28.2.06

Alalaô



Escrevo livros.

Corrijo: escrevo, e o que escrevo será livro se combinarem duas coisas: boa safra e sorte. Nos livros, organiza-se aquilo que, na surdina, na dor, na revolta, no silêncio, no escambau a quatro se construiu. Mas para virar livro é preciso percorrer um longo caminho cujo ápice é convencer o editor a investir naquela viagem solitária, feita por necessidade e não por outro motivo qualquer.

Escrever é, portanto, um jogo de azar (não parece haver melhor expressão para isso). Em jogo se ganha, se perde. Ou nem um, nem outro. Na esgrima da escrita, o empate é o resultado mais provável.

Ganho quando escrevo e boto meus diabos para fora. Perco ao ser lido, ao ver tantas leituras distintas das minhas. Mas aí, a partir do sopro do outro, volto a ganhar.

Do lado mercadológico, ... derrota. Os editores me rechaçam. Minto: não a mim, ao que escrevo. Tudo muito cerebral, escatológico, pornográfico, hermético. Como péssimo combatente, não discuto, a grana é deles e o zelo pelo que escrevo é meu. Volto pra casa. As crianças não precisam desse escritor para o leite do dia-a-dia, é um funcionário público que as sustenta (coitadas!).

(Esse meu texto começa capenga, volteando, opa, cai, não cai. Também, escrito numa terça de carnaval.)

A verdade é que um livro traz dentro de si uma chance rara, talvez apenas o encontro amoroso compartilhe de virtude que se compare. Pode nos acontecer de ao ler ter um clique e, a partir dele, ainda que não necessariamente para sempre, enxergar. Enxergar nosso estar no mundo; e entendê-lo. Não com a régua e o esquadro da ciência, mas com o exército de nossas faculdades sensoriais, afetivas, do que não se nomeia assim de chofre numa terça de folia.



“A Náusea”, de Sartre, exige um exercício de algo que deixa lá pra trás o rigor da inteligência, do bem entender. Recorrer em sua leitura à idéia de entrelinha é dar com os burros n’água. Os achados do escritor não estão amealhados nos pequenos vazios simplesmente porque, agarrados ao preto e branco do que está impresso ou às sombras do que está sobre ou subescrito, não podemos nos valer de um só caminho, ainda que o fazendo de mãos dadas à razão, essa nossa irmã metida a besta, que se quer guia.

Não usaria mais do que duas linhas para contar o livro. Se usasse oito mil e trezentas não faria diferença: acompanharia os passos do sujeito que está no interior da França escrevendo sobre um personagem histórico altamente polêmico: burguês e envolto em transações escusas mundo afora.

Mas não é isso. Ou por outra, é também isso. Porque entre a primeira entrada na biblioteca e a última, entre as incontáveis perambulações pela cidadezinha portuária e o encontro com aquela que é seu amor, mas que também não o é, o personagem, ele...

Sartre gastou tempo escrevendo seu livro, ou por outra, fazendo anotações que, a seu juízo, e graças a Deus, poderiam ser — e foram — um livro. Contou então com a sorte e algum investidor (não sei da história, se foi primeiro uma edição independente, bancada pelo autor, mas isso pouco importa) foi lá e fez do livro a “A Náusea”, pronto e acabou. Pude lê-lo quarenta, cinqüenta anos depois de lançado; outros o fizeram ali no calor da novidade.

Fico confortado em pensar em Sartre percorrendo os mesmos caminhos de qualquer outro escritor: a solidão, a obra, o oferecimento, o investimento, o mercado e por aí afora. Me desespero em pensar que ele escreveu essa pequena obra prima, enquanto eu... pornografias para uns, hermetismos para outros...

Caramba, o personagem de Sartre vê a existência das coisas. Esse diferencial humano, o existir, não o diferencia, ao contrário: nossa existência é da mesma espécie da existência das árvores. Somos mais um elemento num dos reinos transitórios que povoam a terra.

(O verbo de Sartre é quase (mais do que) uma pornografia... e alguém pagou pra ver. Meu texto termina cambaleante, tocado por rabo de galo que não bebi.)

“Alalaôôô, mas que calor!”[1]


[1] Antes que eu me esqueça. Meus livros: “Contos de homem” (1995, Ed. Aldebarã) — só eu e uns poucos sebos no Rio o temos; “Estão Todos Aqui” (2005, Ed. Bom Texto) — clique e
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