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10.11.20

O que fiz das minhas leituras de confinamento: I

 Enquanto passava os olhos na lista dos livros que li de março até agora, período de total confinamento, a lembrança e o esquecimento começaram a briguinha corriqueira. Resignado súdito do esquecimento, desconfio de quando a lembrança levanta a voz cheia de si e, então, para evitar virar joguete na mão dos dois, me concentrei na lista pensando no que fiz de todos aqueles livros. E é disso que falo nesta e nas próximas duas crônicas.

O espanto ao ler “Pinóquio”, de Carlos Collodi (Cosacnaify), veio do equívoco de reduzir a história do boneco ao crescimento de seu nariz depois de contar uma mentira. A leitura atual mostrou que essa é a menor questão, Pinóquio nem passa por aquela situação tantas vezes. A história, pra lá de violenta, expressa, na verdade, a forma como somos modelados para servir a um sistema hostil, e Pinóquio só ganha corpo humano quando aceita ser parte daquela engrenagem. Esse entendimento do clássico italiano foi parar em uma personagem de um conto que escrevi; rascunhei, melhor dizendo. É uma jovem que vai viver na rua e, depois que seu pai morre e os irmãos somem no mundo, volta a viver com a mãe. Pinóquio é o que ela não quer ser. E não será.

Num outro conto, o narrador vê na frase “se é para ser, é, e não tem qual é”, pensada pelo menino protagonista, um Hamlet deslocado do Reino Unido para a Maré. Penso que o narrador se referia a “ser ou não ser, eis a questão”, e não seria por um desvario desses que eu enfrentaria a peça de Shakespeare. Decidi por sua leitura quando, ainda no conto, uma senhora, ao proteger o menino que fugia de tiros da polícia, diz outra frase, que, na minha intuição (e não na do narrador), era puro Shakespeare, novamente “Hamlet”. Li o livro para concluir que não, o bardo inglês passava longe dali. A leitura de um livro por conta de uma frase lançada numa história, assim é, às vezes, a vida de um escritor.

As leituras serviram também para ver do que tem falado a literatura brasileira. Ronaldo Guimarães, em “Barbárie em cena” (Miguilim), escreve, como o título sugere, um texto teatral, ainda que não na forma, ao narrar a internação de quatro pessoas de nenhum modo loucas no famoso hospital de Barbacena. O manicômio da cidade mineira, mesmo fechado, continua uma ferida exposta, e Ronaldo, límpido e “leve”, nos ajuda a não nos esquecermos disso. Ádlei Carvalho (“As nove páginas de Alberto Silva”, Coralina) e Claudia Lage (“O corpo interminável”, Record) usam a ditadura como pano de fundo. Ádlei, baseado em um trabalho de pesquisa cuidadoso, conta uma história de amor entre uma mulher de família crítica ao golpe e um soldado do exército vítima da estupidez do regime. Um casal de jovens, no livro de Claudia, busca a história de suas famílias — em uma de suas linhas, o livro lida com os limites da escrita. O corpo interminável começa lá, torturado por aqueles que nosso país mal resolvido ainda aceita como dignos de vivas, e continua, no presente, no homem, na mulher, no filho a caminho. A dor é uma herança corpórea.

No livro de Claudia desponta também a questão feminina, pois quem sumiu nos porões da ditadura foi uma mulher, uma guerrilheira. Branca Maria de Paula, em “Nanocontos” (Quixote +Do Editoras Associadas), como tem sido sua literatura, acompanha a mulher em casa, na rua, no amor, no abandono. O texto miúdo (de onde o nano) é uma tarefa de difícil execução, e Branca faz bonito ao enfrentá-la. Elvira Vigna, em “Como se estivéssemos em palimpsesto de putas” (Companhia das Letras), explora suas habituais personagens femininas, fortes e raras, que fogem a padrões ou a não padrões. A desse livro, por uma série de razões, torna-se confidente de um interventor de uma editora que está prestes a fechar e que adora contar suas aventuras com prostitutas. Ela, que poderia ou até deveria repelir o assunto, o aceita, gosta de ouvi-lo. Não só por isso, uma típica mulher de Elvira Vigna.

A partir de um livro infantojuvenil, “Sete Orelhas”, de Silvinha Meirelles (Ôzé Editora), fiz uma viagem a um mundo que em parte acabou. Comprei o livro ao ver, na página da editora, a autora e suas filhas (uma fez as ilustrações, a outra, o projeto gráfico) contarem como a história, repetida à exaustão na família, chegou até elas. A história de um matador que coleciona orelhas de suas vítimas também se conta em minha cidade, no caso, situando-a nos tempos dos “contendores da morte”, que, em Passos, na primeira década do século XX, culminou com a intervenção do governo de Minas, num episódio conhecido como “a matança do fórum”, que serviu de base para um romance de Mário Palmério, “Chapadão do Bugre”. Li “Chapadão” há muito tempo;  no confinamento li, do autor, “Vila dos Confins” (José Olympio Editora), livro que não se faz mais no Brasil, em grande parte porque o país mudou, a vida rural, apesar da importância atual do agronegócio, não é mais a dos anos de 1950, mas também porque já não temos a esperança daquele momento entre a ditadura de Vargas e a Militar. Por outro lado, não duvido de que, nesse mundo de milícias e exércitos de contraventores, matadores ainda colecionem orelhas arrancadas de suas vítimas.

1.10.13

De enfiadinha

Dia desses, no Facebook, falei uma mentira. Disse que, desde que lera e relera no mesmo instante um livro de Nabokov (Machenka, Companhia das Letras), só agora, ao ler “O que deu pra fazer em matéria de história de amor” (Companhia das Letras), de Elvira Vigna, voltara a ter experiência similar. Na realidade, essa de dar duas leituras assim de enfiadinha havia me ocorrido um pouco antes com livros de dois amigos meus. Um do conterrâneo Alexandre Marino (Exília, Dobra Editorial) e o outro do também mineiro Sérgio Fantini (Novella, Jovens Escribas).
Foto de Alexandre Brandão.

O que leva um sujeito a ler duas vezes em seguida um mesmo livro? Ou encanto ou assombro. Encantado, é impossível abandonar o livro. Assombrado, é imperativo voltar a ele para, de fato, compreendê-lo ou decifrá-lo — e ser, enfim, devorado por ele.
A releitura de Nabokov esteve ligada à questão do assombro — li e reli, confesso, por não entendê-lo na primeira leitura. Se não estou enganado, já que busco na memória algo acontecido há muitos anos, não é um livro fácil. Do mesmo Nabokov, é melhor ler “Lolita” (Alfaguara Brasil).
Nos casos de Fantini e Vigna, a questão tem a ver com o encantamento, mas, como escritor, a releitura foi também um golpe baixo, quer dizer, tentei decifrar, na segunda visita, os truques dos nobres colegas. Fantini, por exemplo, é dono de um texto enxuto, mas de um enxuto comparável ao sujeito magro de nascença, daqueles (não sou eu, mas foi meu pai) que passam a vida sem saber o que é gordura. Assim, meu amigo de Belo Horizonte, ainda que trabalhe muito para ter o texto pronto e seco, não deixa vestígios de seu bisturi no que escreve. Seus contos estão de um jeito que parecem ter sido desde o nascimento. Assim especialmente nesse “Novella”, livro de narrativas curtas, que flertam com a poesia.
Já Vigna nos conta uma história que a própria personagem e narradora conhece, digamos, de ouvir falar. Isso não seria nada surpreendente se ela não se agarrasse àquela história como forma (quase) única de estruturar a própria vida. Ela relata a vida de seus sogros, se é que os pais de um parceiro com quem vive e deixa de viver com certa frequência podem ser chamados de sogros. Bem, ao narrar e confrontar-se com a história contada, a personagem (sem nome) vai fazendo o que dá em matéria de história de amor com seu homem, que talvez não seja filho do pai dele e que é pai, sem saber, do filho dela. Vale situar o período histórico da narrativa, pois, me parece, ele é fundamental: começa, no período da Segunda Guerra, com a migração de uma família judia, a do sogro, da Alemanha para o Brasil, passa pelo período da ditadura militar e desemboca nalgum momento mais recente, no qual, por exemplo, a AIDS já tinha dado a sua cara e feito suas primeiras vítimas. Seja como for, para quem associa literatura feminina a Clarice Lispector, um conselho: interne-se numa clínica e desintoxique-se antes de ler Vigna. O feminino são muitos, destaco e teclo sem motivo aparente o óbvio.
Resta meu xará, Alexandre Marino, dono de uma poesia que me encanta e me assombra. Para falar dele (ou da própria poesia), tenho de confessar uma idiossincrasia: nunca dou por terminada a leitura de um livro de poemas. Se me perguntam se já li um livro qualquer de poesia, mesmo que já o tenha lido, respondo que não, que não li, que estou lendo. Por que tamanha sandice? Ora, porque os livros de poesia são como a Bíblia ou o Alcorão, leitura para a vida inteira, portanto interminável. Se agora eu confesso que li e reli o Exília de enfiadinha estou apenas anunciando o início do embate. Voltarei ao livro, hoje ou amanhã, ou hoje e amanhã, para reencontrar “Os pássaros de Bagdá”, poema que diz que “ninguém pensou nos pássaros de Bagdá,/desafios canoros/que os ditadores ignoram”. Antes do poema estive entre os que não pensaram nos pássaros — nem nas baratas, nem nas árvores que velam os generais mortos em combate.