23.8.15

A primeira vez

A primeira vez que eu vi o mar, não o vi de cara. Mal pisei na areia, corri feito um louco e me atirei na água para, depois de um caldo, beber a espuma da onda recém-quebrada. Eu esperava uma água salgada, mas não tão salgada quanto aquela que provava a contragosto.

Desenho do autor, feito a partir de gotas de café.
Houve quem caçoasse do mineiro que tossia engasgado depois de levar um caixote. Saí humilhado ali da beirada, me sentei na areia e, aí sim, mirei o mar. Lancei sobre ele já então um olhar perspicaz, de quem o sabia cruel.

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As mulheres de Argel, Picasso.
Numa casa em construção, talvez no espaço que viria a ser a sala, vi pela primeira vez uma mulher nua. Noutro futuro cômodo, dois amigos esperavam a vez de vê-la — o combinado, seguido à risca, era apenas vê-la. Ansioso e sentindo-me vigiado, eu não poderia estar inteiro na cena, e não estava. Vi os seios de maneira muito clara, rijos ali onde de fato os seios crescem e ficam, mas todo o resto do corpo — não só o que eu buscava, desconhecia e até aquele momento estivera sempre encoberto, como também a cabeça, os braços, enfim, as partes públicas — não estava no lugar. A primeira vez que vi uma mulher nua, ela parecia um desenho de Picasso.

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A mãe da dona Antonieta, minha professora do terceiro ano do ensino fundamental, foi a primeira pessoa que vi morta. A diretora da escola nos levou ao velório e nós nos comportamos muito bem: não demonstramos medo, não evitamos estender a mão para a professora, alguns até mesmo deram-lhe um abraço. Em fila passamos ao lado do corpo, baixamos a cabeça com resignação, fizemos o sinal da cruz e saímos para a varanda. Não sei se tive dimensão do que aconteceria a partir dali, mas creio que, ao olhar aquela velha tão velha, decidi que não tocaria jamais num morto. E assim tem sido.

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Foto do Globo, Brasil X Iugoslávia, 1971.
A primeira vez que fui ao Maracanã, em 1971, foi a última que Pelé jogou pela seleção brasileira no Rio de Janeiro: era um amistoso contra a Iugoslávia, país que não existe mais. Eu não tinha dez anos, e o estádio lotado com mais de cento e trinta mil pessoas, um número inconcebível para quem, feito eu, vinha de uma cidade com menos de sessenta mil habitantes, chamou mais minha atenção do que o jogo em si, ainda que fosse também a primeira e a última vez que via Pelé. Os quatro gols do jogo, que terminou em dois a dois, só fui ver à noite, pela televisão.

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O primeiro poema que fiz era para uma canção, que eu e o Carlinhos, do alto de nossos oito anos, fizemos à beira do tanque da casa de meus pais. A letra dizia: “Vem, meu pedaço de papel, um papel não muito comum, mas uma folha de amor, uma folha de amizade”. Dois pirralhos, nos anos de 1960, deveriam falar de mocinho e bandido ou de corrida de carrinho de rolimã, nada a ver com folha de amor ou de amizade, a meus olhos de hoje, pouco condizente com o mundo infantil, coisa de gente mais velha. Não sei explicar o meu espanto, contudo, fosse eu meu pai ou minha mãe, temeria pelo futuro de seu filho, que dava mostras de que envelhecia bem antes da hora.

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 Viejo desnudo al sol, de Mariano Fortuny.
Rola por aí que a velhice chega quando você se dá conta de que não faz, há algum tempo, algo pela primeira vez. Mentira. Velhos fazem várias coisas pela primeira vez, muitas, é verdade, como um sinal da decadência física (é a primeira vez que não se enxerga nem com óculos, é a primeira vez que não se ouve bem, é a primeira vez... a lista é grande) e outras, ainda que não sejam novidade na vida de ninguém, como a oportunidade de fazer pela primeira vez sem tanta ansiedade, sem tanta ignorância.

Além do mais, no meu caso pelo menos, será na velhice que vou morrer pela primeira vez.
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