18.11.11

Nas Quebradas da Vida


Vamos, confesse aqui para o seu amigo, você já namorou em uma quebrada, não foi? Sua mãe não precisa saber, prometo sigilo, e seus filhos, se você os tiver, sabem o que é estar quebrado, mas não sabem o que é uma quebrada. Vamos, amigo, amiga, contem aqui no meu ouvidinho, sem medo, sua história.
Com o advento do motel, as coisas mudaram. Por um lado, ficou mais fácil namorar, por outro, não. Se chegar a um quartinho todo arrumado e desfrutar dos doces momentos da vida é uma beleza, chegar ao motel nem sempre é trivial. Às vezes, o casal tem o carro, mas está sem grana. Às vezes, tem o carro, tem a grana, mas a cidade é pequena e o porteiro é conhecido de um tio, do pai.
Nessas horas difíceis, dar uma meia-volta na modernidade e aceitar a única opção possível é o que nos resta. Pois, quando um casal fez o pacto do encontro, se não for no conforto de um quarto será no Fusca. Ah! O Fusca. Quanta ginástica, meu Deus. Muitos dos problemas de coluna que temos hoje se devem aos movimentos que fomos obrigados a fazer dentro de um Fusca. Por amor, é claro. Até o amor, que não tem contraindicação, tem efeitos colaterais.
Todos sabemos, entretanto, que as quebradas têm lá os seus perigos. Mesmo em cidades pouco violentas, sempre há um espírito de porco doido por assustar alguém. Comigo já aconteceu de ser a própria polícia a me pegar no flagra. Sorte que foram compreensivos e fizeram vista grossa à minha tentativa de corrompê-los — quer dizer, não aceitaram os meus minguados 5 contos — e nos mandaram, a mim e à namorada, dar o fora da área. Que não se repetisse aquilo outra vez, senão... Com outros amigos foi pior. Uns bandidos os deixaram nus com a mão no bolso — não é exagero. 
Se para o amor a quebrada foi deixada de lado, servindo apenas como a última opção, para coisas ilícitas, ela passou a ser o quente. A moçada corre aqui e ali para enrolar seus baseados; o lado A e o lado B de uma transação fora da lei marcam encontro no mais escondido dos lugares. E por aí vai. A quebrada mudou da água para o vinho; ou melhor, deixando a citação bíblica de lado: não é mais cantinho do amor, mas escritório de negócios escusos.
Todavia, a grande transformação da quebrada ocorreu lá em casa, já vai um tempo, quando meus filhos mais velhos tinham não mais que dez anos. Estávamos recebendo amigos. Os adultos ficamos na sala, sorvendo um bom vinho, beliscando queijos e pães. As crianças espalharam-se pelo resto da casa, pulando da cozinha para a sala, da sala para um quarto e deste para outro. Era uma farra medonha. Para nós, os coroas, estava tudo bem, as crianças gritavam, mas a gente conseguia botar a conversa em dia.
Numa certa hora, resolvi pegar um CD no meu quarto. Eis a surpresa: escondido entre o guarda-roupa e o armário em que estão trancados meus preciosos CDs, o que eu vejo? O Ken e a Barbie transando. Sim, caro leitor, estava lá o namorado da Barbie, aquela boneca bonitinha, mas sem sal, deitado sobre ela.
Tudo bem, os dois são só bonecos, e meu quarto não é um matinho providencial. Mas, nestes tempos em que o ser humano transa por computador, aquela foi realmente a mais explícita das cenas de sexo. Não tive vontade, leitores, de repreender os meus filhos. Pai de primeira viagem, não acreditava em repressão sexual pura e simples. Hoje, com filhos na casa dos vinte anos, não me arrependo. 
Não posso negar, entretanto, que fiquei pasmo, sentindo o mesmo assombro que nossos pais teriam sentido quando éramos nós que crescíamos. Talvez um pouco mais: precocemente, intuí que meus próximos passos seriam dados dentro de um túnel, dentro da escuridão que a estúpida responsabilidade nos impinge. Assim tem sido, e não sei avaliar se estou me saindo muito bem.

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