7.12.13

Pensando alto

No agora há muitos tempos. Enquanto alguns transitam na mais sofisticada banda de internet, outros não chegaram sequer ao telefone ou à luz elétrica. Enquanto a indústria diz estar pronta para oferecer roupas íntimas que não deixam escapar o pior de nossos cheiros, o esgoto ainda é uma realidade de poucos.
Sempre ouvi a história segundo a qual político não gosta de investir em esgoto porque é uma obra subterrânea e invisível. Preferem pontes, ruas, praças. Ou metrô, subterrâneo visível e transitável. No novo filme de Bruno Barreto, “Flores raras”, o foco é a relação amorosa entre a poeta americana Elizabeth Bishop e Lota de Macedo Soares, brasileira que, depois de botar a cara a tapa e convencer o governo da então Guanabara da importância da obra, comandou a criação do Parque do Flamengo — embora não fosse, como dá a entender o filme, arquiteta. Sob sua coordenação estavam nomes como Affonso Eduardo Reidy, Sérgio Bernardes, Burle Marx e outros tantos, estes, sim, donos das pranchetas que definiram a feição do parque. No filme, Lota aconselha Carlos Lacerda a esquecer essa coisa de esgoto e apostar numa obra vultosa, ao mesmo tempo bela e útil, neste caso para o lazer da população. Se foi licença poética do cineasta, não sei, mas não tenho dúvida de que a opção estivesse sobre a mesa. A situação do esgoto era mais aguda nos anos de 1960, quando se fez a obra, portanto, não havia como não estar em debate.

Foto do autor. Aterro, Rio de Janeiro.

Ganhamos todos com o Aterro, é certo. Mas muitos continuaram e continuam sofrendo das doenças causadas pela falta de esgoto e, de quebra, talvez poucos tenham desfrutado ou desfrutem ainda do parque.
Escrevo uma frase lugar-comum: viver é optar. Ou isso ou aquilo. A maneira como escolhemos, no Brasil, não tem sido feita de forma clara e democrática. Houve, e não sei como anda, o orçamento participativo nas gestões do PT em Porto Alegre, primeiro, e em outras cidades depois. A ideia é ótima. A população discute — em seus bairros e levando-se em consideração que não há dinheiro para tudo — se é melhor asfaltar uma rua ou colocar mais um poste de luz. Se houver a opção pelo poste, o asfalto da rua necessariamente ficará para amanhã (e não esquecido para sempre). Nunca a participação política foi tão radical. Nessa solução, problemas há aos montes (como se escolhe quem representa a comunidade? Quem fiscaliza a obra? Como tratar o descumprimento de um acordo por parte do município? Quanto do orçamento é, de fato, aberto à negociação?), mas o sujeito está metido até o talo nas questões de sua cidade.
A exposição de Sebastião Salgado, Gênesis, até há pouco tempo aqui no Rio — e agora em São Paulo —, é um registro de vários tempos no tempo presente. Acredito que o desenvolvimento também deve ter princípios. Isso quer dizer que as fronteiras agropecuárias têm de respeitar os aborígines, sua cultura, seu habitat natural (tão bem retratados por Salgado). Mas não vai faltar terreno para plantar e, com isso, alimentar sete bilhões de pessoas no mundo? Ora, vamos comer insetos. A ONU testa um projeto que transforma insetos em pó comível (tipo shake). Fonte fabulosa de proteína, essa criação requer pouco espaço. Não torçam o nariz, cedo ou tarde nos acostumaremos. Conheço gente que não se arrisca ainda hoje na culinária japonesa, mas, principalmente, os mais novos, aqui no Brasil mesmo, já nascem hábeis com o hashi, o pauzinho com que se come sushi ou yakisoba.
Ufa, me entusiasmei e disparei a falar feito um doido. Peço-lhe desculpas, leitor, mas é o Brasil que me tira do sério. Prometo não cometer erro semelhante outra vez. Agora vou me recolher e pensar baixinho um monte de coisas da pá virada, todas com um quê de pecado.
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