Mostrando postagens com marcador Deus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Deus. Mostrar todas as postagens

1.1.22

Diálogos atuais

 I

— Entre.

— A porta está trancada.

— Então não deveria ter saído.

 

II

— Isso, respire fundo. Agora olhe para o horizonte.

— Horizonte?

— Sim.

— Ele não está ali.

— Melhor fechar os olhos.

 

III

— Quanto custa?

— Uma vida.

— Embrulhe para presente.

— Prefere pagar como?

— Com os pulsos.

 

IV

— Reservamos para o senhor a suíte presidencial.

— O que há de especial nela?

— De lá se veem todos os problemas do país.

— É preciso resolvê-los?

— Não.

— Ótimo.

 

V

— Em que ano estamos?

— Acabamos de chegar a 2022.

— Há 2022 anos mandávamos o menino.

— Passou rápido, não foi?

— Demais.

— Quer dar uma olhada em como andam as coisas por lá?

— Eu sei como andam as coisas. Pode apertar o botão vermelho.

7.10.21

Cheio de vontade

 Vontade de gritar da janela: “Corre, Maria, seu amor está logo ali na esquina.” Vontade de andar na rua rindo da rinha de calos nos pés daquela gente metida em sapatos feios, desconfortáveis e caros. Vontade de dançar com a Zilma. Vontade de mandar meus boletos a quem continua aplaudindo o dito-cujo. Vontade de extrair a raiz oval do infinito. Vontade de comer o sanduíche do Bolinha. Vontade de cantar durante o curto silêncio do tagarela. Vontade de virar do avesso o vinil do Vinícius. Vontade de ir a Marte procurar o Furioso, meu cavalinho do Forte Apache. Vontade de apagar a luz da escuridão. Vontade de abraçar a Sá Inês. Vontade de contar até três, começando de um milhão. Vontade de encontrar meu pai resmungando daquele seu jeito irônico, mas não tanto: “Ah, gente, deixa um pouquinho de mim pra mim”. Vontade de devolver a patativa engaiolada ao ovo. Vontade de dizer à Capetinha que, sim, ela pode ficar com a camiseta que ficou com ela. Vontade de tomar um chope com Deus. Vontade de papar, na biloca, as biloscas de meus patos. Vontade de acordar no meio da noite com minha avó dizendo que tudo isso, ó, não é nada. Vontade de ver os olhinhos da Viveca sumirem quando ela ri da vida. Vontade de voltar a ser um leão manco; manso, não. Vontade de cobrar o Romeu e Julieta que a Mônica não pagou. Vontade de ensinar ao menininho bonito do Afeganistão a tocar cuíca. Vontade de confessar ao Reinaldo, meu professor de Educação Artística e de Inglês, que ele foi importante pacas. Vontade de roubar ambrosia da despensa de Zeus. Vontade de ter esperança. Vontade de despertar no Brasil, almoçar em Moçambique e dormir de conchinha com a Nastassja Kinski lá na Cochinchina. Vontade de sugerir à Célia refogar o mexidinho com cebola, eu agora gosto. Vontade de montar o cavalo que Calígula nomeou cônsul da Bitínia. Vontade de declarar meu amor a quem está passando bem agora na rua detrás da rodoviária de Caiapônia. Vontade de levar a estátua do Drummond para tricotar com a da Clarice. Vontade de pedir à dona Neisa permissão para ir à instalação sanitária. Vontade de ser um personagem de Dostoiévski, mesmo que tenha de matar uma velhinha ou disputar a amante com o pai. Vontade de falar ao coração para não se assustar, bater tranquilo, é só a Elaine que desce o Beco dos Aflitos. Vontade de chutar a lua lá onde dorme a coruja na galáxia de Andrômeda. Vontade de ouvir o pito do Zé Porteiro. Vontade de, em vez de subir, descer pela mangueira até o ponto em que sua raiz banqueteia no inferno. Vontade de não perdoar. Vontade de proteger a Maria Tomate. Vontade de, esquecendo as outras vontades, ganhar um sorriso de meus filhos quando eram bebês.





___________________________

(1) Para os que receberam meu e-mail com o link da crônica, peço vênias pelo erro de português que seguiu na mensagem. Quando o percebi, tratei de corrigi-lo, logo alguns já receberam a nota sem o escorregão. 




5.9.16

Um minuto de fúria

Não é por querer me gabar não, mas sou bastante ignorante. Quando busco alguma boia para me salvar não só do orgulho de ser ignorante, mas também do fato em si de sê-lo, culpo a educação formal. Sou cria da ditadura. Não é pouca coisa, mas, no duro da cebola, das continências e incontinências da vida, não dá para ficar nessa. A educação não ajudou, mas, ora, o esforço próprio é tudo. Portanto, crítico dos meus ais, afirmo que minha ignorância tem um quê de má-formação e outro de preguiça.

Dito isso, vamos ao corolário de tamanho teorema nudes. Não posso ser considerado intelectual, apesar de brotar por aí um monte de intelectuais apedeutas, alguns mais que isso, burros. Controvérsias bricabraques à parte, passo longe de ser intelectual porque, apesar de minhas leituras e de algum conhecimento aqui e ali, não manejo bem as ferramentas do embate de ideias. Não fossem a prosa e a poesia, meu idílio e meu exílio, eu seria apenas o cara pacato que tem a omoplata deslocada.

Escritor não é intelectual? Eu não sou, bebé. Cheguei à literatura para nocautear meu silêncio. Não sei conversar, eis a verdade. Se fosse bom de conversa, não seria um mau prosador. Cheguei aí também para fugir de outra característica, a covardia. Sou covarde até. Um sujeito assim, ruim de conversa, nem feio nem bonito, covarde e bem desmemoriado não pode ir longe. E eu sempre quis ir longe. Não que almejasse grandes viagens, mas bastava perder-me em mim.

Escrevo para ir longe, para, sem deixar ao relento, desvelar um nada dos meus segredos dos quais não tomo consciência. Fiz pouca terapia, em momentos de sofrimento tópico, como foi o caso de quando tive de parar de beber. Foram vinte anos sem uma gotinha de nada. Não foi fácil, pois a bebida concorria fortemente com a escrita. (Dois desterros: um tinto, outro seco.) A escrita ganhou pela desistência forçada da outra. Acontece, a gente vê até nos esportes, um ganha porque o outro não entrou em campo. É uma vitória esculhambada, mas uma vitória.

Cobro muito de mim, estejam certos. Toda manhã, dou-me uma estocada, quero ouvir minha opinião sensata sobre a beleza do texto de Julian Barnes que leio agora, “Altos voos e quedas livres” (Rocco). Quero saber qual diálogo posso propor aos contos simples e marcantes do Luiz Roberto Guedes em “Miss Tattoo, uma quase novela” (Jovens Escribas). Mas nada salta à luz da razão. E eu, esse ignorante, tomo a faca e furo o ar na ilusão de ver deus cair morto aos meus pés.

10.2.16

Crônica de uma palavra só

Gostaria de escrever uma palavra, uma única, que, isolada, se bastasse e fosse a crônica de hoje. Sei bem que não é tarefa fácil, pois qual palavra daria conta de, sozinha na briga — quer dizer, na crônica —, passar um recado amplo, quiçá uma mensagem sobre a qual se pudesse debruçar, refletir, ou um argumento capaz de estimular alguma discussão?

Aposto que alguns defendam a ideia de que a palavra Deus contém todas as demais e, sendo assim, se eu a escrevesse, pronto, teria escrito tudo. Verdade ou não, a palavra que me vem à cabeça é chinfrim e nomeia algo aparentemente inexistente. Quer dizer, a coisa existe, mas quase não se vê — se eu a vejo só de quando em quando é porque ela existe em estado de pouco, último passo antes de ser dada como exaurida.

Proponho um exercício: escolher uma palavra e pensar nela como uma crônica. Que tal hemisfério? Você abre a crônica e está lá a metade de uma esfera, palavra ligada à ideia de divisão da terra entre sul e norte, no corte estabelecido pela linha imaginária do Equador. Palavra que também tem uso na anatomia, nomeando os lados direito e esquerdo do cérebro. Ela sozinha, ocupando com pouco estardalhaço parte mínima do hemisfério norte da página em branco, poderia levar a várias suposições sem afirmar, de fato e de concreto, nada. O mesmo ocorreria caso a palavra fosse despertador, amplexo, ventríloquo, indumentária, fosfato, logopedia. 

Estou dizendo que uma palavra-andorinha só não faz uma crônica-verão? Sim e não. Poucas fariam. A que tenho em mente, sem ombrear com Deus, talvez pudesse ser uma delas. Sua força, desimportante que a palavra é, está no fato de carregar uma mensagem. Qual? De que, apesar de seus méritos, o passado chega esfarelado ao presente. Com isso, creio, deveríamos enterrar o sentimento nostálgico, tratando de, a partir do conhecimento profundo do passado, pagar nossas dívidas históricas — o acúmulo de injustiças cometidas ao longo do tempo. Olha aí a escravidão, ainda uma ferida aberta. Olha aí o maltrato ao meio ambiente, outra ferida aberta. 

Exagerei, sim, exagerei muito. A palavra, desconhecida de muita gente, não teria repercussão tão forte. Por um lado, como já disse, a coisa que ela nomeia circula em ambientes cada vez mais restritos e, por outro, graças aos regionalismos, aqui se dá um nome, ali se dá outro. Minha palavrinha, aceito, só faria sentido para mim. Logo, o fato de eu ter abortado a crônica de uma palavra só mostra que tomei com louvor uma lição do ofício de cronista, a de não falar apenas com meus botões ou para os meus botões. Mamãe, orgulhe-se, sou macaco velho, mas ainda aprendo.

Chego ao ponto em que preciso decidir entre deixar a conversa como está, sem pé nem cabeça, ou, enfim, dizer a palavra que quase desfruta de seus quinze segundos de estrelato, numa crônica pretensiosa e fadada ao fracasso. Dizê-la e sair de cena? 

Imagino que o leitor esteja aí — se ainda está — balançando a cabeça. Em alguns o gesto seria um pedido para que acabe logo essa droga, que já não lhe interessa saber de palavra alguma, nem isolada nem reunida. Nos outros, os mais suscetíveis, uma sinalização de que estariam dispostos a conhecer o que custo a anunciar para depois julgar minhas intenções. 

Como os últimos parecem mais amistosos, sussurro-lhes a palavra: gominha.