12.6.17

Essas palavras...

... um tanto quanto clichês

Naqueles dias eu matava grito a perros e dormia de olhos deitados e corpo fechado. Sopesava cá com meus bordões jobinianos: o brasileiro não é para princípios claudicantes. Tentado a me distrair, assoviava tocatas e afastava-me da filosofia esbeiçando o pensamento em frase desfeita, por exemplo, uma que assim: não amo tudo que tenho, por sorte não tenho nada. Ai, ai, a caixinha é um futebol de surpresas.

Diabo velho, íntimo da cruz, fazia fé de que o trabalho havia sido criado pelo desleixo de Deus e que a vaca profana nascera com o brejo pra lua, certezas essas que me transformaram num descrente prontinho, prontinho para, não podendo mais, mandar tudo às favas e às fulvas paridas pela cor mais quente.

Voltando àquela sequência de exceções regradas - os fatos, nada mais que eles -, os tropeços dos comandantes foram tantos, mas tantos, que a lamparina do espírito desinstruiu-se de vez e aspergiu escuridão para tudo quanto é lado, a ponto de uma só andorinha obrar e voar pro verão. 

... irônicas

— Moço, onde encontro explicação para a escravidão que não acaba, a corrupção que só faz crescer, a violência arraigada na gente?
— Lá no Grito do Ipiranga!

... marítimas

Nem todo vento venta como deve ventar. Quem inventa inverna; quem inverna inveja. O resto é naufrágio. 

... de morte e de vida

Morri três vezes: de pinote, amor e preguiça. Sempre voltei de costas pelo Aqueronte e de peito pelo Estige e, num caso e no outro, cruzei o caminho de Caronte, a quem duas moedas e um silêncio eu devia e ainda devo, e por ele nunca fui visto. A sorte nadou comigo, por isso nasci três vezes, mas aí já não me lembro como.

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