7.11.14

Coisas que eu quase vi

Os meninos — sem se desgrudarem de suas garrafinhas de plástico, utilizadas não para beber água, mas para cheirar benzina e cola — corriam em disparada pela Voluntários da Pátria, via movimentadíssima do Rio de Janeiro, sem se importar com carros. Pensei em assalto, em briga, no pior. Logo me dei conta de que corriam na direção de uma Kombi parada em fila dupla. Pude ouvir então que gritavam a plenos pulmões: sorvete, sorvete. Imagino que se aproximaram da Kombi, onde se distribuía sorvete. Só isso, não mais que isso.
Assim serão as histórias que contarei daqui até o final desta crônica. Não sou jornalista, não tenho compromisso com a história inteira, muito menos com a verdade. Sou antena de rádio a válvula, capto pouco e chio muito.
Em São Paulo, um dos escritores mais respeitados entre os contemporâneos contou numa roda de bar que anda sempre com fone de ouvido, mas não escuta música alguma. É apenas uma estratégia para as pessoas que estão na rua, especialmente nos bancos do metrô ou dos ônibus, não se importarem com ele e falarem à vontade, sem pudor. Ele anota tudinho e aproveita depois num diálogo de um romance ou como o primeiro sopro de uma história. Pertenço a essa grei.
Duas mulheres caminhando. Primeiro na minha frente. Depois a meu lado. Por fim, atrás de mim. Não diminuíram a voz com minha aproximação. Sentiam-se sozinhas na rua, e uma reclamava que não era mulher dessas, o que estavam pensando?
Certa vez, ao sair do trabalho, a lua já no céu, duas meninas andavam em sentido contrário ao meu. Elas vinham, eu ia. Uma perguntou a outra: “E o fulano?”. “Não estamos mais juntos” — foi a resposta. “É?” — estranhou a primeira. “Sim, amiga” — justificou-se a que tinha terminado o namoro —, “não dá para ficar com um cara que tem a bunda maior que a minha.” (Confesso que, tão logo pude, me virei para saber se era fácil ou difícil ter uma bunda maior que a dela. Era fácil.) Elas passaram, e eu não sei como foi a reação da amiga curiosa. Sendo eu um poeta óbvio, resmungo: naquele momento, além das duas amigas, só a lua soube os desdobramentos do fim de um namoro cujas razões foram tão corpóreas. Eu chupei o dedo, eu vi navios.
Sob o plástico preto, um corpo. Talvez de mulher. Pode ter sido atropelamento ou tiro. Pode ser que, antes da chegada da ambulância dos bombeiros, como na música do Aldir Blanc e do João Bosco, alguém acendesse uma vela e outro vendesse quinquilharias aos curiosos. Certo, certo mesmo, é o que ocorreria mais tarde: escorrendo num rosto diferente daqueles então em torno do defunto, lágrimas fariam crer que a dor nunca teria fim. E teria. Ora, sempre tem.
O rapaz passa tresloucado em seu skate pela rua perigosa. A mulher anda às gargalhadas. O que foi feito do pirulito Zorro? O namorado segura a namorada e a encosta no muro. O engraxate vai contando seus trocados pela calçada. O ônibus não para no ponto. Seu Frota voltou para Natal, ainda nos anos de 1960. Alguém que não conheço me cumprimenta. Do lado de fora, ouço um zunzum na fila do caixa do supermercado. O jornaleiro pendura uma revista na parte externa da banca. O cachorro para, olha para o céu e late. O pai faz careta para o filho que leva no colo. Não existem mais velocípedes de ferro.
Tudo eu não sei. Nem quase.
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