30.7.25

Um amador da literatura - resenha de Nilma Lacerda

 

Duas novelas de Alexandre Brandão revelam a leveza, o humor e a densidade de um escritor amador — no melhor sentido barthesiano do termo (1)

Em 1995, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, uma exposição apresentou ao público intrigantes obras visuais de um grande pensador da literatura. Roland Barthes, artista amador, com curadoria de Silviano Santiago, não apenas surpreendia com sua produção plástica inesperada e bela, como também instigava reflexões sobre o conceito de artista amador. Diz Barthes:

O amador não é obrigatoriamente definido por um saber menor ou uma técnica imperfeita […], mas, sim, por isto: ele é o que não mostra, o que não se faz ouvir. […] O amador procura produzir apenas o seu próprio gozo (mas nada proíbe que este, sem que ele o saiba, venha a ser nosso por acréscimo) […]

Alexandre Brandão é um amador da literatura — no sentido mais nobre do termo. Pratica com afinco o ofício de narrar: escreve contos, poesia, novelas e crônicas, além de funcionar como uma espécie de embaixador da literatura alheia, divulgando o trabalho de colegas em encontros e conversas. De sobrenome generoso, Brandão constrói uma obra sólida, em produção constante, e compreende que a vida literária só existe em regime de troca — como bem apontou Antonio Candido. Tudo isso longe dos holofotes, que hoje brilham mais por engano do que por merecimento.

Mineiro do interior que desemboca no Rio — como tantos —, Brandão é um autor ao qual convém prestar atenção. Seu mais recente livro, aí onde não cabe, reúne duas novelas: zerinho ou um e o anjo ouve os noturnos. Seguindo os passos de grandes cronistas do Rio de maravilhas e mazelas, o autor captura tipos humanos com a leveza de quem trafega entre elegância e marginalidade.

A primeira novela, zerinho ou um, vencedora do prêmio Flipoços/Kindle para escritores independentes em 2022, atualiza O príncipe e o mendigo de Twain no Rio contemporâneo. O narrador, a um só tempo irônico e compassivo, acompanha as vidas entrelaçadas de Blasco, bilionário por acaso, e Dico, excêntrico sonhador. Segundo Andréa Bieri, há ali um convite a um pacto fáustico. O jogo de trocas identitárias se dá em uma narrativa onde as metamorfoses ocorrem com naturalidade, beirando o onírico.

Nesse terreno em que a realidade é porosa, personagens circulam como alegorias vivas. Delcídio, amigo de Blasco nos tempos de escassez, transforma-se literalmente em cão fiel — com direito a coleira e pelos. Em tom de blague, o narrador revela o que, nas ruas da cidade, parece pitoresco, mas é profundamente humano: a fé nos dados viciados da sorte, a ilusão da liberdade como permanência.

Caminhar pela cidade é, para Dico, estratégia contra o tédio e a solidão. Ele busca um cão, um vínculo. Percebe, então, os sinais da vida urbana:

Captava os sinais que reverberavam na cidade: o porteiro vendo televisão em seu posto de trabalho, a ratazana correndo de um saco de lixo a outro; a mulher, ao passar por ele, dizendo ao celular: “Agora é tarde, não dá mais”; e ainda o homem, debruçado à janela, fumando.

É uma cidade de flashes e ruídos, de fragmentos sem nexo — à maneira do mundo drummondiano evocado nos versos da orelha do livro: “Meu bem, o mundo é fechado/ se não for antes vazio”. Mas também há espaço para Leminski: “Não discuto/ com o destino/ o que pintar/ eu assino”. Blasco e Dico assinam o que a vida lhes oferece, seguindo em cena — ainda que troquem de papel.

Blasco saiu à rua. Caminhou pela calçada maltratada pelo prefeito relapso. Esbarrou na bicicleta amarrada ao poste em frente à casa 408. Pulou o buraco aberto na calçada pela raiz de uma árvore.

A cidade — feita de tropeços, desvios e surpresas — é também o cenário da segunda novela, o anjo ouve os noturnos. Clara, a protagonista, lida com a morte do pai. Ao organizar seus pertences, encontra uma foto enigmática, que a conduz por um labirinto de descobertas. A imagem que ela tinha do pai — homem silencioso, apreciador dos Noturnos de Chopin — desmancha-se diante de revelações inesperadas.

Mostrei-lhe a foto de meu pai. Você é filha do Anjo? Do Anjo – me espantei? […] desconversou. Insisti. Ele disse, em tom pouco convincente, que o apelido tinha a ver com Chopin. Fernando gostava de Chopin, que produzia a música dos anjos.

Clara é lançada a uma investigação que, embora permeada por sinais e deslocamentos, não busca apenas respostas sobre o pai. Ela tateia o próprio mundo — seus limites, fragilidades e possibilidades. Em Cantagalo, no final da narrativa, o canto do galo ecoa como prenúncio de manhãs por vir.

Com estrutura de romance policial que deixa pontas soltas, o anjo ouve os noturnos joga com o gênero. Os títulos dos capítulos remetem mais à crônica do que à linearidade narrativa. Os grafismos de Ricardo Tamm, presentes desde a capa até as páginas internas, dialogam com esse caráter fragmentário e lúdico da obra: linhas emaranhadas, setas, asas interrompidas, giletes partidas, braços estendidos para o vazio.

aí onde não cabe habita justamente as frestas do real. São duas novelas que revêm papéis e lugares urbanos, apontando perdas como ponto de partida. Um mundo de minúsculas, de frases em curso de sentença. Nada começa — tudo continua. As identidades se esgarçam para abrir espaço ao inédito. A leveza, o humor, o deslocamento: eis os instrumentos de Brandão, que, como suas personagens, segue caminhando, sem certezas.

Como Barthes sugeriu, o amador escreve para o próprio prazer. Mas, não raro, esse prazer extravasa — e nos atinge. É o que faz Alexandre Brandão, em silêncio, à margem, entre letras que desenham um mundo por vir.


(1) Resenha publicada no site do Rascunho, em 30 de julho de 2025. 

 

26.7.25

Anedotas literárias

Soube não faz muito tempo de uma história ocorrida com dois baitas escritores. Vargas Llosa, ainda jovem, foi entrevistar Borges, seu ídolo, em Buenos Aires. O autor de “O Aleph” vivia num apartamento pequeno e não muito bem conservado. O entrevistador, antes dos assuntos literários – senão em vez deles –, começou a fazer perguntas sobre o apartamento, talvez preocupado, até mesmo desapontado, afinal de contas estava diante de um gigante. Quando o escritor peruano foi embora, Borges perguntou se teria sido um corretor de imóvel que o visitara.


Imagem gerada por IA

Um caso desses vai ganhando demãos de tinta ao passar de uma pessoa a outra. Borges pode ter feito a pilhéria da visita para algum amigo, que tratou de passar a outro já com uma camadinha maior de ironia. O fato e o chiste teriam se perdido caso Llosa não se tornasse também um gigante. Quer dizer, na literatura, imenso; na política, não muito distante do que foi o próprio Borges, um fiasco.

Escutei esse caso num trecho de uma palestra que Ricardo Piglia, outro escritor argentino, fez não sei nem onde nem por qual razão. Seja como for, a “vítima” do disse me disse não raro guarda mágoas. Assim, suponho, o soco que Llosa deu em Gabo – por ciúme, já que o colombiano, um grande amigo até então, esticava os olhos para a sua esposa – pode ter tido a força adicional de uma vingança contra Borges.

No Brasil, onde não falta pugilismo literário, há uma historinha com cheiro de invenção e bem conhecida, cujos personagens são diferentes, conforme a versão. Da primeira vez que a ouvi, eram Antonio Maria, cronista e letrista, e Vinícius de Morais. Antonio Maria contou a Vinícius que, na ponte aérea entre São Paulo e Rio, uma moça o confundiu com ele. O ainda embaixador – Antonio Maria faleceu em 1964 e Vinícius perdeu o posto em 1969, na ditadura – ficou curioso e disparou um “e aí?, e aí?, e aí?”. Aí, disse-lhe Maria, ele deu corda ao papo, pediu um uísque, e a conversa engatou. Desceram no Santos Dumont, alojaram-se no restaurante, comeram alguma coisa e tomaram mais uma bebidinha. “E aí?, e aí?” Aí, continuou o letrista de “Manhã de carnaval”, foram para um hotel. “E aí?, e aí?” “Aí, poetinha, você broxou.”

Vinícius, que se casaria nove vezes – salvo engano meu ou dele – não parece ter se importado com isso. Fosse Ziraldo, a coisa fervia, pois o incansável cartunista, escritor e jornalista nunca admitiu um fracasso sexual. Como o autor de “Flicts” ostentava uma senhora coleção de coletes, não duvido dele.

Embora transite entre escritores desde 1987, não tenho grandes histórias, embora uma ou outra tenham lá sua graça. Quando organizamos o grupo Estilingues – eu e seis amigas, depois de recusados na oficina literária que frequentávamos, pois estávamos, segundo a direção, adiantados e atrapalharíamos os novatos, passamos a nos encontrar em casa, vez ou outra contratando uma pessoa para nos orientar –, resolvemos consultar o Sérgio Sant’Anna sobre a possibilidade de nos acompanhar por uns tempos. Fui encarregado de fazer o contato. Liguei para ele e, logo depois de ouvir sua voz, mandei um “a gente somos um grupo”. Educadamente, recusou o convite. Eu faria o mesmo. Ou não? Sei lá.

Me encontrei certa vez com o mesmo Sant’Anna num lançamento, e ele estava apreensivo, pois pela primeira vez ganhara um bom dinheiro com a literatura. Como a grana estava em sua conta-corrente, seu medo era que um hacker a roubasse. Tentei tranquilizá-lo, afinal não era tanto dinheiro assim, e os golpes eram mais no atacado que no varejo. Por falar em roubo cibernético, depois de um tempo sem nos vermos, eu, Horácio – hoje um retrato na parede do meu afeto – e Nelson marcamos um chope no Bar Luiz, tradicional restaurante alemão que não suportou a crise mais recente e foi fechado depois de funcionar por cento e trinta e cinco anos. Lá pelas tantas, Horácio – além de escritor e artista plástico, um pioneiro da computação no Brasil – sugeriu que roubássemos um banco. Seria, como temia Sant’Anna, uma ação limpa, uma invasão eletrônica, um assalto cibernético. Não, não fizemos isso, porém, como defende um meme já clássico, se feito, estaríamos apenas reagindo já que foram os bancos que começaram.

Nesse mesmo Bar Luiz, estávamos eu e um grupo do trabalho, amigos sem nenhuma ligação direta com a literatura, quando um homenzarrão entrou pelo bar lotado e, vendo que tínhamos uma cadeira vazia, pediu para se sentar conosco. Eu sabia quem era, os demais, não. Ele então contou que havia acabado de sair de uma reunião do PDT (cuja sede era a uma quadra dali) e precisava respirar e tomar um chope com Steinhaeger. Deu um gole, deu outro, mais um e, copos quase vazios, dirigiu-se a nós perguntando se o havíamos lido. Permaneci quieto, enquanto os outros se mexiam nas cadeiras e olhavam o vazio. Contrariado, o penetra balançou a cabeça de um lado para o outro, deu mais um gole e falou sem modéstia que era preciso que o lêssemos, seu nome era Fausto Wolff. Levantou-se e foi embora. Meus colegas me olharam um pouco atônitos, e eu afirmei que, apesar daquela mendicância messiânica, sim, deveríamos ler o escritor gaúcho.

14.7.25

Diagnóstico preciso

Leio que uma atriz global publicou em rede social fotos de seu rosto avermelhado e confessou sofrer de rosácea, doença dermatológica que causa esse tipo de marca principalmente na maçã do rosto, mas que, em graus mais graves, pode atingir os olhos. Não é, de todo modo, nada muito sério, e o remédio sugerido é a velha e boa ivermectina, nesse caso indicada pela ciência em sua forma mais rigorosa possível, sem arroubos de presidentes boquirrotos e perigosos.

A rosácea atinge principalmente brancos, mais mulheres que homens e pode piorar por conta de certos alimentos – picantes, queijos, bebidas alcóolicas – e até por exercícios aeróbicos. No entanto, é o estresse que a faz aflorar.

Sem mostrar meu rosto, mesmo porque a coisa está sob controle por aqui, confesso que também sofro desse trem. Nenhum médico me disse para evitar os alimentos e exercícios físicos, de modo que como meu queijinho – ai de quem me proibir de comê-lo – curado da vida, dou minhas caminhadas suadas da vida, tomo minha cervejinha gelada da vida. O que não controlo é o tal do estresse.

A primeira vez que me senti incomodado com meu rostinho que nunca teve espinhas – ou teve muito poucas – aparecer manchado me fez correr para a nossa antiga dermatologista. Conhecedora de toda a família, o início da consulta foi um bate-papo sobre os filhos, como eles estão, se a pele de um melhorou, se a do outro continua aquela beleza. Enfim, papinho camarada. Então ela olhou para mim, escaneou meu rosto e, de longe, sem fazer um exame apurado, disse assim na lata: “Alexandre, você está precisando ganhar mais dinheiro”.

Nunca vi médica tão sábia.

Já com a lupa na mão e depois de investigar não só a danada da mancha, mas também o resto do rosto, o pescoço, a cabeça, o peito, ela deu o diagnóstico: “Isso no rosto é rosácea, no mais nenhum sinal preocupante”. Receitou a pomada à base da droga que esteve no centro político da covid e pediu para eu voltar daí a um tempo.

Voltei.

Estava melhor.

Só não resolvi o problema de fundo: a grana. Contra isso, a médica não pôde nem pode fazer nada. Me consolo pensando que talvez eu não seja o único, vai que a atriz global também esteja no perrengue.