12.12.16

Os porcos

Apesar de o calendário chinês dizer que 2016 é o ano do macaco, no Brasil estamos quiçá na era do porco. O campeão da primeira divisão do futebol é o Palmeiras, cujo mascote é o porco. Um dos fiéis amigos do homem que ocupa o Palácio do Planalto, o ex-ministro que tentou impor-se a outro ex-ministro e com isso garantir o sucesso de um negócio privado, era chamado pelo Renato Russo, quando ambos eram adolescentes, de porco. E porco também foi como Fidel Castro se referiu a Carlos Lacerda, na época do golpe de 1964, conforme texto compartilhado numa rede social pelo historiador Carlos Fico.

O porco virou mascote do Palmeiras depois de ter sido, durante anos, a forma jocosa com que os adversários destratavam o time. Ou seja, o Palmeiras construiu um castelo com as pedras atiradas contra ele e fez do porco seu símbolo, desenhando-o não como um bicho bonachão e lento, fácil de ser vencido, mas sim como um verdadeiro super-herói, de semblante atlético e guerreiro. Jogada de marketing ou não, o fato é que deu certo, a torcida se reconhece no porco, e o Palmeiras, que andou pela segunda divisão, tornou-se o campeão de 2016, maldito ano estranho, inclusive para o futebol, que termina a temporada chorando a tragédia sofrida pela Chapecoense.

Em torno de Carlos Lacerda, o porco de Fidel, há polêmica de sobra. Governador obreiro (dele são o Aterro e a adutora do Guandu), político golpista (além de protagonista em 1964, havia tentado, anos antes, impedir a posse de Juscelino), administrador autoritário (removeu, na força bruta, várias favelas da zona Sul), foi ainda figura marcante no suicídio de Vargas. Enfim, um sujeito, feito o próprio Fidel Castro, complexo. Perto dele, o não amigo de Renato Russo, agarrado a escândalos desde a época dos anões do congresso, não passa de um porquinho-da-índia, o roedor que não é nem porco nem da Índia e que, mesmo sendo fofo a ponto de Manuel Bandeira declarar que sua primeira namorada havia sido um deles, rói até os alicerces da casa, caso fique solto e sozinho.

Quando penso no porco, porco, lembro-me dos Natais da minha infância. Neles, a leitoa era a peça de resistência, o mais esperado dos pratos. Pois bem, os fornos residenciais não davam conta de assá-la, então recorria-se às padarias, por sua vez com capacidade limitada para atender a demanda. O plano B consistia em levar a leitoa ao Bidu, no restaurante que ficava na zona, lugar que, de repente, deixava de ser não franqueado a senhores casados e pais de família para se transformar na salvação da festa cristã. Quanta senhora de respeito, em alto e bom som, ordenava ao marido que fosse até a zona e pedisse ao Bidu que caprichasse. E os pais, cumpridores de sua tarefa, aumentavam um ponto ao recado: "Bidu, capricha... Mas não tenha pressa”. Os Natais eram festas alegres graças aos porcos, ao Bidu e às putas, que muitos pais só apreciavam com os olhos e outros, com o corpo todo.

Wagner Tiso, Pink Floyd, Hermeto Pascoal fizeram músicas pensando nos porcos. Tiso, em “A morte do porco”, fez uma melodia triste, como é a própria morte desse animal que não se cala diante do abate. “Pigs”, do conjunto inglês, levanta-se contra os homens-porcos, ricos e poderosos, que, ao contrário das aves de Gonçalves Dias, aqui grunhem como grunhem lá. Já Pascoal sapeca uma “Porco na festa” e nela estribilha: “o mocotó tá duro pra danar/vou pedir de novo pra cozinhar”. Os porcos estão na literatura (“Os três porquinhos” e “Porcos com asas”), no cinema (“Montenegro ou porcos e pérolas” e “Babe, o porquinho atrapalhado”). O cofre da poupança miúda tem formato de porquinho. O artista belga, Win Delvoye, tem causado escândalo ao expor porcos tatuados cujas peles são vendidas a preços exorbitantes para grifes famosas. Não estranharia se certos amantes chamassem uns aos outros de porcos.

Porco é um bicho só para muitas coisas.
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