27.10.08

Um conto de "Estão todos aqui"

O conto abaixo abre meu segundo livro ("Estão todos aqui, Bom Texto Editora). Ele está também disponível aqui.
Boa leitura.

O que vai dentro da caixa

Gabriel pensava no rosto de Melissa coberto de serenidade, dele apagada a dor num sopro. O fato de que poderia não ser aceito no velório, de provavelmente haver tumulto, enfrentamentos, nada disso contava agora, ou ainda. Melissa, na sua derradeira imobilidade, seria a beleza sem conteúdo, sem sentimento; seria apenas.

Em dias de tamanha violência, ninguém vela seus mortos depois de uma certa hora. Gabriel torcia por encontrar o velório vazio. Teria tempo para contemplar, sem pressa e pela última vez, o rosto de Melissa. Olhar sem ser olhado. Ser olhada sem olhar. No contato entre a vida dele e a morte dela, haveria chance de que todas as feridas antes abertas se transformassem em coisas banais, esquecíveis. O vivo, ao olhar o morto, se entregaria como nunca, nem antes nem depois. O morto, já entregue este, ao ser olhado, aceitaria a entrega do outro.

Na aparência tranqüila de Melissa, repousaria sua última mensagem, um não se importe, cara, fomos humanos, apenas humanos. Seria demais esperar que a dor tivesse vergado aquela mulher a ponto de transformar seu ódio em resignada piedade; assim, Gabriel preparava-se para carregar vida afora esse fardo feito condenação.

O avião aterrissou no Santos Dumont pontualmente às oito. No saguão do aeroporto, lembrou-se de sacar algum para pagar o táxi e cobrir as outras despesas. Achou melhor comer ali mesmo, antes de enfrentar a maratona. Deveria ligar para o Paulo para, de antemão, pedir sua ajuda? Tomou um café puro com dois pães de queijo. Entrou na livraria, folheou algumas revistas.

Precisava de um instante, de pegar fôlego antes de ir para a cidade de fato, a que se apresentava concreta fora dos limites do aeroporto. Sentou-se num banco qualquer, abriu o jornal e foi direto aos anúncios necrológicos. A família entristecida agradecia e anunciava. Os amigos — o nome dele não constava na lista, óbvio, mas doído —, os amigos anunciavam.

O celular tocou.

— Sim?

— Você?

Tremeu. O jornal, dobrado sobre sua perna, caiu no chão. Não estava em seus planos receber um telefonema, qualquer telefonema, aquele em particular.

— Eu.

— Você já sabe, não é?

— Sim. Sei.

— Você está no Rio? Vai vê-la?

— Que idéia!

— Vamos juntos?

Gabriel desligou o telefone como se isso fosse suficiente para livrá-lo do imprevisto. Levantou-se e foi ao banheiro. Não teve o que mijar. Lavou as mãos. Voltou ao balcão da lanchonete e pediu uma dose de uísque. Enfiou o dedo nas pedras de gelo e ficou, por um longo instante, mexendo-as. Não, ali não era o lugar para chorar. Não chorou. Bebeu com vagar o primeiro gole.

Novamente o celular.

— Olha, o enterro é amanhã, às dez. Venha para o Rio. Você está no Rio?

— Por que estaria, hem?

— Não lhe faltariam motivos.

— Por favor.

— Tome suas providências e venha. Precisamos ir juntos.

Não esperaria um novo telefonema parado ali, sem coragem para fazer o que havia proposto a si mesmo.

No carro, o Aterro ia sendo vencido a uma boa velocidade, e num piscar de olhos Gabriel estaria no São João Batista. Um novo telefonema — se houvesse, se ele, como lhe ocorrera agora, simplesmente não desligasse o aparelho — já o encontraria diante de Melissa, vivendo as emoções que sua mente não conseguia antever.

Veio-lhe à memória, quando o táxi ia pegar a Barata Ribeiro, a caixa, o dia exato em que ele e Melissa enfiaram as coisas na caixa e fizeram a promessa de mantê-la, em qualquer circunstância, como uma espécie de documento de amor. Gabriel pediu ao taxista para ir pela praia, havia se lembrado de ter de passar na casa de um amigo. Na altura da Bolívar, desceu do carro e foi caminhando no sentido de Ipanema. Caminhava como se não soubesse para onde, mas nunca estivera tão seguro de seu rumo.

Gesticulou ao porteiro e foi logo reconhecido.

— O senhor sabe, não é?

— Sim, Zé. Pediram para eu passar aqui e pegar uns documentos. As chaves estão com você, certo?

A casa não estava muito diferente. Os quadros eram os mesmos. De novo, uma cortiça com fotos; nenhuma dele, algumas tiradas por ele. Sobre o fogão, uma panela vazia e limpa. Lençóis pendurados no varal. Na geladeira, medicamentos e algumas poucas coisas, perecíveis, em estado adiantado de apodrecimento. Um suporte desses de pendurar soro estava ao lado da cama e, no lixo, seringas usadas, algodões sujos. Pelo jeito, saíram às pressas — e não voltaram. A cama não era a deles. Gabriel abriu o guarda-roupa para procurar a caixa. Encontrou-a debaixo de umas poucas camisetas, velhas, lisas, encardidas. Melissa só dormia de camiseta e calcinha, no frio ou no calor, no cio ou nas distâncias; com ele e provavelmente com os outros; no pleno gozo da saúde, mas não na doença, quando decerto a mãe se fizera dona da vida da filha e deitara sobre ela um punhado de regras, a começar pelo uso de camisolas de algodão para receber a visita dos médicos e a dos amigos.

Abriu a caixa. Vazia.

“Não, Gabriel”, disse a si mesmo, “você não acreditou que ela pudesse manter uma bobagem dessa por toda a vida!”

“Você faria o mesmo, Gabriel.”

“Gabriel, Melissa não era uma adolescente!”

Desceu à rua. Seguiu até a Nossa Senhora de Copacabana e entrou no pé-sujo da esquina. Talvez deixasse transparecer seu desapontamento, o certo é que o homem do bar perguntou-lhe se havia algum problema, se precisava de alguma coisa. Pediu uma bebida e foi tudo. A cerveja nem estava lá essas coisas, mas caiu-lhe bem.
A todo instante, Gabriel enfiava a mão no bolso da calça para certificar-se de que as chaves da casa de Melissa estavam ali, de que ali também estava a chave da caixa, da caixa vazia. Se contasse ao Paulo como se sentia ultrajado naquela hora, se contasse à voz no telefone, ririam dele — logo você?

Nem chegara a tomar toda a cerveja e já comandava um trago mais forte. O homem deu-lhe uma dose de pinga, bebida vorazmente. Um outro freguês, do outro lado do balcão, puxou um brinde. Gabriel chorou copiosamente.

A ordem do boteco não foi perturbada nem ninguém correu em socorro de Gabriel. Tampouco lhe fingiram indiferença, as peças permaneceram onde estavam: o atendente deitando um trago aqui, abrindo uma cerveja lá; o freguês dado a comemorações recolhido a um silêncio acompanhado de gestos voltados a Gabriel: vivas e mais vivas!
De volta ao apartamento, abriu novamente o armário e a caixa. Abriu também as gavetas e sacou tudo de lá de dentro: roupas, papéis, fotos, sapatos, bugigangas. Em algum lugar estaria.

O celular:

— O que você quer?

— Venha para o Rio. Vamos juntos ao cemitério. Você está no Rio?

— Tudo o que nos aconteceu já não foi suficiente? De certo modo, não matamos Melissa? Precisamos de um segundo erro?

— Ao contrário, seu merda.

Ficaram mudos. Em seguida, tudo o mais caiu em silêncio, ou, de outro modo, mesmo que tudo gritasse, Gabriel não ouviria; mesmo que tudo se mexesse, Gabriel não veria; mesmo que tudo se esclarecesse, Gabriel não notaria. Desligou mais uma vez o celular, tirou da bolsa o carregador de bateria e colocou o aparelho para carregar.
Não reconhecia as roupas largadas no chão. Talvez isso desse a dimensão do tempo transcorrido. Largo tempo que não amainou aquele sofrimento intenso e aprisionador. Gabriel fechou os olhos como se procurasse dentro de si o elo perdido. Encontrou borrões. Ora o rosto de Melissa, ora os pés, um quebra-cabeça gigante cujas peças andariam espalhadas aí pelos cantos — mastigadas dentro dele.

O interfone tocou. Gabriel atendeu-o como se fosse natural fazê-lo.

— Seu Gabriel?

— Diga, Zé.

— Sabe o que é? Não era só um documento que o senhor ia pegar?

— Não se preocupe, eu já estou indo embora.

— Seu Gabriel, assim o senhor arruma confusão para o meu lado.

— Não demoro muito mais, não.

Gabriel concluiu que estava agindo como uma criança, o porteiro tinha razão. Não conseguira ir ao cemitério. Não dera um basta à voz no telefone. Não ficara quieto no seu cárcere, triste, mas conformado, em nunca mais ver Melissa.

Antes de juntar suas coisas e sair, tirou uma das fotos da cortiça e guardou-a em sua bolsa.

Paulo custou a atender o interfone. Levou mais tempo para perceber, primeiro, e acreditar, depois, que era Gabriel quem chamava.

Os dois fitaram-se longamente antes de Paulo convidá-lo a sentar-se. O silêncio continuou entremeando alguns oferecimentos feitos por Paulo e aceitos por Gabriel: café, água, biscoitos, cerveja.

— Você já foi lá?

— Sim. Não pense em ir, cara. Nem pense.

— O que você acha que estou fazendo aqui?

— Esqueça.

— E a minha dor?

— Quem vai acreditar na sua dor?

— Ninguém precisa acreditar, basta que me deixem ver Melissa.

— Conta outra, Gabriel.

— Até você, Paulo?

— Eu? O que é que tem eu?

— Quero ver Melissa.

— Ela esticou as canelas, não existe mais.

— Quero vê-la.

Paulo convidou-o para ficar e dormir. Era melhor deixar para resolver as coisas logo cedo, descansados pensariam melhor. Gabriel agradeceu, mentiu estar hospedado em um hotel. Amanhã se falariam ou se encontrariam no enterro.

— Não vá, Gabriel.

Saiu do prédio de Paulo, tomou a Tonelero em direção ao Leme. Cruzava as ruas, e Copacabana fazia-se viva na memória. A delegacia da Paula Freitas certa vez. A Polonesa tantas vezes, com e sem Melissa. O colégio das freiras e o entra-e-sai de garotas e mães de garotas. As putas, em todos os lugares.

Entrou no Cervantes para comer um filé com abacaxi. Tomou dois chopes. Já estava com um pé na rua quando voltou para um terceiro e um quarto chopes. A manhã não tardaria.

Gabriel pegou o celular e ligou.

— Poxa, cara, onde você está afinal?

— No Cervantes.

— Não saia daí.

— Não venha, por favor.

— Vamos juntos. Eu, você, Melissa também, por que não?, merecemos essa chance.

— Melissa está morta, não fale dela.

— Nós precisamos ir lá. Você precisa. Eu preciso.

— Você? Por que você? Se não querem que eu vá, o que dizer de você?

— Temos de ir juntos, Gabriel.

— Se você tem, que vá sozinha. Já tenho problemas demais.

— Eu preciso lhe dizer uma coisa.

— Não me diga.

— Melissa...

— Não quero saber.

Gabriel ocupou um quarto simples de hotel. Pediu para ser chamado às nove.

Um pouco antes das dez, entrava no São João Batista. Alguns familiares de Melissa desciam as escadas para deixar o cemitério. Não se falaram. Foi Paulo quem lhe explicou as razões de o enterro ter sido antecipado. Foi também Paulo quem pediu para Gabriel ir até a sala onde fora velado o corpo de Melissa.

Lá dentro encontrou Maria. Nas mãos, uma caixa de madeira em tudo igual à outra.

— Melissa pediu para virmos os três: você, eu e a merda desta caixa. Ontem, por mais que eu tentasse lhe dizer, você não queria ouvir. Não cumpri uma promessa. Você perdeu sua última chance.

Gabriel não agradeceu nem se desculpou. Sequer olhou para Maria com alguma intenção ou curiosidade. Segurou a caixa e foi para perto da janela. Maria sumiu.

Poderia abrir a caixa e ver. Mas aquele punhado de trecos largado dentro dela, a bem da verdade, não teria significado algum. O pedreiro ainda estaria deitando os últimos tijolos no túmulo de Melissa, a derradeira caixa que o tempo cuidaria de esvaziar de sentido. Gabriel imaginou o desgaste do homem sob o calor daquele sol; meneou a cabeça em desaprovação a essa técnica antiga de guardar um amontoado de ossos; um amontoado de ossos, só isso.

Melissa, Maria e ele; para todos, um triângulo amoroso desses dados a ter um final cruel; para Gabriel, apenas a travessia entre o chão e o abismo. No primeiro, pisara triste; no segundo, caíra igualmente triste. Triste continuava sua vida na terceira margem do rio, no exílio voluntário encontrado em São Paulo. Viera ao Rio para não ver Melissa, para resistir a Maria, para não perder de vista o canalha que ele era e com o qual se aprazia.

Se é que era essa a verdade.
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