30.11.10

A PRIMEIRA LEITURA

(conto publicado em Contos de homem, livro de 1995)

Aos 18 anos?
Estou na boate escura. Na realidade estamos: Sabão e eu. Mas pouco conversamos, o som está muito alto e acabamos de fumar outro baseado. Estou naquela de chuvisco: uma gota de idéia aqui, um respingo da definitiva descoberta acolá, idas e vindas intermináveis. Daqui a pouco, quando a insônia bater forte, vou buscar o sono, lendo por acaso; e, por acaso, Dom Casmurro. Descobrirei semelhanças entre mim e o velho. Quando estou doido, viajo que minha gata, Luma, me trai, e tenho elementos para achar que não, mas concluo que sim, e me arrependo.
O que importa é que tenho 18 anos, é sábado, e tudo leva a mais um fino. Sabão está de saco cheio de ficar naquele antro barulhento, é assim que ele se refere à discoteca.
— Se a gente transasse umas minas por aí, levasse aí prum canto, armasse uma fogueira, pitasse mais um ou mil, tocasse uma viola e, bem, meu camarada, trocasse esse óleo sujo que acumula na gente ... Acho que estou fundindo, socorro!
Rio (aliás, riria mesmo se a proposta fosse o suicídio, o berro apontado para a própria cabeça). Corro ao telefone e ligo para Luma:
— Amor, não dá para ligar pra cá a essa hora. Cê conhece meu pai.
— Mas Lu, que tal dar uma fugida? Olha, vamos tocar um violão numa quebrada, apertar um, e sabe como é, né?
— Vá pra casa, cê já tá muito louco. Vá, por favor.
Sabão caçoa de mim. Diz que é muito cedo para ser fiel. E me aponta duas morenas mais do que disponíveis, bem ali, longe da tutela dos papais. Agimos. Já no carro com as garotas, tento acreditar que faço o melhor. Mantenho os olhos lá fora, nas calçadas. Um menino dorme embaixo da marquise da loja de carro. A noite está fria.
Não há tempo de acender a fogueira, nem de dedilhar uma música sequer daquele velho repertório. Sabão e a menina agarram-se no banco da frente. A outra, que está ao meu lado, abre o fecho ecler da minha calça, arranca de lá de dentro meu pau e cai de boca. Acendo o baseado que já está pronto e, enquanto ela chupa e chupa, dou tragadas cada vez mais fortes, mirando as estrelas. Esta é minha conclusão: o menino na calçada e as estrelas no céu são livres. Gozo boca adentro.
Em casa, a fome madrugadeira, sem igual. Na ordem: doce de pêssego, ovo frito, mexido, banana, refrigerante. Insônia (má digestão, acho óbvio, hoje). E Casmurro. Quando o sono enfim chegar, derrubará o livro sobre o meu rosto, e assim ficarei, imóvel, até o meio da tarde de amanhã.
Luma tenta-me convencer de que não há nada a ser feito pelo menino que dorme ao relento, sempre sob a marquise da loja de carros. No máximo, dar-lhe um cobertor.
— Menino, ô menino! Aí, ó, trouxe um cobertor pra você.
— Deixe aí perto do carrinho. Olhe, se tiver um finório pode deixar cair também.
Sabão e Luma me alertam para o perigo de transar as coisas com o garoto. Ele pode ser um olheiro, dedo-duro dos canas. E mudam de assunto. Mudam de tom. Planejamos, em instantes, a próxima noite. Será igual às de sempre: uns drinques, uns tecos, umas danças. Eu me recuso. À noite, sento- me com o garoto da marquise. Confeccionamos um e ficamos ali quietos como o quê. Passa um tempo, e ele enrola-se no cobertor e num relance adormece. Encosto-me na parede e cantarolo uma canção que nem eu mesmo sabia conhecer (aos 30 anos, saberei quem a compôs, quando foi gravada e terei uma sensação mais do que concreta de tê-la ouvido pela primeira vez pela voz de minha mãe). Em casa, Casmurro continuará sua lengalenga, que me entorpece. Mulheres, ter cuidado!

Eu e Sabão batemos com o carro. O erro foi nosso, sem dúvida. Na contramão, com teor alcoólico muito acima do permitido, carro com pneus carecas etc. e tal. Por sorte não tínhamos nenhuma maconha por perto. Por sorte também não nos machucamos gravemente. Ganhei uma meia dúzia de pontos, uma bronca em casa e uma ficha na polícia. Luma debochou do caso. Sabão, na manhã seguinte, já fazia troças, remedando o guarda, zarolho segundo ele. Tive uma sensação estranha vendo Sabão e Luma rindo-se de algo tão terrível para mim. Riam-se de mim. Ou, o que dava no mesmo, um ria para o outro.
Baco (o menino da marquise) não achou graça nenhuma na história da batida. Tampouco se mostrou preocupado ou curioso por mais fatos. Ofereceu-me um saco com cola.
— Onde cê tá, ô Maurício?
— Dentro de um relógio.
— Ih! Cacete, essa é nova.
— O ponteiro dos segundos é a faca e ta vindo pro meu lado, Bacolelé.
— Não sou essa porra, não. Sou autoridade. Sou sapato-branco. Tu tá preso, Maurício mauricinho.
— Eu tô é fugindo das horas. Eu tô numa de meio-dia e quatro horas. Eu tô é entardecendo.
 (Cena do filme "Os sonhadores" de Bernardo Bertolucci)
No banho, quando o pau sobe, o corpo de Luma parece estar ali mesmo diante de mim, mas vejo-o colado ao de Sabão. Abro os olhos, a imagem se desfaz, e outra logo a substitui. Em uma casa velha, colonial, um homem olha para a cria e não se vê nela, as feições são do outro. Minha mão, como se agisse espontaneamente, movimenta o pinto cada vez com mais força e pressa, e a porra bate no ladrilho, e o velho some de vista. Luma me beija com carinho, e passo-lhe o sabonete sincopadamente pelo corpo, com o carinho mais que querido, o de depois da foda.
Minha mãe bate à porta do banheiro, avisando-me que tem um pivete me chamando lá fora. Vou o mais rápido possível, e, quando cruzo a sala, ela pergunta: "Que amizades são essas?" Nem respondo.
— Baco, o que foi?
Ele não diz nada. Fita-me como se buscasse alguma coisa além dos meus olhos. Abaixa os seus e, antes que eu retorne à pergunta, ergue o rosto e deixa escapulir uma fina linha de lágrimas. E é tudo. Logo sai correndo, correndo, correndo ... sabe-se lá para onde.

O pai de Luma está na esquina de sua casa, no armazém, comprando umas cervejas. Quando me vê, pede que eu o ajude. Subimos a rua em total silêncio. Já na porta do sobrado, ele me diz "Seu amigo está ai." Na mesa da sala, jogam buraco, Luma e Sabão versus as irmãs de Luma. Vou à cozinha, coloco as bebidas na geladeira, ganho um quibe da empregada e sinto como se meu corpo acabasse de ser abalroado de dentro para fora, sangue, músculos, órgãos e ossos respondendo às ordens loucas de um cérebro idem. Não poderia ficar ali vigiando os olhares cúmplices dos parceiros de jogo, de cartas, ou algo além. Luma está Capitolina demais. Passo pela sala apressado:
— Volto depois!

— Baco, porra, cara, tô numa pior mesmo. Um amigo meu tá cheio de grilos, achando que a mulher dele tá metendo-lhe os chifres. Porra, até os filhinhos o cara agora não tem mais certeza se são dele. Seriam parece que do melhor amigo ou coisa assim. Eu fico meio desconfiado dessas histórias, mas parece que o homem tá certo. O que você acha? Quer um fino?
— Que merda de fino o quê? Ô mauricinho, eu não tenho o que comer, não, xará. Se pitar um, tô fodido. Cadê a geladeira pr'eu meter a mão e tirar uma fruta ou a droga de um copo de leite, cê tá vendo por aqui? Cai fora, encontra teu rumo, ô mané, vai lá comer a mulher do teu amigo, que o cara é um baita dum frouxo. Se fosse comigo, eu metia o pau e o sarrafo na vagabunda, nem sobrava o cadáver.
— lh, cara! Cê tá uma pilha. Da próxima vez que cê pintar lá em casa com aquele choro sem mais nem porquê, vou falar pra minha mãe te enxotar logo de lá, seu pivete. Sabia que ela te chama de pivete?
Baco tira de dentro do seu carrinho de mão uma xícara e uma garrafa velha. Entorna o líquido da garrafa na caneca, toma dois goles longos e me oferece. Programo-me para um gosto de café e engulo outro, sem igual; quase vomito, mas não, resisto. Sorvo mais uma talagada, deito na calçada e fico esperando a Lua transformar-se em queijo.

Dou por mim já em casa, deitado em minha cama, aparentemente limpo e tranqüilo. Não sei que dia é aquele. Levanto-me, vou à cozinha. Passando por mim, minha mãe faz tudo como sempre, um cafuné rápido na cabeça, um café simples na xícara, um gesto qualquer de bom-dia.

Sabão ao telefone:
— Maurício? Puxa, tô preocupado contigo. Em que buraco cê anda metido?
— Por certo cê já ocupou o buraco que era meu antes, né?
— Não entendi, bicho ... Me escuta. Tenho ouvido falar que cê tá pegando pesado com aquele pirralho. A gente sempre apertou um junto, meu compadre, mas pera lá, mais do que isto é fria. Tá todo o mundo preocupado. A Luma então ...
— A Luma. A Luma. Vá a merda, Sabão.

Amanhã faço 19 anos. Os dias perto do meu aniversário são sempre assim, escuros, prontos pra chover. Mas nunca chove. E eu sempre espero, sentado no quarto, sacando as nuvens, os trovões e os relâmpagos. Se chover, Baco decerto vai pra debaixo d'água, doido, muito doido mesmo, e vai cantar qualquer coisa e despir-se e agradecer. Baco há de reconhecer o tamanho de sua liberdade. Mas nunca chove por estes dias. Baco deve ter medo do vento. Esta constatação me alivia de algum modo.

Abro o presente que Luma me entrega, numa quebrada distante, reservada para os nossos grandes momentos. O disco que sonho há tanto e uma bela camisa branca. Olho para Luma e vejo de relance uma velha cigana, sentada no chão, ao lado de muitos tachos. Que olhar profundo! Ora me atraindo, ora me jogando para longe, num vaivém de espuma. Desfaço as imagens fantasiosas, agradecendo os presentes. Colo meu corpo ao de "minha velha Luma" — é assim que digo —, meto a mão voraz por entre os botões frágeis de sua blusa e descubro seus seios. A boca enfim encontra um sabor de sal não só ali, nos seios, mas em todo o corpo. No corpo que antes nunca foi meu por completo.
Meus braços e pernas, meu peito e minha barriga não querem nada além do descanso depois de Luma. Mas minha cabeça não pára. A mesma pergunta ecoa uma, mil, infinitas vezes na calada do pensamento: "Luma você é só minha?" "Luma você é só minha?" "Luma você é só minha?" E logo estalo em um choro escancarado. Meu velho amor puxa minha cabeça, repousando-a entre seus seios. Em seguida esquece o calor de seus dedos acalmando-me, repletos de sabedoria.
Chove. Baco deve estar no ápice de sua coreografia cinematográfica. E espero estar derretido o Sabão.

Vou da noitada direto ao encontro de Baco.
— Que olhos de ressaca, mano velho.
Dou um meio sorriso como se houvesse outra intenção nas palavras dele. Sem lhe responder, passo-lhe o pão e o refrigerante que trouxe de presente.
— Obrigado — diz ele.
— Não acabou, não.
Tiro do bolso o baseado. Fumamos. Ele começa a comer violentamente o lanche, e eu apenas observo o sol aparecendo aos poucos. Os dias que se seguem ao do meu aniversário sempre têm um sol sem igual. Mas neste ano tudo pode ser diferente.
— E aquele seu amigo? — ele puxa conversa.
— Qual? O Sabão?
— Sei lá, o corno.
— Está tudo bem. Era paranóia do cara.
— Fumaça é sempre cria do fogo, mauricinho. Manda ele abrir o olho e fechar as pernas da piranha.
Baco ri absurdamente alto. Ri, ri e ri mais ainda. Caio fora.

Resisto acordado ainda, por toda a manhã. Passeio assim sem compromisso, de um lado para o outro. Namoro vitrines, mexo com algumas meninas, escondo-me de algum conhecido. Não tenho como evitar, todavia, o Gélio. Ele vem por trás e me dá um susto. Depois coloca as mãos sobre o meu ombro, mira-me severamente e começa uma pequena conversa cheia de segundas intenções.
— O que há, Gélio? Aonde você quer chegar?
— Você precisa tomar um jeito. Tá ficando ruim pra você. Ontem mesmo...
— Porra, eu não tô entendendo nada.
— Tá legal, já vou te dizer. Vou te dizer porque sou teu amigo. Tua mulher ... eu a vi beijando outro cara.
— O Sabão?!
Não espero a confirmação, disparo ruas afora, rumo à casa de Luma. Nem ela está, nem o Sabão está na casa dele.

Minha mãe me olha entre nervosa, aliviada e surpresa.
— Dê uma espiada na tua cara, Maurício. Que traste! Você está numa estrada muito perigosa, meu filho, e eu nem sei como ajudá-Io.
De fato, no espelho do banheiro, vejo como meu rosto está sujo, como estou sujo. Parece que o pó grudou em mim como as letras grudam no papel. Mas sem poesia.

A leitura me faz mal, é isso. O tal Casmurro me confunde. Se ele é ou não corno, problema dele. Eu não sou. Luma foi minha de forma intensa, sem falsidade. Queimo este livro de merda e saio disposto a acertar as contas com Gélio, o mestre da intriga barata.

Aos 19 anos, toda dor é intensa e (aparentemente) passageira. Luma me convenceu de que Gélio mentia. Meu velho amor me abraçou, me deu seu corpo, sem nenhuma exigência, agradecida por ser nela que meu gozo explodia. Depois me levou ao encontro de Sabão, contou-Ihe tudo. De meu amigo nasceu um sorriso sincero, expressão de seu contentamento em ter-me ali, por perto novamente.
Quando mais tarde eu e Sabão andávamos à toa pela cidade, ele me disse que em uma coisa Gélio tinha razão: Luma estava agora quase sempre sozinha, eu lá metido com o garoto da rua.
— Baco é o nome dele, Sabão.
— Eu sei.
— E por que não diz?
— ,,,
Sabão abraçou-me e assim continuamos andando, até a porta do primeiro bar. Pedimos uma cerveja. Seguiram-se outras, um punhado delas. Falamos ainda um pouco sobre nossa amizade, lembramos nossas façanhas, e daí a pouco fazíamos planos, eu contava então minhas viagens com cola de sapateiro, com chá de cogumelo; ele dizia da mulher gostosa que estava comendo, de como ela pedia que a enchesse de porrada.
— Vamos lá para você conhecer o Baco?
— Quem? Ah! O Baco. Ok.

Baco estava absolutamente fora de controle. Chutava o carrinho de mão, xingava, fazia gestos obscenos. No princípio, ignorou-nos; depois, fincando-nos seus olhos raivosos, a boca espumando, veio em nossa direção, quebrou a garrafa que tinha na mão e ameaçou-nos. Sabão reagiu, meteu o pé na mão de Baco, a arma caiu longe. Sabão continuou, dava socos no rosto de Baco, acertou os sacos de Baco. (Eu só olhando, parado.) Bateu mais, Baco caiu. Sabão chutou a cabeça de Baco. (Eu só olhando, parado.) Sabão fincou-lhe o pé na boca do estômago, o sangue explodiu pela boca, pelas narinas. (Eu só olhando, parado.). Baco morreu ali mesmo, transparente. (Eu só olhando, parado.)

Dormi, à custa de sedativos, uns dois ou três dias. Quando acordei, não quis saber de nada, preferi o silêncio. Só mais tarde pedi que Luma me viesse ver. Tentei beijá-Ia, não com desejo. Tentei abraçá-Ia, não com ternura. Eram os meios que eu tinha de transmitir minha dor. Ela recusou-me. Alisou meus cabelos e sugeriu que eu continuasse a descansar.
Antes de atravessar a porta do meu quarto, voltou-se para mim. Sem demonstrar temor ou qualquer outro sentimento, Luma falou:
— Estou esperando um filho do Sabão.

Não sei se hoje teria forças para agir como então. Julguei que já era tempo de deixar o quarto, de sair para a rua, de recuperar o gosto pela vida. Andei um pouco pela cidade, reconhecendo-a. No final do dia, entrei na livraria e comprei Dom Casmurro. Poderia, agora, lê-lo até o final, sem comparações, sem medo.

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