11.3.08

O cronista ranzinza


Já computei. Essa turma do pagode, que teima em padronizar o samba e o próprio jeito de ser, apresentando-se em grupos anódinos que dançam uns passinhos de envergonhar até o maior dos caras-de-pau, envoltos num sorriso forçado de dar dó, usa, em suas composições (Trato de respeitar a turma!), cinco palavras às quais se juntam outras pequenas variações: eu (você, ele, nós), te (lhe, nos), amo (amei, amamos, amarei). Além dessas, mais duas: ihihih, ohohoh. O máximo da criatividade dos pagodeiros é espalhar essas espichadas interjeições ao longo das canções. A gente ouve coisas do tipo: “Ihihih, eu te amo” ou “te amoohohohoh”. Um escândalo.

Três vezes por semana tomo um ônibus em Bonsucesso para descer em Botafogo. Está aí uma senhora linha. Da Avenida Paris, pega a Brasil, sobe o Elevado da Perimetral, desce o Aterro, indo direto e reto até Copacabana. Levo em meu trajeto, quando muito, vinte, vinte e cinco minutos. Com ar-condicionado e uma tarifa vinte por cento mais cara, acho um luxo e pago sem chiar. Mas... Por que raios resolvem “brindar” o usuário com música? O rádio soa alto e a estação escolhida é um acinte. Quando não é o famigerado pagode, é bate-papo com algum péssimo cantor ou é o hit do momento (Alcione cantando “Perdeu, perdeu”. Ô Marrom, essa doeu!). Alguém tem de dizer à empresa que, quando alguém toma o ônibus num dia de semana, perto das 21 horas, essa pessoa está cansada, voltando para casa depois de um dia inteiro de trabalho. Merece respeito. Vamos em silêncio, a viagem em si, rápida e confortável, já é uma delícia.

Tolerância zero com os habitantes de rua! Acho que é essa a meta do senhor prefeito. Começou por Copacabana, logo depois chegou a Ipanema, ao Leblon e à Gávea. Sabemos todos — sei lá, eu sei — que, entre essa população de rua, há aqueles que não querem ou não conseguem mais adaptar-se à família e, na rua, apenas ocupam um espaço sem causar grandes problemas a ninguém, mas também há os que cometem assaltos e outros excessos. (Embora assaltos e outros excessos sejam praticados por outros que não moram na rua). De todo modo, os sem-teto merecem atenção especial, desde que não sejam tratados apenas como peça que se tira daqui e se desova ali.

A sensação que tenho, morando em Botafogo, é que a medida tem sido feita sob a batuta do estoquista. O sujeito olha e diz: “Não existe mais nenhum em Copacabana”. Claro, grande parte deles está em Botafogo. Alguns estarão em Ipanema. A operação chega a Ipanema, ao Leblon e à Gávea, irão todos para o Jardim Botânico, para a Lagoa, para o Humaitá e outros mais para Botafogo. Abafados nesses bairros, ressurgirão no Flamengo, no Catete, na Glória.

A questão não é de poucos contra muitos. Não há uma política social; simplesmente o alcaide ligou seu superespanador, atirando-se contra o pó. Mas não é pó, prefeito, é gente. Ainda que ele se atirasse mesmo contra o pó, espalhar não tem nada a ver com limpeza, é só olhar embaixo do sofá: o pó foi parar ali.


Como todos sabem, todo cronista tem seus dias. No meu caso, de uns tempos pra cá, tudo se justifica. Nasci em Passos, onde andam “batizando” leite com hidróxido de sódio e peróxido de hidrogênio, mais conhecidos como soda cáustica e água oxigenada, respectivamente. Ando vexado e com os nervos à flor da pele. Nem vem contemporizar, leitor, nem vem.
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