28.2.12

Com os olhos na Babilônia


        Lá fomos nós, eu e meus filhos homens, para Minas Gerais, para a vizinhança de Passos. Como é bonita a região, farta em água e trombas d’água. Passamos ao largo do perigo, atirando-nos ao mar de Minas, como se diz, na boa, quando o tempo mostrou-se seguro. Não conhecia o Vale do Céu e, até agora, não encontro palavras para descrever tudo aquilo que vai do caminho morro acima, passa pela estrutura do hotel e termina na série de cachoeiras. A natureza caprichou naquele trecho.

Vista da Babilônia a partir da Parada dos Lagos. Foto própria.


Antes de chegar ao Vale do Céu, alojei-me na Parada dos Lagos, pousada de um casal amigo, Parada e Deucélia. Poderia falar maravilhas dessa estada, mas vou me ater a um único detalhe. Enquanto estive lá, meus olhos cuidaram da Serra da Babilônia. Ora ela estava emoldurada pelo céu azul. Ora coberta de nuvens. Ora tampada pela chuva. Não me distraí dela em momento algum, pois ela é filha da gente e mãe da gente. Meu pai levava boi por aquelas dobras de Minas, nas sombras da Babilônia, vez ou outra fazendo os cascos do cavalo pisarem em seus aclives. Agora a Serra está, como diria Drummond, presa às minhas retinas nem tão cansadas e fixada em alguma foto de qualidade duvidosa. É pouco, voltarei para contemplá-la, para, de tanto olhá-la, tirar-lhe algumas lascas invisíveis e tomar, assim, posse intangível dela.
Um parêntese: Parada me contou que Deucélia começou a escrever contemplando a Serra: musa num mundo sem musas. E ela tem levado tão a sério isso de escrever que acaba de lançar “Léa e a lua”, livro prefaciado pelo Barreto. As palavras são dele, nosso poeta: “Nesta história deliciosa — igualzinha aos seus pratos, quitandas e confeitos mais saborosos — Deucélia nos coloca nas asas de uma mariposa que, metaforicamente, retoma a trajetória da humanidade inteira quando quer se ver, se conhecer, ou viajar para o distante, o inatingível... a fim de descobrir sua própria beleza.” É livro pra ler (nem todos são), como a Serra é pra ver.
A viagem não foi só deslumbre e reencontro. Um certo Barba me disse que, pulverizado do céu por um avião amarelo, ave mecânica, o veneno que mata as pestes sempre prontas para destruir as plantações de soja e cana tem matado também os pássaros, bicho que enche a pança com insetos. Tanto mosquito morto ali no chão, banquete pantagruélico, e os passarinhos nem para se darem conta de que, como cantava Ataulfo Alves, “laranja madura na beira da estrada, tá bichada, Zé, ou tem maribondo no pé”. Lá na Ponte Alta, pássaro-preto, sanhaçu, canarinho e não sei mais quantos estão degustando veneno e, pumba, caindo durinhos no chão. Morrem e, do mesmo veneno, matam os filhos e as cobras, que comem sem esforço pais e filhos largados no chão. Enfim, há um desastre ecológico pras bandas de Delfinópolis. Quem cuida disso?
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