber qual diálogo posso propor aos contos simples e marcantes do Luiz Roberto Guedes em “Miss Tattoo, uma quase novela” (Jovens Escribas). Mas nada salta à luz da razão. E eu, esse ignorante, tomo a faca e furo o ar na ilusão de ver deus cair morto aos meus pés.
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