9.3.16

Brincando com o perigo

para FHC e Lula, com minha admiração ferida

Troca de mensagens entre ex-presidentes:
“E aí, Príncipe?”
“Aqui, entre livros, Metal.”
“Bicho, o bagulho tá quente, melhor a gente levar um lero, eu e tu, tu e eu.”
“No meu apê em Paris ou no seu no Guarujá?”
“Nós não temos esses apartamentos!”
“É verdade, a imprensa me confunde.”
“Melhor em praça pública, na calada da noite.”
“Vamos a Salvador, onde a Castro Alves é do povo.”


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Em São Paulo, há uma festa para gays coroas. É um negócio bem comportado, um baile no qual os senhores dançam tranquilos e sem grande assanhamento. Isso me faz pensar em um similar para gatunos da terceira idade. A festa começa no cair da tarde, quando entram no recinto, quase ao mesmo tempo, EC e RC (não, por favor, não pensem em Erasmo e Roberto). Sentam-se na mesma mesa e, seguindo as regras do encontro, colocam as carteiras e as mãos à vista de todos. Conversam sobre as trivialidades da tarefa à qual dedicam suas vidas. Difícil, concluem, é roubar galinha quando se tem fome.

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Wanderléa — sim, estou falando da cantora da jovem guarda, da que está sempre na companhia de EC e RC (Erasmo e Roberto, que fique claro) — é convidada para cantar num convescote na sede da justiça federal no Paraná. As autoridades estão cansadas com tanto trabalho, motivo pelo qual deram-se o direito a esse pequeno luxo. Wanderléa entra e, o que seria óbvio, mas ninguém se tocara, manda o velho e bom refrão: “Senhor Juiz, pare agora.”

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Três dirigentes máximos das maiores empreiteiras do país estão trancafiados na mesma cela. Ou estiveram até que começaram a trocar farpas entre si e, dizem (quem? Ora, quem. Quem sabe?), logo depois, tapas. Tudo começou quando um deles afirmou que a ponte construída por um dos outros era um erro de engenharia de ponta a ponta, apesar de, ao contrário de muitas que os três se empenharam em fazer, levar gente e mercadorias de um lugar para outro. Sentindo-se ultrajado, o responsável pela ponte franziu o rosto e contra-atacou. A ponte estava lá, forte e transitável, o que já não se podia dizer do asfalto novinho da rodovia federal, na altura de uma importante cidade. Quem se sentiu ofendido não foi o dono da obra, mas o terceiro empreiteiro, que, no caso, havia sido subcontratado para pavimentar a estrada. O guardinha — designado para manter os olhos bem abertos sobre os meliantes chiques —, diante das discussões (e dos possíveis safanões), sugeriu ao chefe que os três fossem separados. Em seguida, pediu baixa da corporação. Ele ouviu dizer (de novo o zunzunzum inconcreto, boa palavra para o momento) que, em consórcio, os três haviam construído aquele presídio.

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Em São Paulo, um menino chega atrasado à escola. A zelosa diretora, como castigo, deixa o irresponsável sem a merenda. O estudante se sente muito feliz, só assim não passará fome naquela manhã. Antes de entrar em sala de aula, confere o saco de biscoito Maria na mochila.

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Busquem a verdade, só a verdade, nada além da verdade. Esse era o mantra do editor. Os jornalistas, recém-contratados depois do último “ajuste”, o famoso passaralho, escutam atentos, não têm coragem de pedir um aparte, de fazer uma pergunta. Quando o editor sai, um questiona o outro sobre o significado de tudo aquilo. O mais experiente — dois meses de redação — acalma os demais. A verdade, ele explica, é aquilo que interessa ao editor. Correm todos para a rua para ajustar os fatos.

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“Senhor, por favor, — a moça se aproxima esbaforida, tentando entender um mapa, que ela vira de um lado para outro —, o senhor sabe me dizer onde fica esse país?”
“Sei direito não, filha, mas deve ser lá na esquina do desmancha-prazeres.”

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“Mãe, eles bateram em mim.”
“O que você aprontou?”
“Tava só brincando.”
“Com cinquenta e tantos anos? Mereceu.”



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