6.8.15

Dez ideias soltas para uso futuro

I
O pássaro é um diletante e canta ao léu suas mazurcas do instante.

II
Eu e minha mulher andando de mãos dadas pela rua movimentada do bairro, depois de assistir à sessão de cinema, é uma crônica pronta e inacabada.

III
O suicídio, a possibilidade do suicídio, é a questão filosófica, na visão de Camus. Todavia estar dentro ou fora da indústria do sucesso e vê-la ou como o espaço ocupado pelos inescrupulosos ou como o altar sagrado merecido por quem fez inúmeros sacrifícios pessoais são duas formas de dar valor absoluto a essa indústria. E a morte, o suicídio, inclusive, adora o sabor forte dos valores absolutos.

IV
Eu e meus amigos de adolescência não éramos exatamente flor que se cheirasse. Hoje, depois de a maioria de nós ter ultrapassado a barreira dos cinquenta anos, somos atuais, não envelhecemos antes da hora nem nos agarramos a uma falsa juventude. Agora, não sei se é uma coisa minha, mas sinto em nossos encontros esporádicos um cheiro de flor em plena intumescência.

V
Planos? Troco plano por sonho e imagino um mundo, o Brasil em particular, menos violento. Até que isso aconteça, quantas crônicas — ou textos, ensaios, o que for — encarniçadas teremos de escrever? Todos eles, provavelmente, nascidos de mais um episódio cruel. 


VI
Desfrutar um longo silêncio na companhia de meu pai é a maior saudade que tenho dele.

VII
O lugar do cachorro em nossas vidas está muito bem estabelecido. E o cachorro já achou seu canto na literatura há muito tempo. Baleia, a cachorra faminta de Graciliano Ramos, talvez seja o momento mais sublime desse encontro entre o cão e as letras. Eu li, já nem sei quando, Tantubá (Global Editora), de Luiz P. Cardoso (escritor de quem pouco ouço falar), livro que me marcou bastante. Não me lembro tanto dos detalhes, mas a história — um diálogo entre um morto e seu cachorro — explora a ideia de que os mortos continuam falando, sendo, entretanto, entendidos apenas pelos cachorros.Dia desses, Tiago Germano, escritor paraibano, me mandou um conto cujo protagonista é um cachorro, e eu mesmo escrevi outro que um escritor em crise chuta um cachorro na rua. Afinal, o que querem os cachorros?

VIII
Eu e meu amigo Leninho, também conhecido como Pombo, sempre ancoramos nossa amizade em um cais inalcançável. Ouvir música juntos foi — e é quando nos vemos, o que não tem sido frequente — o nosso jeito de dialogar. Ouve isso, e eu apurava os sentidos e ouvia. Sua vez, e ele, atento, ouvia. Certo dia, numa festa que durou sei lá quantos dias, a turma foi caindo pelos cantos, e eu e o Pombo vimos, sentados na varanda da chácara do Raul e do Chico, lá no horizonte, a lua se meter dentro de uma árvore. Foi nosso diálogo mais profundo.

IX
Fico mexido quando alguém lá da minha cidade diz uma coisa assim: eu vou de a pé. Ou outro em fala admirada: esse trem não avua.

X
O pássaro, esse diletante, borra o céu de tudo que é cor. E o céu se refaz em azul sem ofender o pássaro.
Postar um comentário